A CULTURA E AS CULTURAS, Introduo  Antropologia Cultural

10 / 11 Anos de Escolaridade

EDIES ASA

iNDICE

0. 0 MUNDO EM QUE VIVEMOS, 5

0. 1. o mundo natural e o mundo artificial, 6

0.2. As ideias e as Coisas, 8

1. A ANTROPOLOGIA CULTURAL, 11

1.1. A Antropologia Cultural: o seu ponto de vista,

objectivo e especificidade. Relaes com outras cincias humanas e sociais, 
12

1. 1. 1 A ANTROPOLOGIA CULTURAL E A ANTROPOLOGIA SOCIAL.

ETNOLOGIA, ETNOGRAFIA E HISTRIA. A ANTROPOLOGIA FISICA, 12

1, 1 .2. 0 CAMPO DE ACO DA ANTROPOLOGIA CULTURAL, 14

O LABORATRIO DO ANTROPLOGO, 21

2.1. A cultura e as culturas, 22

2.1.1. CONCEITO DE CULTURA. 0 HOMEM E AS SUAS OBRAS. AS
QUALIDADES DISTINTIVAS DA CULTURA. DO BIOLGICO AO CULTURAL E DO CULTURAL AO 
BIOLGICO, 22

2.1.2. 0 HOMEM, A CULTURA E A SOCIEDADE, 25

2.2. Componentes da cultura, 32

2.1.2. 0 HOMEM. AS SUAS ORIGENS, 32

2.2.2. OS DIFERENTES STOCKS IRACIAIS E SUA DISCRIMINAO

GEOGRFICA, 44

2.2.3. NATUREZA E CULTURA. NATUREZA-AMBIENTE E CULTURA.

DESAFIO E RESPOSTA, 57

2.3. A estruturao da cultura. 59

2.3.1. UNIDADES ELEMENTARES DA CULTURA. TRAOS E

COMPLEXOS CULTURAIS, 59

2.4. Aspectos universais da cultura, 67

2.4. 1. A TECNOLOGIA CULTURAL OU A ETNO-TECNOLOGIA

CULTURAL, 67

2.4.2. A ECONOMIA: SISTEMAS DE AQUISIO E DE PRODUO DE

BENS, ORGANIZAO ECONMICA, 69

2.4,3. A ORGANIZAO E A ESTRUTURA DA SOCIEDADE, 74

2.4.4. 0 CONTROLO SOCIAL, 84

2.4.5. AS REPRESENTAES COLECTIVAS, 96

2.5. 0 dinamismo cultural, 112

2.5.1. ASPECTOS ESTTICOS E DINMICOS DA CULTURA, 112

2.5.2. MECANISMOS DE MUDANAS CULTURAIS. MECANISMOS

INTERNOS E EXTERNOS, 114

3. A ANTROPOLOGIA CULTURAL PORTUGUESA, 119

3.1. Alguns aspectos histricos, 120

3.2 Nomes da Antropologia Portuguesa, 122

4. TRABALHOS PRMICOS, 123

4.1. Leitura de textos, 124

4.2. Visitas, 131

4.3. Desmontagem e explicaes de festas, ritos,

acontecimentos do quotidiano, etc- 136

GLOSSRIO, 138 AUTORES CITADOS, 140 BIBLIOGRAFIA, 141



MUNDO EM Qu

(0. 0 MUNDO EM QUE VIVEMOS

0 mundo humanizado

0.1. 0 mundo natural e o mundo artificial

0 Real ?  aquilo que resiste, insiste, existe irredutivelmente, e se d, 
ao mesmo tempo que se furta, como gozo, angstia ou castrao.

Serge Leciaire, Desmascarar o real

0 mundo que nos rodeia  constitudo por objectos, imagens, smbolos. 0 
homem define-se como linguagem, inscreve-se na sociedade,  um ser social 
que tende e se realiza na gregaridade; e a sociedade inscreve-se nele, 
marca-lhe o corpo e o esprito nos

hbitos, nos gostos, nos gestos. Os seus sentidos captam o mundo atravs de 
esquemas de interpretao, tornando-o mais prximo, enquadrando-o, 
domesticando-o.

Enquanto realidade ainda no reconhecida e classificada pelo homem, a 
natureza revela-se como o puro Inspito. Que acontece quando no h um 
projecto humano medianeiro entre ns e a natureza?  o reino da absoluta 
incomunicabilidade. Perante os nossos olhos deslizam configuraes 
instveis, que so incompreensveis e angustiantes.

Ernesi Grassi, Arte e Mito

 esse o modo de ser e o destino que o homem criou para si ao tornar-se um 
animal simblico: transformar a natureza, modific-la, acrescent-la, 
domin-la, para exorcizar(*) o medo e a angstia que o incomunicvel parece 
provocar-lhe. Por isso o homem humaniza a paisagem que  o seu suporte, 
transformando a matria bruta em objectos familiares, sinalizando um mundo 
hostil com uma rede de comunicao conhecida que sobrepe ao mundo natural. 
As imagens que temos do mundo, os smbolos

com que o podemos representar, interpem-se sistematicamente na nossa 
percepo: o

tipo de cultura que interiorizamos oferece-nos um mundo ordenado, diferente, 
surgindo como percepo sensvel, imediata, um universo de sensaes e 
imagens que ratificam constantemente o novo como (re)conhecido.

Suspirou profundamente e arrojou-se - havia uma paixo nos seus movimentos 
que justifica a palavra - ao cho, aos ps do carvalho.

Sob toda a transitoriedade do Vero, gostava de sentir debaixo do corpo o 
espinhao da terra - pois assim se lhe afigurava a dura raiz do carvalho - 
ou, por sucesso de imagens, o lombo de um grande cavalo que ia cavalgando; 
ou a coberta de um navio agitado
- qualquer coisa, na verdade, contanto que fosse firme, pois sentia 
necessidade de alguma coisa a que pudesse amarrar o seu incerto corao, o 
corao que lhe dava arrancos no peito.

Virgnia Woolf, Orlando

Imagens culturais interpem-se entre o homem e o mundo e este surge-lhe 
transformado, feito de percepes e alucinaes(*) que se apresentam como 
sensaes do vivido no momento.

Tecnicamente, o mundo natural  o mundo intocado, sem interveno do homem,- 
o mundo humanizado, transformado pela sua aco,  o mundo artificial.

Mundo natural e mundo artificial

Na realidade, a percepo do mundo natural no  to natural como parece, 
pois este  filtrado pelos quadros culturais, pelas imagens e pelas ideias 
pr-concebidas que cada cultura fornece ao indivduo; o mundo natural  
sempre humanizado, pois a se inclui sempre uma representao do homem que o 
percepciona. Porm, existe a paisagem no-humanizada, aquela onde o homem 
no marcou a sua passagem, nada modificou.

0 processo de transformao do mundo natural em mundo artificial nem sempre 
resulta em sobrevalorizao do seu rendimento; instituies como a 
agricultura aumentam o rendimento da natureza em relao s necessidades do 
homem; instituies religiosas proibitivas de ingerir certos alimentos 
naturais - como leite e certa carne de animais - podem subaproveitar a 
natureza.  conhecido o papel da poluio industrial sobre uma natureza 
progressivamente degradada.

FORA BIOLGICA

(HOMEM)

CULTURA

MUNDO NATURAL

MUNDO ARTIFICIAL 0

Esquema do sobreaproveitamento do mundo natural atravs da cultura

A energia humana (fora biolgica) exercendo-se sobre a natureza cria o 
mundo artificial atravs da cultura (tudo o que o homem acrescenta  
natureza), aumentando-lhe o rendimento - sobreaproveitando-o.

FORA BIOLGICA

(HOMEM)

CULTURA

MUNDO NATURAL

MUNDO ARTIFICIAL

Esquema de subaproveitamento do mundo natural atravs da cultura

A cultura, aqui, diminui o espao de utilizao do mundo natural pelo homem; 
o

mundo natural est subaproveitado. Nem sempre a cultura surge como progresso 
econmico.

0.2. As ideias e as coisas

0 mundo artificial no  apenas o resultado da produo humana de objectos 
materiais
- produzidos pela mo ou pelo seu complemento, essa segunda mo do homem, 
que  o utenslio -,  tambm o resultado de objectos sociais e de objectos 
espirituais que determinam o sentido dos projectos de transformao da 
natureza.

MUNDO NATURAL

coisas materiais

Artefactos

MUNDO ARTIFICIAL

coisas espirituais

Sociofactos

Mentefactos

0 mundo da mo e o mundo. do crebro (in Mesquitela Lima, Int,  
Antropologia Cultural)


Os objectos do mundo da mo so os artefactos, objectos produzidos a partir 
da matria, objectos materiais como, por exemplo, um cesto, um barco ou um 
vaso de cermica; os sociofactos so os objectos sociais criados para 
regular a prtica social dos membros duma comunidade, como um interdito, uma 
norma de comportamento, um aperto de mo, uma cerimnia de casamento. Os 
sociofactos s o puros objectos de comunicao que s tm funcionalidade 
quando exclusivamente praticados pelos actores sociais. Os mentefactos so 
objectos espirituais produzidos pelo esprito; tal como os sociofactos 
pertencem ao mundo do crebro, no implicando, necessariamente, a 
comunicao social, a vida em grupo, para existirem e serem produzidos - uma 
cano, um poema, uma lei cientfica so mentefactos.

Objectos, imagens, smbolos, ideias - ideias e coisas - constituem o mundo 
da cultura produzido pelo homem. As coisas permitem-lhe usar o mundo em seu 
proveito, e as ideias compreend-lo, aproximar-se dele atravs da sua grelha 
de leitura scio-cultural(*). No  s a paisagem natural que fica 
progressivamente humanizada,- a leitura da viso do mundo natural tem 
variado atravs dos tempos e continua a variar de cultura para cultura, de 
ideologia para ideologia, conforme os paradigmas cientficos vigentes, as 
crenas e as religies; a paisagem do universo percebido pelo liberal do 
sculo XIX no  a

mesma que foi percebida pelo homem do mundo clssico; o mundo do mstico no 
 o mesmo do cientista. 0 universo social humano determina a apreenso da 
natureza ambiente.

 este o mundo que nos rodeia, um mundo de ideias, um mundo de coisas. 0 
homem produtor de objectos, smbolos e conceitos, rodeia-se de uma 
intrincada rede simblica de comunicao que reproduz, no exterior, a 
complexidade do seu prprio sistema nervoso; atravs dos outros (receptores 
de mensagens) situa-se a si mesmo como sujeito (emissor de mensagens) e 
determina, fora de si, o seu lugar no mundo social e fsico. Representa o 
seu papel dentro dum mundo artificial que no deixa de se tornar mais 
complexo, acumulando continuamente novos elementos de cultura porque as 
culturas emigram com os homens e deixam traos no mundo inteiro. As 
invenes, as descobertas e as prticas mais eficazes so adoptadas pelos 
povos mais diversos e a cultura constitui-se como cumulativa.

Que esta histria cumulativa no seja privilgio de uma civilizao ou de 
um perodo da histria,  convincentemente mostrado pelo exemplo da Amrica. 
Este imenso continente v chegar o homem em pequenos grupos de nmadas 
atravessando o estreito de Behring favorecido pelas ltimas glaciaes, numa 
data talvez no muito anterior ao 20.  milnio. Em vinte ou vinte e cinco 
mil anos, estes homens conseguiram uma das mais admirveis demonstraes de 
histria cumulativa que existiram no mundo: explorando a fundo as fontes do 
novo meio natural, domesticam (ao lado de determinadas espcies animais) as 
espcies vegetais mais variadas para a sua alimentao, os seus remdios e

os seus venenos - facto nunca antes igualado -, promovendo substncias 
venenosas, como a mandioca, ao papel de alimento base, outras ao de 
estimulante ou de anestsico coleccionando certos venenos ou estupefacientes 
em funo das espcies animais sobre as quais exerce uma aco electiva: 
finalmente, levando determinadas indstrias como a

tecelagem, a cermica e o trabalho de metais preciosos ao mais alto grau de 
perfeio. Para apreciar esta obra imensa, basta medir a contribuio da 
Amrica para as civilizaes do Mundo Antigo. Em primeiro lugar, a batata, a 
borracha, o tabaco e a coca (base da anestesia moderna) que, a ttulos sem 
dvida diversos, constituem quatro pilares da cultura ocidental,- o milho e 
o amendoim que deveriam revolucionar a economia africana antes talvez de se 
generalizarem no regime alimentar europeu - em seguida, o cacau, a baunilha, 
o tomate, o anans, o pimento, vrias espcies de feijo, de algodes, de 
cucurbitceas. E, finalmente, o zero, base da aritmtica e, Indirectamente, 
das matemticas modernas, era conhecido e utilizado pelos Mayas pelo menos 
meio milnio antes da sua descoberta pelos sbios indianos, de quem a Europa 
o recebeu por intermdio dos rabes. Talvez por esta mesma razo o seu 
calendrio fosse mais exacto que o do mundo antigo.

............................................................................
....... ................................

Se o critrio adoptado tivesse sido o grau de aptido para triunfar nos 
meios geogrficos mais hostis, no havia qualquer dvida de que os esquims 
por um lado e os bedunos por outro levariam a palma. A ndia soube, melhor 
do que qualquer outra civilizao, elaborar um sistema filosfico-religioso, 
e a China, um gnero de vida, capazes de reduzir as consequncias 
psicolgicas de um desequilbrio demogrfico. H j treze sculos, o Islo 
formulou uma teoria da solidariedade de todas as formas da vida humana, 
tcnica, econmica, social e espiritual, que o Ocidente s muito 
recentemente deveria encontrar, sob certos aspectos, com o pensamento 
marxista e o nascimento da etnologia moderna. Sabemos o lugar proeminente 
que esta viso proftica permitiu ocupar aos rabes na vida intelectual da 
Idade Mdia.


0 Ocidente, dono das mquinas, testemunha conhecimentos muito elementares 
sobre a utilizao e os recursos desta mquina suprema que  o corpo humano. 
Neste domnio, pelo contrrio, tal como naquele outro que a ele se liga, o 
das relaes entre o fsico e o

moral, o Oriente e o Extremo Oriente possuem sobre este um avano de vrios 
milnios, produzindo vastas acumulaes tericas e prticas que so o yoga 
na ndia, as tcnicas do sopro chinesas ou a ginstica visceral dos antigos 
Maors. (    ..)

Em tudo o que diz respeito  organizao da famlia e  harmonizao das 
relaes entre o grupo familiar e o grupo social, os Australianos, atrasados 
no plano econmico, ocupam um lugar to avanado em relao ao resto da 
humanidade que  necessrio, para compreender os sistemas de regras por eles 
elaboradas de maneira consciente e

reflectida, apelar para as formas mais refinadas das matemticas modernas. 
Na verdade, foram eles que descobriram que o casamento forma a talagara 
sobre a qual as outras instituies sociais so apenas rendilhados (    ... 
) os grandes sistemas polticos da frica antiga, as suas construes 
jurdicas, as suas doutrinas filosficas durante muito tempo

escondidas do Ocidente, as suas artes plsticas e a msica, que exploram 
metodicamente todas as possibilidades oferecidas para cada meio de 
expresso, so outros tantos ndices de um passado extraordinariamente 
frtil. Este pode ser directamente testemunhado pela perfeio das antigas 
tcnicas do bronze e do cobre, que ultrapassam de longe tudo o que o 
Ocidente praticava nesse domnio, na mesma poca.

Claude Lvi-Strauss, Raa e Histria

Cada cultura  sempre um cdigo cifrado de significantes, de que a 
comunidade partilha, se bem que dum modo diverso, o cdigo de decifrao. 
Este cdigo vai sendo sucessivamente alterado com novas aquisies e 
aproximaes da realidade. 0 mundo artificial tende hoje a um carcter 
planetrio, regendo-se por hbitos e padres onde a diferena se torna mais 
rara,- ao mesmo tempo h um movimento crescente de aproximao patenteada 
pelas organizaes internacionais como a 0. N.U. e tantas outras. Como se o 
homem tivesse cada vez mais conscincia de que esse mundo artificial 
poderoso e

perigoso, cobrindo mais do que o seu planeta, seja o patamar da sua 
destruio.

0 mundo comeou sem o homem e acabar sem ele. As instituies, os costumes 
e os hbitos que eu teria passado a vida a inventariar e a compreender so 
uma eflorescncia passageira de uma criao em relao  qual no possuem 
qualquer sentido seno, talvez, o de permitir  humanidade desempenhar o seu 
papel. Longe de ser este papel a marcar-lhe um lugar independente e de ser o 
esforo do homem - mesmo condenado
- a opor-se em vo a uma degradao universal, ele prprio aparece como uma

mquina, talvez mais aperfeioada que as outras, trabalhando no sentido da 
desagregao de uma ordem original e precipitando uma matria poderosamente 
organizada na direco de uma inrcia sempre maior e que ser um dia 
definitiva. Desde que ele comeou a respirar e a alimentar-se at  inveno 
dos engenhos atmicos e termonucleares, passando pela descoberta do fogo - e 
excepto quando se reproduz - o homem no fez mais do que dissociar 
alegremente bilies de estruturas para reduzi-Ias a um estado em que elas j 
no so susceptveis de integrao. Sem dvida que ele construiu cidades e

cultivou campos,- mas, quando pensamos neles, estes objectos so, eles 
prprios, mquinas destinadas a produzirem inrcia a um ritmo e numa 
proporo infinitamente mais elevada que a quantidade de organizao que 
implicam. Quanto s criaes do esprito humano, o seu sentido no existe 
seno em relao a ele, e elas confundir-se-o com a desordem quando ele 
tiver desaparecido. Se bem que a civilizao, encarada no seu conjunto, 
possa ser descrita como um mecanismo prodigiosamente complexo em que 
seramos tentados a ver a oportunidade que o nosso universo teria de 
sobreviver se a sua funo no fosse seno fabricar o que os fsicos chamam 
entropia, isto , inrcia. Cada palavra trocada, cada linha impressa, 
estabelecem uma comunicao entre dois interlocutores, tomando estacionrio 
um nvel que se caracterizava anteriormente por um

afastamento de informao, portanto, uma organizao maior. Em vez de 
antropologia, seria necessrio escrever entropologia, o nome de uma 
disciplina dedicada ao estudo, nas suas manifestaes mais elevadas, deste 
processo de desintegrao.

No entanto, existo.                                  Claude Lvi-Strauss, 
Tristes Trpicos

Marcado no corpo e no esprito pelo seu prprio processo de evoluo e 
desenvolvimento, o homem no sabe outra forma de estar no mundo; quando 
recusa e tenta afastar-se deste mundo simblico que o afastou 
definitivamente do mundo natural - e da realidade - cai no vazio social pois 
a sua recusa em ser o intrprete do mundo natural  visto pela sociedade 
como loucura,- a cultura fez uma tal leitura do nosso mundo que o

homem no se reconhece nele;  a incomunicabilidade total e consciente.

 Toda a escrita  uma porcaria. As pessoas que saem do indeciso para tentar 
precisar seja o que for do que se passa no seu pensamento, so uns porcos.

Toda a gente literria  porca, especialmente a dos tempos de hoje. Todos 
aqueles que tm pontos de repetio no esprito, num certo lado da cabea, 
em

locais bem localizados do seu crebro, todos aqueles que so mestres da 
lngua, todos aqueles para quem as palavras tm um sentido, todos aqueles 
para quem existem altitudes de alma e correntes no pensamento, aqueles que 
so o esprito da poca, e que denominaram essas correntes do pensamento, eu 
penso nas suas precisas necessidades, e nesse movimento de autmato que 
atira a todos os ventos o seu esprito - so uns porcos.

Antonin AQaud, Le Pse-Nerfs

10

o z,

.... ......

(@ A_ ANTROPOLOGIA CULTURAL

0 Museu Antropolgico no , necessariamente, o ponto de chegada da 
Antropologia

1.1. A Antropologia Cultural: o seu ponto de vista, objectivo e 
especificidade. Relaes com outras cincias humanas e sociais

1. 1. 1. A ANTROPOLOGIA CULTURAL E A ANTROPOLOGIA SOCIAL. ETNOLOGIA, 
ETNOGRAFIA E HISTRIA. A ANTROPOLOGIA FSICA

A Antropologia constitui-se como cincia autnoma em torno de trs teorias: 
no sculo XIX, com o evolucionismo darwiniano(e); na primeira metade do 
sculo XX, com o funcionalismo(*) e a partir da dcada de 60, com o 
estruturalismo(*).

Define-se como o estudo da origem e evoluo do homem numa perspectiva 
biolgica, do mbito das cincias da natureza. Ser este o campo de estudo 
da Antropologia Fsica, quando outras perspectivas de estudo passam a caber 
no universo da Antropologia. Na realidade, o prprio mtodo de estudo da 
Antropologia Fsica, recorrendo  comparao de testemunhos sseos, fsseis 
e instrumentais, e a mesma concluso do homem como produtor de cultura, 
motor da sua progressiva adaptao e transformao, obrigam  ramificao do 
estudo do homem. A Antropologia Fsica utiliza a metodologia das cincias da 
natureza, o mtodo indutivo no sculo XIX, e a experimentao rigorosa no 
sculo XX. 0 estudo, em trabalho de campo, com observao participante da 
parte dos investigadores, fez surgirem duas vias diferentes de 
perspectivaro no estudo das comunidades humanas: uma que tem como objecto 
genrico a cultura, incidindo sobre o estudo de objectos materiais, e outra 
que tem como objecto os fenmenos sociais, as instituies. A primeira via 
pertence  Antropologia Cultural e a segunda  Antropologia Social.

A Antropologia Fsica desenvolve-se dentro do darwinismo que acabar por ser 
o seu grande fundamento terico; o corpo da Antropologia Fsica enriquece-se 
com contribui-

12

es de antroplogos americanos, alemes, franceses e da Pennsula Ibrica. 
Os antroplogos ingleses e americanos desenvolvem o funcionalismo, numa 
perspectiva de estudo das instituies dos povos primitivos actuais,- a 
gerao de funcionalistas da primeira metade do sculo cria escola e empurra 
o academismo escolar e a investigao inglesa e americana para a 
Antropologia Social. Em Frana, os mesmos objectivos de estudo de 
comunidades primitivas eram visados pela cincia dos povos e dos seus 
costumes - a Etnologia - e pela Etnografia, levantamento sistemtico de 
hbitos, crenas, folclore, testemunhos culturais e sociais.

Existe hoje um certo sentido tradicionalista de academismo, prprio de cada 
pas, e o mesmo objecto - o homem como ser cultural -  estudado, por vezes 
recorrendo aos mesmos mtodos, por antroplogos culturais, sociais e por 
etnlogos.

Permanecem vagas distines de objectivos, nas definies dos diversos 
ramos: Antropologia Social, o estudo do homem social e cultural; 
Antropologia Cultural, o estudo do homem como produtor de cultura,- 
Etnologia, o estudo da origem e evoluo dos povos primitivos a partir de 
material etnogrfico; Etnografia, a descrio de usos e costumes dos povos.

Se a Antropologia Fsica teve dificuldade em separar-se do campo de estudo 
da Paleontologia e da Pr-histria, o mesmo acabaria por acontecer com a 
Etnologia e a Antropologia Cultural em relao  Histria. Se bem que a 
Histria Nova tenha recebido da Antropologia noes importantes como a longa 
durao e rea cultural, a Histria no pode identificar-se com estas duas 
cincias, j que a caracterstica fundamental da Histria  o tempo, o que 
no sucede na Antropologia e Etnologia que se orientam para o homem 
integral, fora do tempo.

Estes problemas de identidade que se levantam na construo das disciplinas 
e cincias do homem ultrapassam-se pela especificidade dos seus mtodos e 
pelo recurso  interdisciplinaridade. Antropologia Fsica, Social e Cultural 
podem, em conjunto ou separadamente, estudar o homem em geral, intemporal e 
annimo.

Sendo o homem um ser simultaneamente individual, cultural e social,  
necessrio o concurso de disciplinas e cincias que consigam explic-lo como 
ser integral.

HOMEM

SER INDIVIDUAL

SER CULTURAL

SER SOCIAL

Antropologia Fsica

Antropologia Cultural

Antropologia Social/Sociologia

Antropometria

Craniometria


Gentica

Paleontologia Humana

Antropologia Racial

Etno1og@a, Emografia

ra a

Ergologia A@(jijeoIogia

Tecnologia Pr histria

Folclore

Emo musicologia

Histria

Etno-SocioIogi

Poltica

Esttica

Moral

Direito

Economia

4

Religio

Mitologia

Arte

1

1

Demografia

Esquema das cincias humanas e sociais (In M. lima, Int.  Antropologia 
Cultural

13

1. 1.2. O CAMPO DE ACO DA ANTROPOLOGIA CULTURAL
*/*
Herdeira dos conceitos de cultura, civilizao e progresso criados pelo 
Iluminismo e, ainda, de todo um enorme material recolhido nos trs sculos 
de imperialismo martimo europeu, a Antropologia Cultural centrou-se na 
constatao da diferena das outras raas e culturas em relao s do homem 
branco colonizador. , pois, uma Antropologia do homem branco que se 
institui como cincia positiva(*), distinguindo-se das outras cincias 
sociais e humanas pelo seu objecto - o homem como produtor cultural - e

pelo seu mtodo - o trabalho de campo (recolha de elementos atravs da 
insero do antroplogo na comunidade a estudar).

 neste sentido segregacionista que surgem os primeiros trabalhos 
antropolgicos do americano Lewis Henry Morgan e do ingls Eciward B. Tylor: 
a tarefa da Antropologia seria estabelecer pelo menos uma escala grosseira 
de civilizao, ou seja, definir para as civilizaes, tal como Darwin 
fizera para as espcies, uma escala evolutiva desde os seivagens s 
naes civilizadas. Os selvagens tornam-se, assim, o objecto 
privilegiado da Antropologia, enquanto das naes civilizadas saem os 
sujeitos desse estudo e a avalia o das populaes. As primeiras Sociedades 
de Antropologia surgem em Paris (1838) e Londres (1843) em pleno take-off 
do capitalismo industrial: as colnias sobreexploradas em crescentes espaos 
com as expedi es de explorao cientfica e ocupa co poltica, fornecem 
as indispensveis matrias-primas baratas para o surto produtivo.  s, 
porm, aps o Congresso de Berlim e a 1.1 Partilha de frica que a 
Antropologia surge aos governos como o instrumento indispensvel para a 
dominao eficaz dos pases ultramarinos; tal  o objectivo claramente 
expresso nas instrues para os administradores coloniais ingleses.

0 melhor processo para se atingir a pacificao         empregar uma aco 
combinada de fora e poltica. Convm recordar que nas guerras coloniais, 
que infelizmente nos impe, regra geral, a insubmisso das populaes,  
indispensvel s destruir em ltimo caso, e, mesmo neste, destruir para 
reconstrui   .r de novo. (...)

A CO POLTICA.- - A aco poltica  de longe a mais importante,- ela 
retira a sua

fora do conhecimento do pas e dos seus habitantes;  neste sentido que 
devem orientar-se todos os esforos dos comissrios coloniais.  o estudo 
das raas que ocupam uma regio, que determina a organizao poltica que se 
lhe vai impor, os mei   .os a empregar para a sua pacificao. Um oficial 
que consegue elaborar uma carta etnogrfica suficientemente exacta do 
territrio que ele comanda, est bem prximo de obter a completa 
pacificao, seguida da organizao que melhor lhe convier.

Todos os aglomerados, indivduos, raas, povo, tribo ou famlia representam 
uma

soma de interesses comuns ou opostos. Se h hbitos e costumes a respeitar, 
h tambm conflitos e dios que convm aproveitar no nosso interesse... 
Cortar o cabecilha e

sossegar a massa, afastada por conselhos prfidos e afirmaes caluniosas.- 
 o segredo duma pacficao.  instrues de Galieni para a pacificao, 
enviadas aos administradores civis e militares e chefes das colnias


inglesas, 1898

A vocao de segregao e a sua prtica ideolgica permitem ao ingls 
Bronislaw Malinowski(*), criador do funcionalismo moderno, dizer que: A 
Antropologia ensina ao administrador colonial como tirar a terra ao nativo, 
segundo os costumes nativos.

A crtica que se efectua ao Darwinismo Social(@) inclui-se num movimento 
desigual, mas de negao sistemtica do optimismo positivista e ainda do 
desenvolvimento da epistemologia(c). 0 funcionalismo de B. Malinowski incide 
nas caractersticas universais da cultura humana e justifica as diferenas 
culturais pela influncia histrico-geogrfica. J mesmo antes do final da 
Segunda Guerra Mundial, do processo de descolonizao e

da actualizao da Antropologia elaborada pelo estruturalismo, novos 
conceitos tinham invadido a Antropologia.- dinmica cultural, etnocentrismo, 
racismo.

, porm, com a descolonizao e a consequente diminuio da rea de 
explorao dos antroplogos, que as escolas de antropologia tradicionais se 
vem obrigadas a procurar, nos seus prprios pases, material de estudo. Os 
Estados Unidos da Amrica que tinham estudado os ndios Americanos, a 
Amrica Latina e a Inclonsia viram-se agora para as pequenas comunidades 
rurais americanas, tradicionalistas, com marcadas remi-

14

niscncias nas suas instituies, da sua origem sueca, holandesa, russa, 
polaca ou irlandesa. A Inglaterra, vendo-se obrigada a deixar as colnias e 
o seu campo de aco privilegiado - as ilhas do Pacfico - estuda o seu meio 
rural e as franjas urbanas, mantendo sob concesso temporria trabalhos de 
investigao espordicos na Amrica do Sul e no Prximo e Mdio Oriente.

Algumas reas permitem ainda o tradicional trabalho de campo do antroplogo, 
como  o caso da Austrlia, do Mato Grosso brasileiro, da Nova Zelnclia e 
de algumas ilhas do Pacfico. Mas este campo privilegiado da Antropologia 
Cultural, as sociedades sem escrita (grafas), pequenas e tecnologicamente 
simples, comeam a entrar no universo dos mitos.

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RRISONFORDCOPAODUIWDAVIOBOMBY@,AfiGUMENTOD PAM

Harrison Ford (que nos filmes de Spielberg  Indiana Jones, o antroplogo 
americano) como John Book em A Testernunha insere-se numa comunidade 
Amish-o reduto de investigao da Antropologia so hoje as comunidades 
conservadoras deste tipo.

Ento, quem poderia estudar livremente hoje em dia a vida real do Iro, do 
Camboja e do Alganisto? No falo dos observadores ocidentais, mas dos 
etnlogos autctones e nacionais.- que jovem nao no veria a uma forma 
de espionagem ou de subverso?

Assim, pouco a pouco, as terras da antropologia foram retiradas ao 
antroplogo. 

Jean Duvignaud, in Sciences Humaines. La Crise, Mag. Litt. Nov. 83

0 objectivo da Antropologia Cultural no se transformou; mantm-se como o 
estudo do homem nas suas semelhanas e diferenas, levantando as variveis e 
invariveis cullurais quer por meio de trabalho de campo, quer atravs de 
mtodos mais prximos da Antropologia Social como os inquritos a populaes 
e as entrevistas e amostragens sociais.

Entretanto, o debruar-se sobre a sua prpria cultura levou os antroplogos 
a indiciarem um conjunto de novos problemas que passam a fazer parte da sua 
investigao, como o problema de civilizados e primitivos, selvagens, 
progresso, etc.

A palavra primitivo designa aqui o estado tecnoeconmico dos primeiros 
grupos humanos, isto , a explorao do meio natural selvagem. Cobre por 
conseguinte todas as sociedades pr-histricas anteriores  agricultura e  
criao de gado e, por extenso, aquelas que, muito numerosas, prolongaram o 
estado primitivo na Histria at aos nossos dias. Os etnlogos h muito que 
criticam este termo que  constantemente contradito pelos factos sociais, 
religiosos ou estticos e que, por esta razo, tomaram uma colorao 
pejorativa; contudo, no o abandonaram,  falta'de um termo que designasse 
de maneira global os povos sem escrita, afastados das grandes 
civilizaes. Aparece, todavia, mais frequentemente, enquadrado por aspas. 


A. Leroi-Gourhan, 0 Gesto e a Palavra, 1

15

0 objecto e o mtodo da Antropologia Cultural J

A Antropologia Cultural estuda as culturas, pois o seu objecto especfico  
o homem como produtor de objectos culturais (materiais e simblicos.) Hoje 
em dia, na perspectiva do funcionalismo e do estruturalismo, este objecto 
identifica-se, em ltima anlise, com a trama das relaes de parentesco, 
origem de todas as outras instituies e produes materiais e simblicas.

0 mtodo teve de se modificar com o desenvolvimento tcnico e a progressiva 
burocratizao e mecanizao dos meios tcnicos e humanos, na sequncia duma 
nova forma de intervir.

S os povos subdesenvolvidos parecem ser capazes de aguentar, com pacincia 
e

tolerncia, a presena indiscreta, aparentemente ociosa e sempre um pouco 
patemalista, do antroplogo. E significativo que dos estudos levados a 
efeito no Reino Unido alguns dos mais importantes tenham tido por objecto 
comunidades da Irlanda e do Pas de Gales - a orla celta menos favorecida e 
menos prspera.

A antropologia social de comunidades que, como as mediterrnicas, so parte 
de uma

grande civilizao e de tradies naci   .onai.s estabelecidas de longa 
data, levanta ao antroplogo problemas inditos e modifica o mbito das suas 
actividades. 0 antroplogo social clssico era, idealmente, um estudioso 
que depois de umas leituras gerais de teoria sociolgica, mitologia e 
folclore, ia viver durante dois ou tr s anos com uma tribo, isolada na 
savana africana ou numa ilha do Pacfico, falando uma lngua e tendo uma 
religio prprias, conhecida quando muito por um ou dois missionrios e por 
um ou dois administradores, com muito poucos contactos com o mundo exterior 
e, porque sem escrita e sem monumentos duradouros, considerada sem histria.

Era este o material clssico do antroplogo e nele se afinaram os seus 
mtodos de trabalho. A pequena comunidade isolada, uma vez dominada a 
lngua, revelava-se no seu quotidiano, por observao directa, sem uso de 
questionrios formais ou de mtodos estatsticos elaborados. As 
caractersticas fundamentais da comunidade - a sua econo-

mia, a sua cultura material, os seus sistemas de famlia e parentesco, a sua 
estrutura poltica, a sua religio e os seus valores morais - @m aparecendo 
a pouco e pouco na textura das relaes sociais, at ser possvel ao 
antroplogo construir um modelo coerente que i.ntegrava todos estes 
aspectos.

Os resultados destes trabalhos antropolgicos revelaram ao mundo estudioso 
civilizado sociedades de caractersticas muito diferentes das que este 
conhecia e, mesmo que os mtodos de investigao ou a sofistica o terica 
do antroplogo deixassem por vezes a desejar, a novidade dos seus factos 
chegava para justificar o seu trabalho. Historiadores, socilogos, 
filsofos, psicanalistas, estetas, poetas at, foram buscar a este

manancial de factos material para novas comparaes e especulaes. E o 
pblico leitor mais vasto veio-se apercebendo tambm do relativismo dos 
valores da sua prpria cultura - sobretudo em tpicos de populariza o 
fcil, como as relaes entre os sexos, a partir, por exemplo, dos livros de 
Margaret Mead. (.. J


A contribuio especfica do antroplogo  de dois tipos.- por um lado 
fornece uma anlise detalhada do sistema de famlia e parentesco e do 
sistema de valores morais que lhe est associado, enquadrando-os na 
estrutura social total, com base em observao emprica que nenhum outro 
estudioso est preparado para fazer; por outro lado, ao considerar tpicos 
que so aparentemente do domnio de outros especialistas, f-lo a partir da 
maneira como esses tpicos se revelam na prtica quotidiana.- ligados entre 
si em

incidentes nicos, produto da interaco de normas e circunstncias, 
constituindo aquilo a que Mauss chamou factos soci       .ai.s totai.s, os 
momentos das relaes sociais de que participam aspectos que outros 
especialistas consideram isoladamente - econmicos, legais, religiosos, 
morais, etc. - mas de que o antroplogo, ao apreend-los ao vivo, nas suas 
interrelaes, consegue revelar o significado sociolgico.

A experincia das sociedades primitivas, obrigando o antroplogo a 
observao constante, detalhada e sem benefcio de estudos prvios, auxilia-
o agora a observar com ri        .gor e sem parti-pris as cambiantes de 
emoo e comportamento que lhe permitem compreender e relatar a fbrica 
social das pequenas comunidades civilizadas e, sobretudo, os sistemas de 
valores morais por que se regem.

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No panorama das cincias sociais contemporneas o antroplogo ocupa assim um

lugar peculiar. Por um lado o seu mtodo impe restries de dimenso ao seu 
material.s uma pequena comunidade ou um pequeno grupo dentro de uma grande 
comunidade se prestam a ser estudados por este mtodo lento, longo, com 
poucas entrevistas estruturadas e que exige um conhecimento profundo das 
pessoas envolvidas. Por outro, esse conhecimento profundo, quando realmente 
obtido, permite uma descrio muito mais verdadeira e detalhada da 
comunidade que as baterias de testes dos socilogos de questionrio - para 
no falar nos exerci@ios dos economistas fazendo sociologia ou nas 
especulaes dos legistas.

Para usar uma analogia, como todas as analogias no perfeitamente apta, o 
antroplogo  comparvel ao arteso tradicional,- os restantes cientistas 
sociais, aos operrios e

tcnicos que, numa fbrica, manufacturam, agora, industrialmente, o mesmo 
produto. Como o arteso, o antroplogo tem um prazer criador mais completo 
com o seu trabalho que os outros especialistas e, desde a matria-prima ao 
produto acabado, conhece melhor a realidade com que lida. Os outros 
especialistas dividem entre si conhecimentos de vria ordem que, s vezes, o 
antroplogo no possui      ., mas o antroplogo  o  nico que considera a 
realidade in totto e est apto a lhe aperceber o nexo interior.

Jos Culileiro, Prefcio de Honra e Vergonha, J. G. Peristiany, Ed. C. 
Gulbenkian

0 trabalho de campo, actualmente, assenta num modelo de interveno que pode 
resumir-se nas seguintes fases:

1. - Escolha e definio do lugar de interveno (no Relatrio final, a 
monografia do trabalho, estes elementos daro inicio  situao geogrfica, 
morfologia e infraestruturas);

2. - Levantamento dos factores de homogeneidade, geogrficos e morfolgicos-
--que se polarizam nos centros regionais; ritmos de vida e identificao de 
habitantes (em relao com as designaes geogrficas como alto, baixo, 
monte, plancie, etc.);

3. - Representao da populao activa por ramos de actividade para saber 
indcios de mentalidade urbana e rral, e grau de evoluo.

As tcnicas utilizadas so habitualmente as tcnicas de trabalho de grupo, 
em amostragens significativas, experimentais e activas (observao 
participante), com debates em grupo, criatividade, jogos de simulao, etc. 
Seleccionam-se alguns grupos e um grupo-teste (modelo controlado, incluindo 
jovens da regio) com elementos extremos de acordo com as actividades, 
reas, idades, etc.

Este modelo de interveno  seguido da anlise dos dados recolhidos. A 
anlise incide sobre os cdigos, do dito e do no-dito, procurando 
identificar, atravs de expresses comuns a certos grupos, a predominncia 
dos valores sociais da comunidade que surgem na linguagem dicotomicamente, 
como virtude/eficcia, ser/ter, precauo/previso, etc. Parte-se, assim, do 
princpio que nos grupos amostragem e no grupo modelo se reflectem as 
caractersticas da linguagem geral, quer por apropriao dum grupo social, 
quer por representar realmente a mentalidade cultural geral    


Nas sociedades mediterrnicas, a dicotomia utilizada pelos antroplogos foi, 
no caso referido por Jos Cutileiro(e), honra/vergonha. No resultado da 
anlise de dados, a monografia surge acompanhando de perto o modelo 
apresentado, como se pode retirar da leitura do texto que segue.

0 material sobre o qual se baseia a discusso que se segue foi recolhido 
durante o trabalho de campo, necessrio para um estudo mais vasto, em 1965 e 
1967 A coniu111dade alentejana onde este trabalho foi realizado chamar-se- 
aqui Vila Velha e ser muito sumariamente descrita. Trata-se de um grupo de 
seis povoaes pequenas que, com cerca de nove mil hectares de terra que as 
rodeiam, consti   .tuem uma freguesia. Em 1966 contava cerca de mil e 
seiscentas almas, mas a populao (que aumentara entre 1868 e
1940) estava (e est ainda) a diminuir como resultado de emigrao para 
centros urbanos portugueses e para pases mais industrializados da Europa 
Ocidental. Embora  volta das povoaes a propri  .edade esteja muito 
fragmentada e cerca de metade das famlias residentes possua terra, s cerca 
de vinte e cinco proprietrios locais no necessitam trabalhar em terras que 
no sejam suas ou suplementar, por outros meios, os rendimentos

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destas. E as grandes casas agrcolas da regio que absorviam, at h pouco 
tempo, quase toda a mo-de-obra local, pertencem a uma dezena de famlias 
quase todas residentes numa vila prxima. Estas famlias possuem entre si 
54% da rea da freguesia e auferem 55% do rendimento colectvel da mesma. 
42% do rendimento colectvel cabe aos trs principais latifundirios. As 
principais produes da freguesia so o trigo, a azeitona e a l de alguns 
rebanhos.

A sociedade est pois muito estratificada e as famlias ligadas  terra 
podem dividir-se em famlias de latifundirios (os grandes lavradores, 
residentes fora, mas quase todos bem presentes por administrao directa, 
visitas dirias, relaces de apadrinhamento, interveno na Casa do Povo e 
na Misericrdia, etc.), de proprietrios (os pequenos lavradores locais 
independentes), de seareiros (que cultivam terras de parceria, pagando um 
tero ou um quarto da colheita, geralmente, aos proprietrios dos direitos 
de exploraCo da terra) e de trabalhadores rurais.

Sobre certos aspectos estamos diante de vrias comunidades sobrepostas e 
isso  claro quando se analisa a composio dos casamentos - quem casa com 
quem. 0 mercado matrimonial dos trabalhadores rurais restringe-se quase s  
sua aldeia e s duas aldeias mais prximas,- o dos seareiros cobre a 
freguesia e inclui parte de uma freguesia vizinha, com povoaes prxi   
.mas. Os proprietrios casam dentro do concelho e em concelhos limitrofes. 0 
mercado matrimonial dos latifundirios cobre a provncia inteira e

inclui, por vezes, famlias ricas, de outras provncias. Na medida em que a 
famlia, parentesco e afinidade tm relaes directas com o sistema de 
valores morais em discusso, estes factos so importantes.

Os valores da honra, como diz Campbell no seu ensaio, so egostas e 
particularistas. A proteco dos interesses do prprio e da sua famlia  
fundamental e h poucas normas de comportamento para com os outros que sej  
       .am de aplicabilidade geral. Em Vila Velha, honrar pai e me  um dos 
poucos mandamentos da Lei de Deus que  tambm um mandamento da comunidade. 
Sendo a natureza humana decada e a luta pela vida difcil--- velhos e 
velhas, sobretudo pobres, so por vezes descurados pelos filhos - mas tal 
comportamento  sempre acerbamente comentado.  medida, porm, que a posio 
das pessoas, em relao ao ncleo familiar, se afasta, as obrigaes de 
honestidade -

para nem sequer falar de honra - proporcionalmente diminuem. Os deveres para 
com parentes prxi .mos so maiores que os deveres para com parentes 
afastados mas, em ambos os casos, mais escassos e menos bem definidos que os 
deveres para com os membros do grupo familiar. Os amigos merecem parte da 
deferncia concedida a familiares mas as obrigaes da amizade no so 
sagradas como, idealmente, as impostas pela famlia e prestam-se portanto a 
manipulaes que podem pr a amizade em causa. Amigos, amigos, negcios  
parte significa exactamente que, ao negociar com amigos, um homem v-se 
perante o conflito entre o seu dever egoista de tirar toda a vantagem 
possvel dos outros e as obrigaes igualitrias e abnegadas da amizade. 
Para l de parentes e

amigos esto os estranhos mas, mesmo com estes, se lida de diferente 
maneira, consoante a distncia estrutural a que se encontram.


Quando, a seguir  Guerra Civil de 1936-1939, toda Vila Velha contrabandeava 
para Espanha, mandavam-se s vezes sacos cheios, no tero supen       .or 
com caf e nos dois teros inferiores com terra. A mercadoria era paga na 
entrega, no campo e de noite, e a natureza da operao no permitia ao 
destinatrio final lesado queixar-se. Na ausncia de sanes legais 
possveis, s uma obrigao moral impediria este tipo de comportamento. Mas 
os espanhis so, de todos os seres humanos que os habitantes de Vila Velha 
conhecem, os que mais estranhos lhes so e essa obrigao moral no se 
aplicava a eles.

Estes dois aspectos.- a) importncia dos deveres familiares com a obrigao 
ideal de um homem (ou uma mulher) pr o interesse da sua famlia nuclear 
acima de quaisquer outros;

b) estratificao social bem marcada, com o poder poltico e econmico nas 
mos de

uma pequena mi    .nori.a e com uma grande maioria competindo na procura dos 
favores, muitas vezes agudamente necessrios mas de que h sempre uma oferta 
reduzida, dessa minoria - so as duas caractersticas da estrutura social 
que  necessrio ter em conta para compreender o sistema ideal de valores e 
as distores que esse sistema sofre nasua aplicao prtica.

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Idealmente, um homem  soberano e independente e detm a responsabilidade de 
uma famlia. Deve ser corajoso sem ser temerrio, firme nos seus propsitos 
sem ser obstinadamente teimoso, e dotado de bom senso e sabedoria da vida 
que lhe permi        .tam estabelecer compromissos sem, aparentemente, 
sacrificar a sua independncia. 0 acesso aos direitos e deveres da 
hombridade (qualidade de ser homem) faz-se pelo casamento. Um homem solteiro 
permanece para sempre um rapaz e o status moral de um rapaz  inferior 
ao de um homem. Quando um grupo de homens vacila perante um empreendimento, 
mostrando tibieza ou falta de sentido das responsabilidades, ouve-se s 
vezes um deles dizer: Ento, somos homens ou somos rapazes?

A entrada no casamento traz, todavia, consigo um nmero de riscos dos quais 
o mais importante  o risco de uma diminuio de reputao, devido ao 
comportamento irregular da mulher ou, menos grave, das filhas. A atitude em 
relao aos celibatrios, que nunca podem gozar do prestgio acessvel a um 
homem casado, tem que ser compreenoida nestes termos.- o celibatrio no 
tomou a sua quota-parte das responsabilidades e dos riscos de ser homem. 
Quando o celibatrio tem acesso a mulheres casadas no aparentadas com ele - 
como  o caso dos padres - a atitude toma-se ainda mais dura. Ilustra-a o 
dito de um pequeno proprietrio numa discusso com um padre: Eu, os filhos 
que fao, tm o meu nome.() 0 prestgio de um homem, a sua reputao, a 
sua honra - embora a palavra seja raramente usada - o que faz dele um homem 
de vergonha, dependem tanto dele como da sua famlia e  considerando a 
famlia e no apenas os seus membros, isoladamente, que podemos compreender 
cabalmente este sistema de valores.

0 status de qualquer familia depende de factores morais e de factores 
materiais. Idealmente, a dicotomia dos sexos  clara neste ponto: cabe ao 
homem assegurar a sobrevivncia material e, se possvel, a prosperidade da 
famlia; cabe  mulher garantir que permanea intacta a sua integridade 
moral. A insolvncia do marido e o adultrio da mulher so as 
situac(5es~limite que fazem naufragar uma famlia. E, tal como a mulher 
adltera deve deixar a sua aldeia ou a sua vila, tambm o proprietrio 
insolvente vai muitas vezes vIver para outro stio. A reprovao da 
comunidade  forte demais, em ambos os casos, para poder ser suportada'face 
a face. Um homem solvente, cuja mulher  fiel e cujas filhas so castas, 
goza do mnimo de prestgio necessrio para poder andar de cara levantada e 
ser aceite, sem troca nem reprovao, pelos outros

Cada famlia real procura aproxi.mar-se deste modelo ideal, mas  evidente 
que a tarefa  mais fcil para as famlias mais prsperas. Quanto mais rico 
um homem , maior a base material do seu prestgio, quanto mais virtuosas as 
mulheres da sua casa - e a prosperidade ajuda a manter os padres de 
comportamento identificados, nesta sociedade, com virtude - maior a base 
moral.

Assim, enquanto o sistema de valores ideal parece ser o mesmo para todos os 
grupos da sociedade, as possibilidades de viver de acordo com ele variam 
substancialmente segundo a posio de cada famlia na estratificao social. 
H, em todas as sociedades, uma distnci'a que s os santos conseguem 
percorrer, entre valores e normas ideais e a prtica da vida quotidiana, 
mas, nesta sociedade, a maior ou menor aproximao do ideal no  
determinada apenas por caractersticas pessoais mas tambm por 
condicionantes estruturais que a delimitam, grosso modo, para grupos 
inteiros da populao. Este ponto  muito importante: ricos e pobres vivem 
diferentemente no por terem cdigos ideais diferentes mas por ser mais 
fcil aos ricos aproximarem-se do cdigo e ser, s vezes, necessrio aos 
pobres afastarem-se diametralmente dele. As implicaes deste estado de 
coisas so profundas.

A independncia ideal de um homem e a honralvergonha com ela associadas so 
afectadas sempre que ele necessita de se socorrer da proteco de outro, 
colocado mais acima na escala do poder. -0 cdigo ideal de valores comum a 
ambos, pressupe uma igualdade, tambm ideal. No h ordens ou classes, 
sancionadas por autoridade Divina ou autoridade Real que possuam, ou sejam 
consideradas pelos seus membros e pelo

@1) Alguns padres houve, h duas ou I rs geraes, que deixaram 
descendentes a que deram o nomeou que foram, pelo menos, reconhecidos de 
facto Encontram-se padres na ascendncia de latifundirios, proprietrios e 
seareiros Estes padres que tinham mulher e familia, eram geralmente 
estimados pois preferia-se a sua situao  do padre que, sem mulher e sem 
fanulia>@, era imed atamente suspeito de depredar nas mulheres de outros 
homens Nunca se esperava que um padre fosse casto: quando no dava azo a 
nenhuma suspeita de convivio amoroso com mulheres era suspeitado de 
homossexualidade

19

resto da populao como possuindo privilgios que intrinsecamente as 
distingam do resto da populao. Filho da filosofia da Revoluo Francesa, o 
Alentejo de hoje  terra livre e alodiab), habitada por homens que nascem 
livres e iguais em direitos e que tm conscincia disso. H um plano de 
existncia e de conscincia em que o trabalhador rural se considera igual ao 
latifundirio. Mas essa igualdade ideal  contradita por um sistema 
econmico, social e poltico que no s estabelece grandes disparidades de 
riqueza como coloca um homem, em muitos contextos da vida, na dependncia de 
outros. E essa dependncia, no obstante os benefcios que possa por vezes 
acarretar ao dependente, diminui a sua estatura moral. Como se diz em Vila 
Velha.- Isso que eu peo no  favor - minha vergonha me custa. 

A honra e a vergonha da gente de Vila Velha no apresenta assim os aspectos 
dramticos da honra e da vergonha dos sarakatsani gregos, dos cablios da 
Arglia, dos bedulnos do Deserto Ocidental do Egipto ou dos andaluzes da 
provncia de Ronda. Mas os princpios fundamentais so os mesmos: primado da 
famlia e, para segurana desta, importncia da prosperidade, aqui 
geralmente em terras (noutros lugares em terra ou em gado) e importncia do 
comportamento sexual das esposas e das filhas. Tais pri         .ncpi.os 
que tm sido associados com sociedades pequenas de recursos materiais e 
morais limita- dos, em que a subida moral ou material de uns acarreta 
forosamente a descida de outros, encontram-se, para alm de Vila Velha, em 
toda a sociedade portuguesa, no havendo, parece-me, a este respeito, 
grandes diferenas entre a populao rural e a populao urbana, ou 
recentemente urbanizada, das cidades,

A distinco neste contexto entre o citadino e o provinciano, numa sociedade 
em que at h pouco tempo as cidades eram sobretudo mercados ou portos de 
escoamento de produtos agrcolas, em que a pouca indstria existente era 
artesanal ou semi-artesanal e em que empresrios e operrios completavam 
muitas vezes pela agricultura ou pela horticultura os seus rendimentos, no 
 to funda que atinja os dois aspectos fundamentais tratados nesta 
discusso.- a estrutura ideal da famlia e o sistema de valores morais com 
esta associado. 

Jos Cutileiro, ob. cil,

20

C2,---OlIABORATRIO DO ANTROPLOGO

2. 1. A cultura e as culturas

A cultura e as culturas

A cultura  a grande engrenagem da satisfao pelo sucedneo.

Herbert Marcuse

2. 1. 1. CONCEITO DE CULTURA. 0 HOMEM E AS SUAS OBRAS.

AS QUALIDADES DISTINTIVAS DA CULTURA, DO BIOLGICO AO CULTURAL E DO CULTURAL 
AO BIOLGICO

Apenas vivemos para manter a nossa estrutura biolgica; desde o ovo 
fecundado que somos programados para este nico fim, e toda a estrutura viva 
no tem outra razo de ser, do que ser. Mas para ser ela apenas tem como 
meio de utilizar o programa gentico da sua espcie.

22

Ora este programa gentico no Homem tem como concluso um sistema nervoso, 
instrumento das suas rela es com o meio inanimado e animado, instrumento 
das suas relaes sociais, das suas relaes com os i   .ndivduos da mesma 
espcie que povoam o nicho onde ele vai nascer e desenvolver-se. A partir 
daele encontra-se inteiramente submetido  organizao deste meio. Mas o 
nicho no penetrar e no se fixar no seu sstema nervoso a no ser de 
acordo com as caractersticas estruturais deste. 0 sistema nervoso responde 
primeiramente s necessidades urgentes, que permitem a manuteno da 
estrutura do organismo. Depois disto responde ao que chamamos @ouIses-, o 
princpio do prazer, a procura do equilbrio biolgico. (..)

Permite em seguida, devido s suas possibilidades de memorizao, portanto 
de aprendizagem, conhecer o que  favorvel ou no  expresso dessas 
pulses, tendo em conta o cdigo imposto pela estrutura social que o 
gratifica, segundo os seus actos, por uma promoo hierrquica.

As motivaes pulsionais, transformadas pelo controlo social que resulta da 
aprendizagem dos automati .smos socioculturais, controlo social que fornece 
uma nova expresso  gratificao, ao prazer, estaro enfim tambm na origem 
do jogo do imaginrio. ---Imaginrio-, funo especificamente humana que 
permite ao homem, contrariamente s outras espcies animais, de acrescentar, 
informar, de transformar o mundo que o rodeia. ( .. ) Faculdade de criao 
imaginria que possui a espcie humana, a nica a permitir-lhe a fuga 
gratificante a uma objectividade dolorosa. Esta possibilidade, ela deve-a  
existncia de um crtex associativo capaz de criar novas estruturas, novas 
relaes abstractas, entre os elementos memorizados no sistema nervoso.

H. Laborit, UHomme Imaginant, 1970

Numa perspectiva biologista, o homem produz cultura porque possui um sistema 
nervoso complexo, desenvolvido em funco do estabelecimento de trocas 
(materiais e mensagens) com o meio e os outros homens - os seres inanimados 
e animados,- logo, o homem possui o sistema nervoso (o dispositivo mediador 
entre o interior e o exterior) dum animal que  social porque  tambm 
produtor e transmite os conhecimentos atravs da aprendizagem. 0 seu 
dispositivo de relao com o mundo inclui a zona cortical do crebro onde se 
aloja o imaginrio.

Assim, o homem produz cultura      como modo de sobrevivncia que se efectua 
em grupo. Mas no  apenas produtor,    tambm  portador de cultura pois  
susceptvel de aprendizagem: nasce vazio de cultura, mas com um dispositivo 
biolgico que lhe permite adquiri-Ia.

Dizer que o homem  um animal cultural significa que ele  produtor de 
objectos materiais e simblicos e tambm herdeiro da memria do grupo, pois 
qualquer sociedade s se realiza e perpetua atravs da cultura - ---a 
cultura fornece a matria-prima de que o indivduo faz a sua vida- (Ruth 
Benedict) (e). Ao nascer, o indivduo interioriza quer espontnea quer 
violentamente os modelos do grupo e enquadra o seu comportamento de base 
biolgica nos comportamentos socioculturais, que se tornam automatismos 
socioculturais.

Nasce num determinado nicho ecolgico e numa determinada comunidade, ou 
seja, recebe como herana as tcnicas de acomodao e transformao da 
natureza que a sua comunidade foi acumulando como resposta ao desafio do 
meio ambiente e, ainda, as regras socioculturais sobre os quais se constitui 
o funcionamento da comunidade.


Nem toda a herana cultural  necessariamente uma resposta de sobrevivncia 
ao meio, porque todas as respostas culturais assentam em projectos mentais e 
estes dependem do imaginrio individual ou de grupo.

0 mesmo ambiente pode suscitar respostas diversas, e, ambientes diversos, 
respostas semelhantes. Por isto as culturas humanas se multiplicam e s se 
podem reduzir a caractersticas universais da cultura, modelos que se 
fundamentam em factores biolgicos da espcie.

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Diferentes respostas culturais ao mesmo obstculo: a captao de peixes

Sem pr de lado os fundamentos biolgicos da capacidade cultural, a 
perspectiva psicanaltica da cultura identifica o objecto cultural (a 
cultura) com a sublimao, ou sei.a, a procura dum objecto perdido (o 
desejo), atravs de substituies sucessivas. 0 longo perodo da infncia 
(juvenilizao) do homem ir determinar os quadros de comportamento de toda 
a vida humana:  o medo da perda do objecto (vivido com a perda da me no 
acto de nascimento, da perda do seio da me, medo da perda do sexo, etc.), o 
medo de ficar s, no escuro, a incapacidade de suportar as tenses, que 
explicam a civilizao. Cada objecto que o homem cria, cada smbolo, cada 
narrativa ou obra de arte  um outro objecto de substituio, representando 
um universo de sistemas de fuga a uma realidade que se receia, criando assim 
um outro universo imaginrio com realidades substitutas mais gratificantes 
ou que permitem imaginar que  senhor da realidade.

Tal como a criana, o homem utiliza o objecto substituto como terapia de 
cura da sua angstia de ausncia do objecto real, principalmente se encontra 
atravs do objecto que cria, o substituto do objecto perdido ou seja, 
alimento e prazer.

Considerando antes de tudo os aspectos da cultura humana (      ... ) 
verificamos que eles oferecem caractersticas comuns. Ligam um indivduo a 
outro, so a armadilha empregue pelo homem desde criana, para n o ficar 
s. Devemos ento dizer tambm que ---aquilo que Deus criou em primeiro 
lugar foi o medo? Certamente - se no esquecermos que esta angstia  o 
produto do passivo amor pelo objecto, da nossa infncia, do

24

nosso desejo de ser amado. Nascidos prematuramente (longo perodo da 
infncia) penduramo-nos a qualquer elemento do mundo exterior que nos traga 
satisfao.

Talvez ningum me possa contradizer se eu disser que, em ltima anlise, a -
--civilizaao e um sistema de instituies edificadas em funo da 
segurana. - Para a criana isso significa segurana relativamente ao ---eu- 
e aos perigos libidinais (0). 

Geza Roheim, Origine et fonction de Ia culture

A cultura surgiria, assim, como uma compensao, uma terapia - toda a 
cultura humana seria uma anormalidade (pois  anormal o caso patolgico, 
quando o indivduo se verifica incapaz de agir de acordo com as pulses e 
procura sistemas de fuga  realidade). Resultaria de vrios processos de 
fuga, atravs do imaginrio, criando objectos substitutos, materiais ou 
simblicos, obras de arte, mitos e utenslios.

Qualquer que seja a perspectiva de abordagem da origem da cultura, esta no 
surge como sistema fechado de grupos isolados em si prprios; a cultura 
itinera, viaja com os homens, passa de grupo para grupo e as invenes mais 
eficazes vo sendo recolhidas. A cultura  sempre cumulativa das ideias e 
coisas em circulao.

Essa acumulao de capital cultural  sempre social; o indivduo pode 
transport-la -

e acrescent-la - em vida, se se tornar criador. Porm, ao morrer, o seu 
capital cultural desaparece consigo, no o transmite biolgica 
/geneticamente,- os seus filhos (re)comecaro a aprend-lo de novo- s a 
sociedade, os outros, o podem herdar como informao.

0 homem nasce apenas com o capital biolgico. Mas o homem morre s. A 
cultura  esse universo de objectos materiais e simblicos, carregados de 
sentido e

informao, herdados pela comunidade e por esta transmitidos aos seus 
membros, que se tomam seus portadores - e eventualmente seus produtores - em 
vida.

2.1.2. 0 HOMEM, A CULTURA E A SOCIEDADE

0 tringulo biocultural

SER BIOLGICO

A cultura  um sistema de troca, pois exige produtores e consumidores e s 
se explica pela sociedade.  para a organizar e manter a sua coeso que a 
cultura ganha um sentido que tambm  ---venclido- aos elementos do grupo 
social.  este sentido, esta perspectiva global e parcial sobre as coisas 
que surge como a realidade.

E entretanto, as coisas continuam a existir.  o homem que as analisa, as 
separa, as enclausura e nunca de forma desinteressada. De incio, frente ao 
aparente caos do mundo, ele classificou, construiu as suas gavetas, os seus 
captulos, as suas estantes. Introduziu a sua ordem na natureza para poder 
agir. E, depois, acreditou que esta ordem era a da prpria natureza, sem se 
aperceber que era a sua, que estava estabelecida com


os seus prprios critrios, e que esses critrios resultavam da actividade 
funcional do sistema que lhe permitia tomar contacto com o mundo: o seu 
sistema nervoso.

Laborit, ob. cit.

C. eC.-2                                                                    
               25

A sociedade tem portanto um papel a representar: transmitir com um sentido, 
a informao cultural de que  depositria, porque o homem s se define como 
tal inserido numa sociedade e numa cultura. Robinson Cruso(e) na sua ilha 
isolada restaurou a sua cultura memorizada para uma sociedade imaginria; os 
meninos-lobos da ndia ou o menino-selvagem, vtima, em Frana, da tentativa 
de insero na sociedade humana, so apenas projectos de homem e no 
reconhecem como sua a sociedade humana que rejeitam.

Menino-selvagem (No filme de Truffaut)

Todas as sociedades constituem, historicamente, os mecanismos institucionais 
de insero da criana na cultura do grupo social a que ir pertencer.

Ao processo uni  .versal pelo qual uma criana aprende, a partir do 
nascimento, a ajustar o seu comportamento  cultura da sua sociedade, chama-
se endoculturao ou incultutaco. Paralelamente parece funcionar um outro 
mecanismo de insercao, este de disciplina social, a socializa o, processo 
de aquisio de conhecimentos, modelos, valores e smbolos (atitudes 
sociais) adequados ao seu lugar na hierarquia social. Na linguagem da 
Psicologia americana, a criana com a socializao, aprende ospapis sociais 
dos estatutos que ir assumir.

Endoculturao e socializao so dois processos, separados apenas para 
estudo; na criana realizam-se ao longo do processo de aprendizagem que 
destinam - de forma violenta pois vo contra as pulses da criana - o lugar 
do seu novo membro na sociedade. De acordo com os seus futuros estatutos 
sociais, a criana receber a fatia cultural que lhe permite preencher o seu 
lugar. So, portanto, mecanismos de reproduo social (e),

0 extracto seguinte de Nuno Bragana apresenta um caso de uma criana com 
evidentes lacunas de endoculturao, pondo em risco a sua disciplina social.

 Um dia peguei em uma caneta, em um tinteiro e em uma folha de papel, e fui 
sentar-me a uma pequena mesa em um pequeno gabinete, e escrevi no alto da 
folha e em letras grandes:

U OM1 OE DA VA PUL US Depois chupei o rabo da caneta, que sabia a lavado e 
a polido, e escrevi por baixo e em letras pequenas o seguinte.-

LI omi qe dava pulus era 1 omi qe dava pulus grades. El pul tantu qe saiu 
plo tpu. Isto feito, levei o papel ao meu tio Maurcio, que estava sempre 
a ler jornais. 0 tio Maurcio olhou para o meu, escrito e foi-se embora com 
ele sem me dar palavra. Dois dias mai.s tarde reuniu-se o /// Conselho de 
Famlia por causa do Pequeno.

Nuno Bragana, in A noite e o Riso

26

A criana tem dificuldade em rejeitar os modelos culturais e sociais que lhe 
so impostos, pois que, recusando-os, nega a prpria famlia, o seu nico 
lugar de segurana. Estes modelos vm carregados de violncia simblica 
(revestidos da autoridade que permite canalizar a mensagem, legitimando-os). 
No texto, a autodeterminao da crianca, aprendendo a ler sem ajuda, no  
mais do que a imitao dum modelo a seguir, o tio Maurcio.

Como resposta a esta necessidade de insero dos seus membros, a sociedade 
estabeleceu instituies que, dum modo mais ou menos fixo e por etapas, so 
introduzidas no

percurso do crescimento daqueles, determinando a sua maturao e aceitao 
sociocultural.

Uma vez mais encontramos os trs eixos do homem: o biolgico, o social e o 
cultural. Desde que nasce, uma estrutura de instituies acompanha a 
maturao biolgica do indivduo, determinando a sua maturao psicolgica: 
a famlia, na 1. e 2. infncia; a escola desde a 1. infncia no jardim-
escola e at  idade de adulto, em muitos casos,, o bando juvenil da 
adolescncia que ganha muita importncia para os desvios sociais, pois t se 
colhem outros modelos e valores. Para dar sentido social  maturao 
biolgica, quando adulto, surgem as instituies profissionais, o casamento 
e as instituies de lazer que preenchem as necessidades de sublima o e de 
afirmao do poder que as outras instituies no permitam. Com a maturaco 
biolgica e psicolgica - ou seja, quando est cumprido este percurso bio-
social - o indivduo tem formada a sua personalidade.

SER       l - 2@ INFANCIA    ADOLESCNCIA MAIORIDADE >     PROFISSO 
BIOLGICO                                                      CASAMENTO

ESCOLA              BANDO               -    LAZERES MATURACAO PSICOLGICA--
-

PERSONALIDADE

A insero sociocultural: a acomodao

Cultura e Personalidade

A personalidade surge como um produto da sociedade, da cultura e da 
hereditariedade, fundamentalmente exterior ao indivduo. A personalidade 
forma-se do confronto entre o indivduo e os outros.

A minha verdade, o meu carcter e o meu nome estavam nas mos dos 
adultos,aprendera a ver-me com os olhos deles; eu era uma criana, esse 
monstro que eles fabri-

cavam com as suas quei  .xas. Ausentes, deixavam atrs de si o olhar, 
misturado  luz; eu

corria, eu saltava atravs desse olhar que me conservara a natureza de neto 
modelo, que continuava a oferecer-me os brinquedos e o universo. Na minha 
bela redoma, na minha alma, os pensamentos giravam-me, qualquer pessoa podia 
seguir-lhe os manejos.nenhum canto de sonho.

No entanto, sem palavras, sem forma nem consistncia, diludo nessa inocente 
transparncia, uma transparente certeza estragava tudo.- eu era um impostor. 
Como representar a comdia sem sabermos que representamos? (      ..)

0 pior  que os adultos me cheiravam a cabotinice. As palavras que me 
dirigiam eram rebuados; mas entre si falavam em tom completamente 
diferente. Alm disso, acontecia-lhes romper contratos sagrados, eu fazia o 
meu beicinho mais adorvel, aquele de que estava mais seguro, e ento 
diziam-me com voz verdadeira.-  Vai brincar para mais longe, garoto, 
estamos a conversar.

Jean-Paul Sartre, As palavras

27

A estrutura da personalidade assenta na cultura,-  atravs dela que o 
indivduo determina o que  verdadeiro e falso, o normal e andino, o que  
obrigao ou interdito, o certo e o errado,- determina a sua conscincia e a 
terapia inconsciente que ir utilizar para esconder o conflito criado entre 
as suas pulses e a realidade social.

Mas  necessrio precisar o que se entende por formao do sistema nervoso, 
isto , em resumo, por sistema educativo.

Evidentemente que os meios sociais so muito diferentes.- h poucos pontos 
de con-

tacto entre uma criana nascida nos bairros de lata de Nanterre e uma outra 
nascida numa famlia burguesa do 16  Bairro (Paris). A influncia do meio, 
num e noutro caso, acabar por criar, quase sempre, como resultado, 
automatismos de comportamento, de J.uzos, de pensamento, como se diz, que 
tanto num como noutro caso no sero mais do que automatismos. Os que so 
adquiridos no meio burgus so geralmente favorveis a

uma ascenso hierrquica, passando a maior parte das vezes por uma escola. 
Fornecem quele onde so inculcados, uma linguagem, uma atitude, hbitos, 
juzos de acordo com

a estrutura hierrquica de dominncia, mas no  garantido que favorea a 
criatividade, a originalidade do pensamento. (  ...)

Com a passagem dos anos (     ... ) fico assustado com os automatismos que  
possvel criar,  vontade, no sistema nervoso duma criana. Ser-lhe- 
necessria, na sua vida adulta, uma sorte excepcional para se evadir desta 
priso, se  que ela o consegue (     .. ) E se os seusjuzos, com o tempo, 
lhe fizerem rejeitar violentamente estes automatismos,  porque um outro 
discurso lgico responde melhor s suas pulses e fornece um quadro mais 
favorvel  sua gratificao. 

Laborit, ob. cit.

A personalidade engloba, pois, todos os aspectos do indivduo na sua 
dimenso biolgica, social e cultural, o consciente e o inconsciente,- a sua 
estrutura biolgica herdada e

a estrutura sociocultural adquirida.

A personalidade  a soma total dos modos de comportamento actuais ou 
potenciais do organismo determinados pela hereditariedade e o meio. Nasce e 
desenvolve-se atravs da interaco funcional dos quatro principais sectores 
sobre os quis os modos de comportamento se organi     .zam: o sector 
cognitivo (inteligncia), o sector conotativo (carcter), o sector afectivo 
(temperamento), e o sector somtico (constituio). 

H.J. Eysenck, The structure of the Human Personality

A personalidade modela-se pelos paradigmas (9) e pelos padres de 
comportamento que circulam na sociedade e no grupo.


A sociedade Arapesh pune todo aquele suficientemente insensato para se 
meter numa cena de violncia ou implicar-se num assunto desonroso, que caia 
na imprudncia de se deixar ferir na caa, ou ao qual falte o juzo a ponto 
de se tomar o centro do insulto pblico pela sua mulher. Esta sociedade que 
considera que cada um deve ser doce e servil e que quer ignorar a violncia, 
no conhece qualquer sano contra aquele que a utiliza. Mas insiste em agir 
contra aqueles que, por ignorncia ou estupidez, a provocam.

Quando a ofensa  benigna - como quando um homem se mete numa rixa dos 
vizinhos - apenas o seu tio maternal vir pedir indemnizao.

Ao fim e ao cabo esse pobre filho da sua irm no sofreu j um ferimento e 
perdeu o seu sangue? Mas se, pelo contrrio, ele questionou duma forma 
indigna em pblico com * sua mulher, ou com umjovem parente com o qual o 
ouviram trocarinsultos, ento  todo * grupo da aldeia ou das aldeias que 
toma o assunto em mos, sempre empurrados pelos tios maternais, executores 
oficiais do castigo. @ ...)

Mas, contra o homem verdadeiramente violento, a sociedade no tem nenhum 
recurso. Tal tipo de homem enche os seus semelhantes de uma espcie de 
terror sagrado. Contrariados, eles ameaam deitar fogo  sua prpria cabana, 
partir os potes e

28

recipientes e deixar para sempre a regio. Os pais e os vizinhos, 
consternados com a ideia de serem assim abandonados, suplicam ao homem para 
no partir e no os deixar, para no destruir os seus prprios bens - e 
acalmam-no dando-lhe tudo o que ele dese,ia.  apenas porque toda a educao 
dos Arapesh tende a minimizar a violncia e a

confundir os mbiles com que a sociedade pode subsistir, castigando os que 
provocam a violncia e aqueles que a sofrem em vez daqueles que na realidade 
a cometem.

M. Mead, Moeurs et Sexualit en Ocanie

Sartre, em  As Palavras, faz notar a tomada de conscincia sobre o meio, 
conscincia tardia neste caso, mas que acabar por se impor.

0 homem pode, diz Laborit, ter a sorte de se evadir das malhas prisionais 
dos automatismos em relao ao meio - a aprendizagem da cultura e a 
disciplina social - que progressivamente o manipulam.

0 indivduo , acima de tudo, os outros, aquilo que aprende da memria 
colectiva do grupo, como bem demonstra Margaret Mead com o estudo da 
comunidade indonsia dos Arapesh. Verdadeiro computador que reage 
automaticamente em grande parte da sua vida, julgando que decide e controla 
os seus prprios comportamentos em funo das suas gratificaes 
individuais. Mas pode surpreender em si mesmo esse comportamento como 
interiorizado; uma tomada de conscincia da teia social pode favorecer a 
elaborao - novamente inconsciente - de um novo sistema de fuga.- sair da 
procura da gratificao social pela gratificao da diferena e da 
criatividade. De qualquer modo, uma paragem do condicionamento marcadamente 
social arrasta a um outro condicionamento de sublimao, ou ao incio de uma 
desmontagem dos automatismos que  um

outro processo de terapia. 0 homem reage criando novas linhas de fuga, de 
sublimao em sublimao.

Esta tomada de conscincia passa pela verificao de que o nosso 
comportamento, que consideramos normal, no o  necessariamente. H aspectos 
universais do comportamento humano: aqueles em que o fundamento biolgico o 
caracteriza como comportamento da espcie. Os gestos de saudao, o sorriso, 
o coar a cabea, certos gestos de dependncia, so comportamentos 
universais e, ern muitos casos, compartilhados por outros primatas.

Comportamentos universais

S o interdito do incesto  um fenmeno cultural universal e, com ele, a 
definitiva inslituio do casamento, Porm, a grande maioria dos 
automatismos culturais e sociais so historicamente localizveis num tempo e 
num lugar. H uma grande variedade de culturas e, necessariamente, de 
variantes culturais. Essa constatao torna-se principalmente relevante com 
a expanso dos pases ibricos, desde Pro Vaz de Caminha que pode 
considerar-se o primeiro antroplogo (amador) portugus.

29

A feio deles  serem pardos, maneira de avermelhados, de bons rostos e 
bons narizes, bem feitos. Andam nus, sem nenhuma cobertura. Nem estimam 
nenhuma coisa cobrir nem mostrar suas vergonhas; e esto acerca disso com 
tanta inocncia como tm em mostrar o rosto. Traziam ambos os beios de 
baixo furados e metidos por eles ossos brancos, de comprido duma mo 
travessa, e de grossura dum fuso de algodo, e agudos na ponta como furador.

Metem-nos pela parte de dentro do beio; e o que lhe fica entre o beio e os 
dentes  feita como roque de xadrs, e em tal maneira os trazem ali 
encaixados que lhes no d paixo, nem lhes torva a fala, nem comer nem 
beber.

Carta de Pro Vaz de CamInha a D. Manuel /, 1500

Qualquer sociedade aberta  dinamizao cultural verifica este relativismo 
de culturas, a diferente utilizao do corpo, dos objectos e a prpria 
inverso (0) de valores.

Se o homem pode reconhecer os outros como homens - caso de Pro Vaz de 
Caminha - admitir essa relatividade cultural e esse ser o primeiro passo 
para a desmontagem das suas prprias crenas. Estranhar o outro  reconhecer 
o quanto podemos ser estranhos para os outros.

Cultura e Linguagem

A comunicao  comum  grande maioria dos seres vivos. Mas s o homem tem 
linguagem verbal, oral e escrita construda socialmente a partir da 
experincia colectiva,neste sentido o homem  linguagem.

A partir de uma frmula idntica  dos primatas, o homem fabrica utenslios 
e smbolos, uns e outros representantes do mesmo processo, ou, melhor, 
necessitando no crebro do mesmo equipamento fundamental; tudo isto leva a 
considerar, no s que a linguagem  to caracterstica do homem como o 
utenslio, mas ainda que se trata da ex-

presso da mesma propriedade humana, exactamente como trinta diferentes 
sinais vo-

cais do chimpaz so o exacto correspondente mental das varas encaixadas 
para chegar a uma banana suspensa, isto , nos chimpanzs, a linguagem  to 
pouco linguagem quanto as varas encaixadas so uma tcnica propriamente 
dita. 

Leroi-Gourhan, 0 Gesto e a Palavra, 1

H pois uma identidade completa entre a actividade motriz do mundo da mo 
(que no pode existir sem projecto mental) e a actividade verbal - so um 
nico facto tipicamente humano, um nico tipo de fenmeno mental, expresso 
pelo corpo e pelos sons. 0 raciocnio e a linguagem ligam-se s operaes 
tcnicas e com elas nasce o mundo social da mo (a tcnica) que evolui em 
funo do simbolismo sonoro e grfico que ir conduzir  escrita, quando 
simultaneamente o homem atinge a tcnica do fogo e a conquista imperialista 
do espao.

Utenslios e linguagem esto ligados neurologicamente: ao surgirem novas 
tcnicas -


novas sries operatrias de gestos e conceitos, muitas das quais se tornam 
automticas e se materializam em cadeias de produo -, igualmente surgem 
novas sries de organizao sintctica, fornecidas pela memria. De novo se 
levanta a relao estabelecida entre o crebro e o meio, representado pela 
complexidade crescente do sistema nervoso na evoluo do homem.

As primeiras linguagens estavam fundamentalmente ligadas  expresso do 
concreto, garantindo a comunicao das sries operatrias simblicas de 
aco narrativa; assim surgem os mitos e a arte pictrica.

Posteriormente, a linguagem atinge a funo de expressar sentimentos 
fundamentalmente ligados ao sentido religioso, complementando-se a linguagem 
simblica verbal com a linguagem figurativa. Ao fixar-se na escrita, a 
linguagem ter de empobrecer os

30

meios de expresso irracionais, mas ganhar em lgica e coerncia interna do 
discurso, desligando-se cada vez mais do mundo material que tenta 
representar. Com a difuso da escrita, as variantes individuais decrescem 
progressivamente, o organismo bolectivo ultrapassa o individual - e aparece 
materializado na cidade, no pas.

Entre os diferentes elementos de comportamento social, a linguagem oferece 
um lugar privilegiado e est em relao com a sobrevivncia da espcie. 
Porm, na vida moderna esto-se a perder a maioria dos smbolos sociais (no 
h adornos e vesturio caractersticos da classe social, da profisso, do 
sexo, das etnias; a participao real nas cerimnias colectivas como 
paradas, procisses, diminui ou desaparece,- as noes de tempo e

espao uniformizam-se), e do mesmo modo h uma uniformizao social da 
linguagem de relao, quer gestual quer verbal. Tudo tende a uma mega-etnia 
universal - j        .a se verifica isto na diviso mundo ocidental, russo e 
chins - - a humanidade, o colectivo, tende a construir uma sociedade onde 
so isolados alguns produtores de tcnicas e smbolos para organizarem o 
programa das massas. 0 mnimo de liberdade individual, de manuteno duma 
linguagem de relao que ainda anima tanto o biolgico como o social, est 
cada vez mais restringido, para o homem comum, aos anos que rodeiam a

maturao sexual. Do mesmo modo, nas super-organizadas sociedades colectivas 
dos insectos  esse o nico perodo em que, para uma limitada minoria 
representativa, se

verifica uma certa independncia de comportamento.

A: Cdigos culturais universois B: Cdigos culturais de comportamento 
divulgado C: Cdigos culturais de comportamento massificado

31

 difcil ajuizar acerca do estdio em que se encontra a humanidade actual, 
em que apenas uma gerao separa mui     .tos dos seus representantes do 
tempo dos artesos, dos lavradores, das bodas de aldeia, dos teatros 
ambulantes, enfim, de todo um aparelho social cujos vestgios influenciam 
ainda uma parte importante do globo. E contudo, de ano para ano, a 
exteriorizao acentua-se, existindo j milhes de homens que representam 
qualquer coisa de novo para o etnlogo. Estes homens dispem de um nmero 
mnimo de prticas sociais indispensveis para garantir o seu movimento 
quotidiano, de uma infraestrutura de evaso pessoal pr-condicionada pelas 
frias pagas, pelas estradas, pelos hotis ou pelos parques de campismo, por 
umas quantas semanas anuais em

que se encontram num estado de liberdade canalizada; uma superstrutura 
superficial permite-lhes ultrapassar os ritos de passagem, como nascer, 
casar-se ou morrer com o

mnimo indispensvel de emoo ou de encenao. A sua parte de criao 
pessoal torna-se inferior  de uma lavadeira do sculo XIX, enquanto a sua 
funo produtiva se resume  de uma engrenagem exacta, com o despertar, as 
deslocaes e o trabalho perfeitamente cronometrados. (... ) Com efeito, 
estes homens possuem uma participao social idntica  dos seus 
antepassados (  ... ) pela janela da televiso e pelos lbios dos 
transistores (... ) Mas a con-

trapartida  o risco social de uma hierarquizao sociaIprovavelmente mais 
acentuada do que em pocas anteriores; uma estratificao por seleco 
racionah) vir a separar da massa os elementos raros a fim de os i    
.nvesti.r na posio de fabricantes de evaso teleguiada. Uma minoria cada 
vez mais restrita vir a elaborar, no s os programas vitais, polticos, 
administrativos ou tcnicos, mas tambm as raes emocionais, as evases 
picas, a imagem de uma vida que se tomou totalmente figurativa, pois a vida 
social real pode, sem grandes abalos, ser substituda por uma vida social 
meramente figurada. Uma tal via existe desde a primeira narrativa de caa do 
Paleoltico, e mais ainda depois do primeiro romance ou da primeira 
narrativa de viagens. 

Leroi-Goufhan, ob. cil.

ldentificada crescentemente com o ritmo e a evoluo da cultura, a linguagem 
tende a separar cada vez mais o homem dos seus fundamentos biolgicos. So 
essas diferenas individuais, os cdigos ainda no completamente 
desumanizados, no sentido de ainda assumirem sintomas de criao prpria, 
que o antroplogo pretende levantar e reanimar.

2.2. Componentes da cultura

2.2. 1. 0 HOMEM. AS SUAS ORIGENS

Aparecimento da vida: o Universo

Vivemos, (...) como que numa partcula de p que gira em tomo de uma 
estrela banal, no canto mais remoto duma galxia escura.

E, se somos um ponto de imensido do espao, ocupamos tambm um instante no

fluir das eras. Sabemos agora que o nosso universo - ou, pelo menos, a sua 
encarnao mais recente - tem entre 15 e 20 mil milhes de anos. 0 tempo 
decorrido desde a

Grande Exploso (Bg Bang).

32

No incio deste universo no havia galxias, nem estrelas, nem planetas, nem 
vida, nem Civilizaes, apenas uma bola de fogo uniforme e radiante que 
preenchia todo 0

espao. A passagem do caos da Grande Exploso para o cosmos que comecamos a

conhecer  a mais terrvel transformao da matria e da energia que tivemos 
o privilgio de vislumbrar. E, at que encontremos seres mais inteligentes 
noutras paragens, somos ns a mais espectacular de todas as transformaes - 
os descendentes remotos da Grande Exploso, dedicados  compreenso e  
posterior transformao do cosmos de que provimos. 

Carl Sagan, Cosmos, Gradiva

0 universo em expanso

0 planeta Terra

A Terra condensou-se a partir dos gases e poeiras interestelares h cerca 
de 4,6 mil milhes de anos. Sabemos, pelo registo fssil, que a origem da 
vida tem lugar pouco depois, provavelmente h cerca de 4 mil milhes de 
anos. As primeiras coisas vivas no eram de modo nenhum to complexas como 
um organismo unicelular, que j  uma

forma de vida altamente sofisticada.

AS primeiras tentativas foram muito mais modestas. Nesses primeiros tempos, 
as des-

cargas elctricas das tempestades e os raios ultravioletas do Sol quebraram 
as molculas simples, ricas em hidrognio, da atmosfera primitiva e os seus 
fragmentos recombinavam-se espontaneamente em molculas cada vez mais 
complexas.

Os produtos desta qumica primitiva dissolviam-se nos oceanos, formando uma 
espcie de caldo orgnico de complexidade cada vez maior, at que um dia, 
absolutamente por acaso, surgiu uma molcula capaz de fazer cpias 
grosseiras de si prpria, usando outras molculas do caldo como mdulos. 
Este foi o primeiro antepassado do cido desoxirribonucleico, mais conhecido 
por ADN, a molcula-molde da vida terrestre. Tem a forma de uma escada 
enrolada em hlice, em que cada um dos degraus pode ser formado por 4 blocos 
diferentes, os quais constituem as letras do cdigo gentico. Estes blocos, 
chamados nucletidos, do as instrues hereditrias para a construo de 
qualquer organismo.

Todas as formas de vida da Terra possuem um conjunto de informaes 
diferentes, escritas essencialmente na mesma linguagem. 

Carl Sagan, ob. cit.

0 cdigo dos organismos: Molcula de ADN

33

A vida, propriedade pela qual corpos individuais se multiplicam, surge 
praticamente com a formao da Terra, parecendo indicar que so precisamente 
essas condies de formao do planeta que podem acarretar, embora por 
acaso, a organizao desta.

Os restos fsseis - desde as partculas do cosmos inicial que nos surgem sob 
a forma de fotes - permitem estabelecer uma escala de evoluo da vida, 
embora lacunar, desde os primeiros ultravrus, de estrutura cristalina, 
inorgnica, mas necessitando de organismos vivos para se desenvolverem, at 
s espcies actuais. A vida  filha do Universo, diz H. Reaves.

 Tinha a Terra dado trs bilies de voltas em redor do Sol quando 
apareceram  superfcie do mar partculas de aparncia andina, na fronteira 
entre o qumico e o biolgico uni.celular, que os seus descendentes haviam 
de vir a chamar ultravrus. Com uma discrio que convm admirar, estava a 
produzir-se um fenmeno extraordinariamente improvvel para um esprito 
racional e, no fim de contas, insensato: a vida. (...)

Ao fim de um bilio de anos de vida ocenica, quando se abre o primeiro 
captulo do nosso lbum - o primrio -, os vrus tinham conseguido tomar-se 
peixes, crustceos, escorpies de trs metros de comprido; a proliferao 
das formas animais  j prodigiosa. Como decorao vegetal, temos de nos 
contentar com algumas algas e, sobre a

terra, o deserto. (...)

Enfim, um ser vivo arriscou-se fora da gua, no um animal: sem dvida uma 
dessas algas que o refluxo abandonava na vasa das margens ter encontrado o 
meio de ir vivendo entre as duas mars. E pouco a pouco, no espao de 
trezentos milhes de anos, avanaram pela terra dentro florestas pantanosas 
de fetos gigantes, atingindo s vezes a

altura de trinta metros, exuberantes e sempre verdes. Na sombra e no 
silncio dessas florestas, alguns caracis traavam os seus primeiros sulcos 
no musgo, e liblulas do tamanho de falces deslizavam nas guas. Os 
insectos, nossos parentes, e os moluscos, comeavam a sua existncia 
colateral. (  ...)

E eis ento que grmenes de anfbios resolvem viver a sua primeira idade da 
independncia.- o ovo inventa a casca, o rptil liberta-se da gua, vai 
conquistar a terra. (...)

Entretanto, uns pequenos quadrpedes, pouco maiores que ratos ou ratazanas, 
tinham entrado discretamente. Uma existncia timorata entre as patas dos 
monstros t-los-ia ensinado a ser prudentes? Conservavam os seus ovos no 
ventre at que o novo ser sasse do invlucro, de forma a deit-los no mundo 
j crianas pr-fabricadas. 0 medo tinha-lhes igualmente dado o sentido da 
famlia e da sociedade.- tomavam conta dos filhos... estes mamferos eram 
bem dignos de sobreviver e de nos transmitir o progresso atravs dum buraco 
de rato. (  ...)

H quatro ou cinco bilies de anos que a pequenina Terra gira no espao.  
escala dos seis dias da criao, o homindeo e o seu slex apareceram dois 
minutos antes do fim do sexto dia, e a histria que fica para contar, de 
Cro-Magnon at aos nossos dias, dura dois segundos. 

Jean Duch, 0 Animal Vertical


 com base na estratificao das rochas, previamente datadas, e dos 
testemunhos fsseis que a se inserem, que a datao se torna possvel. 
Definem-se, ento, de acordo com o tipo de estratos de rocha, osperodos da 
terra, e de acordo com a fauna e a flora predominantes ao longo dos 
perodos, as eras.

A era mais antiga, sem vestgios orgnicos, mas que por deduo se admite 
ter tido a existncia dum tipo de vida menos complexo que o dos primeiros 
invertebrados a deixarem traos,  a Era Crl;otozica, da vida oculta, que 
inclui o perodo pr-cmbrico,nesse perodo teriam surgido j as algas 
verdes que ao produzirem oxignio deram origem  atmosfera - o cu da Terra.

A Era Paleozica, da vida primitiva, identifica-se com a Era Primria, 
caracterizada pelo aparecimento abundante, nos mares, dos organismos 
invertebrados, nomeadamente as trilobitas que quase desaparecem nos finais 
do perodo cambriano dando origem a

grande parte das rochas sedimentares,- com os espongirios, dominam a vida 
marinha.

34

No final da Era Paleozica as plantas marinhas adaptam-se  vida na terra; 
diminuem as trilobitas e surgem os peixes com placas e escamas, os peixes 
placodermes.

Trilobitas

kl_

Peixes placodermes

Reconstituio da vida marinha primitiva

Com o aparecimento dos peixes, nomeadamente os placodermes, a soluo da 
sobrevivncia aponta para uma nova via, a da simetria lateral.

H dois grandes dispositivos de sucesso biolgico das espcies: o 
dispositivo radial de procura e captao de alimentos, levando as espcies 
que o utilizam a limitar a locomoo (espongirios, celenterados, vermes, 
moluscos, crustceos ou equinodermes), atingindo, no caso da medusa, um 
verdadeiro sucesso biolgico . Esta pde sobreviver at hoie sem qualquer 
outro tipo de adaptao.

Outro dispositivo  o de simetria bilateral segundo o qual o corpo do animal 
se dispe atrs do orifcio alimentar, criando um campo anterior, 
constitudo pelos rgos de preenso da cabea, ou, noutros casos, incluindo 
os membros anteriores como dispositivo de relaco.  este dispositivo, a 
criao do campo anterior, que determina as chamadas formas superiores de 
vida.

Este dispositivo surge j nos peixes placodermes e a sua estrutura parece 
manter-se, na generalidade, em todas as linhas de evoluo das espcies que 
escolheram a simetria bilateral. Os placodermes possuem j todos os 
elementos dos vertebrados at ao homem.- caixa rgida do crnio protegendo o 
crebro e rodeando a boca (neste caso uma ventosa), rgos locomotores 
ligados  base do crnio, e membros inferiores. 0 crnio no surge como 
suporte de mandbulas, j que a boca  uma ventosa, mas este conJunto ir 
ser determinante na evoluo do crnio nas vrias espcies.

0 homem e a medusa, surgindo com um intervalo onde se inserem dois milhes 
de espcies com adaptaes diversas, representam os dois extremos mais 
conseguidos dos dois tipos de sobrevivncia.

A simetria bilateral: tipos dum mesmo dispositivo

A Era Mesozica (Secundrio) caracteriza-se pela conquista da terra pelos 
organismos vivos, evoluindo at aos grandes surios, aves com dentes, e 
grandes insectos.  ainda no Secundrio que surgem os animais de sangue 
quente, as primeiras aves e mamferos. Esses mamferos, os roedores, 
apresentam j o dispositivo do mamfero que se manter no homem: refgio 
para reproduo e reserva de vveres, infncia prolongada dos filhos levando 
a cuidados cada vez mais sofisticados de proteco e tratamento da prole, 
dispositivo de campo anterior adaptado ao tipo de procura de apreenso de 
alimentos, ou

seja, provocando a evoluo da caixa craniana e dos membros anteriores.


A Era Cenozica, h 65 milhes de anos, inclui os perodos Tercirio e 
Quaternrio, iniciando-se este ltimo h pouco mais de um milho de anos. No 
Tercirio passam a dominar os grandes mamferos e grandes herbvoros. No 
mar, os rpteis marinhos foram-se extinguindo, sendo substitu dos pelos 
rpteis anfbios, pelas baleias e pelas morsas.

35

As espcies tomam as formas actuais que tero no Quaternrio.  no Tercirio 
que surge o homem, talvez h cerca de sete milhes de anos.

Durao de cada perodo (milhes de anos)

Perodos       1 .    Durao total (em milhes de anos)

.0
2 o

Quaternrio

Tercirio

J

fferos

621

631

1!@

o. A ma.

o

Cretacico

Jurssico

Triasi1co

72 L;@@

ves pteis

46

181

4923(

.0

P,m,co

Carbonico

Inferior

Devnico

Silrico

Ordovicico


Cambrico

5028(

a r

30 @LO

1

5036(

LO 410

1

^         W           1k1O@k      qt       vertebrados

qP                                           primitivos

404

60510

1 MIS- (Z)                             inverteb

primit

rados lvos

1j1@

Quadro genealgico da evoluo dos fsseis

A adaptao em funo da transformao do meio ambiente ir, pois, centrar-
se no dispositivo de procura e captao de alimentos, na caixa craniana e 
nos mem-

bros, principalmente os anteriores. Nesta adaptao definem-se duas vias 
funcionais: desenvolvi niento dos membros anteriores como elemento da 
estrutura de preenso ou, noutros casos, como estrutura da locomo o e da 
procura.

As vias funcionais do dispositivo de procura e captao de alimentos: a, b, 
c - campo facial exclusivo; d, e, f - campo facial e manual combinados. (in 
L.-Gourhan, 0 Gesto e a Palavra 1j

36

A

Diferentes tipos funcionais do dispositivo bilateral: A - coluna da 
esquerda: estrutura

craniana em relao com posio e dentio B - coluna central: a mo C -
coluna da direita: posio em

atitude de prenso (In L.-Gourhan, ob. cit.)

A biologia explica, pelo menos sumariamente, a transformao das espcies, 
combinando o jogo de elementos genticos com a seleco natural. Pode 
acrescentar-se que o efeito cumulativo das adaptaes ao meio conduz, no 
decurso dos tempos, a uma organizao cada vez mais eficaz do sistema 
nervoso. A passagem do meio aqutico ao meio areo, a apan .co, nos fins da 
era secundria, da homeotermia que d s aves e aos mamferos possibilidades 
considerveis de adaptao em relao s dos animais de sangue frio, vo 
renovando o registo sobre que se aplica a aplicao funcional. 0 sistema 
nervoso  o beneficirio mais aparente da evoluo, o que d um significado 
extraorgnico, visto que resulta no crebro humano. Este resultado que 
apenas foi possvel para uma nica linhagem no  concebvel se no houver 
na origem, num nvel muito baixo do mundo vertebrado, condies favorveis 
bastante gerais e, depois, cada vez mais restritas,  medida que nos 
aproximamos dos tempos actuais. , pois, numa base biolgica muito lata e 
muito profunda que se encontra o ponto de partida, e somente esquecendo os 
milhes de espcies que s imperfeitamente realizam as condies favorveis 
sucessivas se poder falar da linhagem humana. A primeira e a mai  .s 
i.mportante dessas condies, acabmos de ver,  a constituio do campo 
anterior e afecta a maioria das espcies animais e a totalidade dos 
vertebrados. (...)

De maneira independente da diviso taxonmica das classes e ordens, o mundo 
dos vertebrados partilha-se entre duas tendncias funcionais, aquela em que 
o membro anterior est votado de maneira praticamente exclusiva  locomoo 
e aquela em que intervm de maneira cada vez mais estreita no campo anterior 
>de relao.

Leroi-Gourhan, ob. cit.

37

Os mamferos

De acordo com o lipo de alimentao, aparecem nos mamferos dois tipos 
principais de adaptaes: os ungulados, comedores de produtos ricos em 
celulose (herbvoros, e os mamferos com um regime alimentar varivel como 
os primatas, os roedores, os des-

dentados, os insectvoros, os cetceos, os carnvoros, os quirpteros. Nos 
ungulados -

e, por motivos diversos, nos cetceos - o campo anterior no inclui a 
interveno dos membros na preenso, ao contrrio dos outros mamferos cujo 
campo facial e campo manual passam a intervir por processos variados.

Evoluo dos mamferos

Os elementos que estruturam este dispositivo de captao de elementos so a 
suspenso craniana, a organizao mecnica da coluna vertebral e dos 
membros, a dentio, a mo, e o crebro tornado o coordenador dum sistema 
nervoso mais complexo. Exceptuando o ltimo elemento - sistema nervoso 
complexo com crebro coordenador -

esta estrutura j tinha sido ensaiada no final do Primrio: alguns rpteis 
tinham ascen-

dido  posio quacrpede levantada (como o co), com colunas que 
transportavam o animal acima do solo, deixando de rastejar: o pescoo 
alongara-se e o animal mexia a cabeca - a mo tambm evolura ligeiramente. 
Porm, o crebro era mnimo e a linha evolutiva acaba por interromper-se, 
sendo retomada milhes de anos depois com o aparecimento dos mamferos, no 
final do Secundrio.

Esta estrutura, ao surgir de novo com os mamferos, vai caracterizar os 
mamferos caminhadores e os mamferos preensores. Os caminhadores so os 
herbvoros com extremidades especializadas para a marcha,- nos preensores o 
campo anterior inclui uma mo de cinco dedos, herdada dos anfbios da era 
primria atravs do primeiro mamfero insect'ivoro, e o esqueleto ganha uma 
maior maleabilidade de movimento.

A construo craniana assenta na lei da diviso entre o crnio cerebral e o 
crnio dentrio.

38

Os Primatas: Cinomorfos, Antropomorfos e Homindeos

0 grupo mais arcaico dos Primatas  o dos Lemurdeos ou Lmures, ainda 
prximos dos insectvoros, chamados semi-smios ou falsos macacos, tm 
extremidades com unhas, mas incompletamente adaptadas  preenso.

H-os ainda em Madagscar, na frica, no sul da india e na Malsia, como 
descendentes de grupos j extintos.

0 grupo dos Smios divide-se em dois tipos, os platirrneos, com unhas e 
garras, pouco adaptados s rvores, e os catarrneos.  neste ltimo grupo 
que se incluem os cinomorfos, smios propriamente ditos, com cauda, de 
marcha quadirpede, vivendo nas rvores, e os antropomorfos, sem cauda, 
maior caixa craniana e com marcha digitgrada. Os antropomorfos incluem os 
chimpanzs africanos, os gibes da india e da Malsia, os orangotangos de 
Bomu e da Samatra e os gorilas da frica.

Os homindeos ou antropcleos partilham com os antropomorfos a posio 
sentada, o

polegar oponvel e a semilibertao da abbada craniana. So espcies 
diferentes dos antropomorfos que evoluram paralelamente no tempo, a partir 
dum tronco comum, o procnsul, diversificando-se a certo ponto do percurso. 
0 procnsul pode ser considerado o antepassado comum de todos os Primatas 
superiores, incluindo o homem.

Dele partem a linha dos Antropcleos e a dos Dripteros que se diversificam 
nos antropomorfos actuais, gorila, chimpanz, gibo e orangotango. 
Antropcleos e Antropomorfos ganham a sua adaptao actual no Quaternrio.

OrangO Gorila Chimpanz

1      1    1

Homo sapiens    poca actual

A evoluo dos Primatas

arborcolas

Austrolopitecdeos

Oreopitecos ?

Pongd _11@ 1    k,o

HoZZiZos

Queniopitecos? Ramapitecos?

NDriopitecdeos    9 @oo

Grupo do procnsul

pr

Mioceno
13 milhes

de anos

Muito provavelmente entre meados e finais do Tercirio, primatas primitivos 
muito semelhantes aos gibes - o nico antropomorfo que  bpede no solo, 
conseguindo o equilbrio pelo balanar dos braos - teriam abandonado o meio 
arborcola, encurtado os braos (comprimento dispensvel no solo), 
adquirindo uma coluna vertebral que passou sustentar o crnio em equilbrio, 
e adaptando o p  marcha - teria surgido ento um primata muito prximo do 
australopiteco.

Do Australopiteco ao Homem Actual: provas da evoluo do homem e da sua 
evoluo cultural

No final do Tercirio surgem em frica grupos primatas bpedes possuindo 
utenslios,estes primeiros homens que, de resto, surgem como um ramo 
antropcleo sem continuidade - foram chamados australopitecos, 
plesiantropos, parantropos e zinjantropos, formando a famlia dos 
Australantropos. Deslocam-se em posio extremamente vertical, tm braos de 
comprimento mdio e fabricam utenslios por percusso perpendicular a

partir de seixos rolados, os seixos partidos ou pebble. A alimentao era, 
em parte, car-

nvora. Possuam um crebro muito pequeno. So os primeiros homincleos que 
se co-

nhecem, pois o seu crebro j est adaptado a um ser que fabrica 
instrumentos. Ao surgirem, os primeiros homindeos surgem j como homens que 
apontam para o homo spiens, o que leva o antroplogo Leroi-Gourhan a 
abandonar a designao de australopiteco (macaco do sul) pelo de 
australantropo.

39

Temos vindo a assistir ao longo desenvolvimento da raa humana. Vimos que a 
filiaco do homem ao smio pode ser hoje considerada como muito problemtica 
e que  necessri .o apelar para um hipottico antepassado bpede situado 
aqum da bifurcao que isola os pitecomortos dos primatas bpedes. Os 
caracteres humanos so, com efeito, irredutves aos dos smios pois que 
toda a evoluo, do peixe ao gorila, mostra que a

posio  uma caracterstica fundamental.- os macacos, e todos eles, so 
caracterizados por uma posi   .co mista, quadrpede e sentada, com a 
adaptao do p a estas condies. Os antropdeos so fundamentalmente 
caracterizados por uma posio mista, blpede e sentada, com rigorosa 
adaptao do p a esta posico.

Esta diferenJe posio podia parecer acessria, no entanto,  ela a causa 
das dife-

rencas essenci  .ai.s entre os dois tipos de seres que possuem uma mo de 
polegar oponvel. Os antropIdeos no devem s  posio vertical o facto de 
terem a mo livre durante a locomoo, mas tambm o terem um rosto curto com 
caninos frgeis e um crebro liberto das condicionantes de suspenso da 
caixa craniana. Na sequncia de libertaes sucessi .vas, a do crebro 
estava j realizada no mais velho testemunho, no australopiteco, que, como 
vimos, deveramos denominar australantropw). Assim, por mais longe que se 
procurem os vestgios do homem-macaco, s encontrmos, at  data, homens. 
De entre eles, os mai    .s recuados s o extraordinrios. Dos ps ao 
pescoo no vemos

srias diferencas do homem actual, a construo  j totalmente humana; tem 
uma cabea que j  .a no  a de um macaco, mas sim o rosto de um homem ainda 
no humanizado. 0 conjunto facial enorme e achatado, sem testa, une-se a uma 
caixa craniana pequena e arredondada, provida de uma crista ssea, onde se 
encaixam os msculos de um maxilar gigante. 0 crebro que move esta 
criatura, bem mais desconcertante que o banal antropopiteco sonhado por 
Gabriel de Mortillet,  comparativamente maior do que o de um gorila, sendo, 
no entanto, minsculo relativamente ao nosso e com um peso aproximadamente 
duas vezes menor. A inteligncia no est s ligada ao volume cerebral, mas 
 organizao das partes do crebro: um enorme crebro de macaco, igual ao 
de um homem, funcionaria como o crebro de um macaco - melhor: como o de um 
gorila (pois conteria mais clulas nervosas) - mas de maneira alguma como o 
de um

homem. Ora o australopiteco j no tem um crebro de macaco, mas, o que  
talvez mais embaraante, um crebro de homem com uma face 
extraordinariamente primitiva. Evidentemente que o estudo pormenorizado do 
crebro dos homens fsseis no  realizvel, mas possumos, pela moldagem da 
cavidade craniana, a imagem do crebro oculto pelas meninges, imagem essa 
suficiente para estabelecer as propores das diferentes partes e prever as 
pri    .ncipai.s ci.rcunvolues. Uma paleontologia cerebral , em

certa medida, possvel e foi praticada vrias vezes de h meio sculo para 
c.


Atravs de numerosos trabalhos, sabemos como funciona o crebro dos mais 
diversos animais e do homem. Este conhecimento  ainda muito imperfeito, 
mas, para toda a regio superficial, a mais fcil de explorar cirrgica e 
electricamente, os dados so numerosos e coerentes. Esta regio abrange 
grande parte do crtex cerebral, ao nvel do qual se desenrolam os fenmenos 
mais importantes da vida de relao. justamente a imagem, um pouco 
delicada, do crtex cerebral que nos d as moldagens endocranianas dos 
fsseis. Embora no podendo esperar a elaborao de um quadro completo das 
manifestaes intelectuais dos australantropos, dos arcantropos ou dos 
paleantropos, podemos, atravs do duplo recurso  moldagem e  fisionomia 
actual, reconstituir uma imagem, j bastante consistente, das possibilidades 
do crebro

No homem, a abbada craniana corresponde  superfcie real do encfalo, 
permitindo-nos dizer, de maneira segura e precisa, que a evoluo cerebral 
mais ntida dos australantropos aos paleantropos  o aumento da superfcie 
do crtex nas regies mdias frontoparietais.

Esta verificao implica consequncias de grande importncia, pois mostra 
que, se a

evoluo corporal humana se conclui bastante cedo, a evoluo cerebral 
apenas comea no zi.n1.antropo. E, ainda, que as diferenas intelectuais 
entre os grandes smios e os mais

antigos homens devem ser procuradas onde o contraste  maior, isto , nas 
especificidades do crtex mdio. 

Leroi-Gourhan, ob. cit. 1

40

Inicia-se, ento, o processo de hominizao no necessariamente numa linha 
contnua, mas surgindo,  distncia, como se o fosse. Este processo assenta 
fundamentalmente no fabrico de utenslios, tal como este assenta na 
capacidade simblica, capaz de conceber mentalmente o projecto dos 
utenslios; a prtica da produo dos instrumentos e a paralela criao de 
zonas cerebrais, no crtex, de projecto e controlo do fabrico manual, 
apresenta-se como o motor da hominizao, implicando um conjunto de 
transformaes corporais que resultam na bioedia: coluna vertical e crnio 
em equilbrio sobre a coluna, adaptao do p  marcha, trax e bacia ssea 
para acomodao de rgos internos na posio vertical e, finalmente, 
libertao da mo.

Bipedia

t                         > CRESCIMENTO DO CREBRO, ENROLIBERTAO DA    > 
UTENSLIOS         LADO DENTRO DO CRNIO

MO

A produo de utenslios permite uma crescente sofisticao da oponibilidade 
do polegar, j definida nas reas correspondentes no crebro do 
Pitecantropo, o primeiro homem a nascL@,r com rea especfica orientada para 
a tcnica.

A linguagem, indispensvel  vida em grupo e  transmisso das sries 
gestuais de produo de utenslios, ir determinar o desenvolvimento do 
crtex pr-frontal,- o desenvolvimento das tcnicas  acompanhado pelo 
desenvolvimento do frontal craniano e a libertao da testa. A partir da 
libertao da parte anterior do crebro, assume grande importncia o papel 
da sociedade em relao  espcie. A cultura e a sociedade substituem agora 
a evoluo biolgica: a evoluo deixa de serbiolgica epassa a sercultural.

0 que caracteriza o homem - e se vai definindo no processo de hominizao - 
 o facto de produzir utenslios e usar a linguagem,- desde o seu 
aparecimento e ao longo do Quaternrio, a evoluo biolgica do homem aponta 
para a soluo de um ser produtor de cultura. H uma ntida relao entre os 
estdios da sua evolu o cerebral e os estdios culturais, confirmados pela 
capacidade craniana em crescimento ntido e pelo nmero de sulcos que vo 
cavando as caixas cranianas dos homens fsseis. Ao surgir o

homo sapiens, terminando a evoluo da caixa craniana e definindo-se o 
homem actual, todos os homens nascem capazes de aprender as mesmas sries 
gestuais e simblicas que permitem o aparecimento da civilizao. 0 homem , 
ento, definitivamente susceptvel de ser portador e produtor de cultura, em 
sociedade. A evoluo biolgica parece interromper-se.

0 estabelecimento desta relao entre a produo de utenslios e a evoluo 
biolgica determina-se atravs da teoria da evoluo e das provas fsseis e 
dos traos culturais. A determinao da evoluo biolgica assenta em dois 
factores.- a teoria da evoluo de Charies Darwin (1809-1892) e o mecanismo 
que a sustenta, a seleco natural ensaiada teoricamente por Larnarck em 
1809.


Segundo Darwin, a natureza  prolfera e por esse facto nascem mais animais 
e plantas do que aquelas que tm possibilidade de sobreviver. Decorre da 
que o meio ambiente selecciona as variedades que, por puro acaso, so mais 
adaptadas  sobrevivncia, nesse momento e nesse meio. As mutaes que ento 
se verificam - alteraes repentinas na hereditariedade - transmitem-se  
descendncia. As mutaes so o eixo da teoria da evoluo. 0 ambiente 
selecciona entre as mutaes aquelas que aumentam as possibilidades de 
sobrevivncia, do que resulta uma nova organizao de vida, dando origem a 
uma nova espcie.

Ao longo da evoluo, morrem as formas de vida mal adaptadas ao ambiente, e 
as adaptaes, que parece surgirem por acaso, por ensaio e erro, vo-se 
fixando, com o

tempo, em tipos de mutaes favorveis.

Na obra A origem das espcies-, Darwin ultrapassa o conceito de fixidez dos 
organismos (que na via espiritualista significava que Deus tinha dado origem 
s criaturas tal como estas eram conhecidas pelos contemporneos) e surge o 
conceito de dinamismo histrico.

41

As provas utilizadas por Darwin foram testemunhos fsseis de mamferos da 
Amrica do Sul e das ilhas Galpagos onde tinham vivido separadamente do 
continente americano. A teoria da evoluo assentava, ao tempo, na intuio 
e no podia aplicar-se a experimentao. Hoje, a evoluo da Gentica veio 
dar validade  teoria e desenvolver-se a filogenia experimental que estuda 
rigorosamente as transformaes dos organismos em relao com o meio, 
legitimando e actualizando a teoria de Darwin. A filogenia experimental vive 
da interdisciplinaridade com cincias naturais e humanas como a Anatomia e 
Fisiologia Humana e Comparada, a Psicologia, a Pr-histria, a Paleontologia 
e a Gentica.

As provas fsseis, restos sseos da evoluo do homem, permitiram definir as 
caractersticas que se vo materializando- ao longo do tempo: os 
testemunhos sseos, datados, permitem verificar a bipedia, o crescimento da 
capacidade craniana e da evoluo do crtex nos sulcos dos crnios, o 
aumento do crnio em detrimento da face que vai encurtando, a crescente 
fragilidade dos ossos cranianos em relao a outros primatas, o encurvamento 
convexo da placa occipital em consonncia com o orifcio occipital, 
avanando em plano oblquo de trs para a frente e para o alto,- finalmente, 
a disposio da bacia, para cima, para segurar as vsceras em posio 
vertical.

Em estrito paralelismo surgem, no tempo, as provas culturais, sofrendo uma 
evoluo que resulta da - e faz resultar a - evoluo biolgica. A mo 
exterior do homem - o utenslio - acompanha-o no tempo e no espao, j   
.azendo com os restos sseos. As provas da evoluo cultural do homem 
corroboram a sua evoluo biolgica e, esta, a sua evoluo cultural.

Quando o homem entra no Neoltico, a evoluo biolgica  substituda pela 
evoluo cultural.

Ao sair do Neoltico, o progresso do homem assenta na tcnica. Porm, o 
tcnico e o arteso sero desprestigiados e segregados pela sociedade que 
ser crescentemente dominada pelas atitudes simblicas.

0 prtico e o tcnico, detentores do saber tcnico da produo, so 
ultrapassados pelo saber terico, pelo poder simblico.

M passagem do Neoltico, essencialmente rural,  Idade dos metais, coincide 
com o

desenvolvimento de um dispositivo que  a sua consequnci'a progressiva     
   ,a ---civilizao ---, no sentido estrito, quer dizer, a interveno da 
cidade no funcionamento do organismo &tfiico. (... ) A civilizao  
caracterizada por um esquema funcional e no por caractersticas 
morfolgicas claras desde a sua origem. Este esquema corresponde a um grupo 
de aldeias organicamente ligadas a uma aglomerao que desempenha o papel de 
capital.

Um tal dispositivo supe uma hierarquizao social afirmada, e concentrao 
da autoridade e do capital de gro entre as mos de uma elite constituda 
pelo poder simultaneamente militar e religioso. 0 facto mais importante do 
ponto de vista tcnico -econmico  a entrada em cena do arteso, porque 
sobre ele repousa toda a evoluo tcnica.

A civilizao repousa sobre o arteso e a situao deste no dispositivo 
funcional cor-


responde a factos que a etnologia definiu  da          /.t incompletamente. 
A sua funo , entre as funes fundamentais, a que se presta menos s 
valorizaes honorficas. A travs de toda a histria e em todos os povos,  
         esmo quando a sua funo se integra estreitamente no sistema 
religioso, ele fica para trs. Porrelao  ---santidade-do sacerdote, ao 
heroismo - do guerreiro,  ---coragem - do caador, ao ---prestigio - do 
orador,  ---nobreza - das tarefas rurais, a sua aco  simplesmente ---
hbil---.  ele que materializa o

que h de mais antropiano no homem, mas ressalta, da sua longa histria, o 
sentimento de que ele apenas representa um dos dois plos, o da mo, nos 
antpodas da meditao. Na origem da discriminao que ainda hoje fazemos 
entre o ---intelectual- e o ---tcnico-, encontramos a hierarquia 
estabelecida nos Antropianos entre aco tcnica e linguagem, entre a obra 
ligada ao mais real das realidades e a que se apoia sobre os smbolos. 

A. Leroi-Gourhan, Le geste et Ia parole, vol.

42

EVOLUAO BIOCULTURAL (A TCNICA)

TCNICA

1. ESTDIO

2. ESTDIO

3.0 ESTDIO

4. ESTDIO

Percusso

Percusso

Percusso

Percusso

perpendicular.

perpendicular.

perpendicular.

perpendicular.

Utenslio sobre

Percusso

Percusso

Percusso

ncleo.

tangencial.

tangencial.

tangencial.

Utenslios/ ncleo.

Ncleo preparado.

Ncleo preparado.

Utenslios sobre

Utenslios s/lasca.

lasca.

Utenslios s/lmina.


LITENSLIOS

CHOPPER

CHOPPER

CHOPPER

Lascas, c/costas,

DE PEDRA

(seixo partido)

Biface.

Biface

c/entalhe.

Lasca clactonense.

Lasca clactonense.

Lasca clactonense

Ponta folicea; c/

Lasca laminar.

Lasca laminar

encaixe.

Machado.

2.2.2. OS DIFERENTES STOCKS RACIAIS E A SUA DISCRIMINAAO GEOGRAFICA

Stock racial e cultura. 0 problema dos civilizados e dos primitivos

0 que identifica o humano  a caracterstica universal da cultura - uma nova 
ordem que se institui sobre a natureza e que se organiza com leis, regras e 
smbolos. Todos os descendentes do -homo sapiens nascem com idntica 
capacidade tcnica e simblicaunicamente as circunstncias histricas e o 
meio podem explicar os diferentes estdios civilizacionais ou de perspectiva 
cultural. No h uma cultura universal, mas culturas correspondendo s 
exigncias do imaginrio dos grupos.

A itinerncia  tambm uma constante humana, dado que as variaes do clima 
ao longo do Quaternrio o exigem, e, assim, a dinmica cultural e a difuso 
a partir de centros torna-se uma das regras da cultura.

As migraes humanas

S um grupo muito isolado poderia conservar uma cultura relativamente isenta 
d influncias externas. Tem havido constantes trocas culturais que explicam 
no s a

expanso de fenmenos culturais que surgem no Prximo Oriente, como a 
criao de gado, mas tambm o progresso que desses contactos decorre.

Levanta-se, porm, o problema das culturas que surgem ao homem ocidental 
como

primitivas - o prprio conceito de primitivo pressupe que o sujeito actual 
da escrita se autoconsidere civilizado.  de novo a abordagem do homem 
branco que no sculo XV inicia o seu imperialismo martimo e colonial sobre 
o resto do mundo ainda por conhecer. A civilizao europeia sai da Idade 
Mdia e inicia o grande comrcio internacional. A frica, dum modo geral, 
atingira tambm o feudalismo senhorial e/ou o imperialismo poltico e 
econmico, canalizando para a Europa o ouro indispensvel para o comrcio 
europeu. A sia, bastante desconhecida dos europeus, mas entrevista a partir 
das viagens dos comerciantes venezianos durante a vigncia do imprio 
mongol, era considerada um continente pago, misterioso, mas de cultura 
muito sofisticada.

44

A descoberta da Amrica representa um aspecto totalmente indito nas 
relaes humanas, surpreendendo o explorador europeu: por um lado, um mesmo 
continente, descoberto em toda a sua longitude num peredo de tempo muito 
prximo, apresenta .espantosos contrastes culturais num povo aparentemente 
homogneo na sua diferena em relao ao europeu- eram as duas grandes 
civilizaes ricas e sofisticadas, o Peru dos Incas e o Imprio Mexicano dos 
Aztecas, com os seus satlites, os pases dominados e sernibrbaros como os 
Toltecas. Por outro lado, depara-se-lhe uma imensa populao itinerante, num 
estdio cultural de colheita e de agricultura errante ou de caa com arco e 
flecha, uma cultura tecnologica mente muito limitada que, aprioristica 
mente,  considerada como primitiva. Este primitivismo -lhe atribudo pelo 
seu comportamento moral e no pelo seu grau civilizacional; os -ndios- 
so amigveis, andam nus, esto em contacto directo com a Natureza, 
recordando ao europeu o comportamento ingnuo do par primitivo do Paraso 
Terreal; essa cultura torna-se um smbolo dum antecedente histrico.

A Amrica oferece ao homem branco - e oferecer ainda com o conhecimento das 
culturas amerndias da Amrica do Norte - um verdadeiro museu de culturas 
estranhas, produzidas por homens no-cristos e de cor diversa. No entanto, 
no  toda a cultura que  rejeitada, mas apenas a religio. Tal como as 
crianas, os homens americanos no conheciam a verdadeira religio - o 
cristianismo - mas no eram culpados por isso. Talvez se inicie aqui a 
tendncia a considerar os outros povos que tinham desconhecido a verdade da 
f crist, como infantis e atrasados.

Com o desenvolvimento do comrcio internacional e a luta pelo predomnio 
poltico e econmico das naes europeias, a Amrica e a frica so 
colonizadas e a atitude de domnio procura os seus fundarnentos no racismo.

Racismo e Etnocentrismo

No  a prtica da escravatura, que caracteriza o imperialismo da Idade 
Moderna, a responsvel pela noo de hierarquias rcicas.

A anlise minuciosa de caractersticas morfolgicas - e mesmo psicolgicas - 
distintivas de outros homens no surge num contexto de racismo, mas, sim, de 
exotismo. 0 racismo, a atitude que admite uma superioridade psicolgica 
atribuda a uma superioridade biolgica, comea a impor-se apenas no sculo 
XIX, quando o colonialismo se torna uma poltica de ocupao. Surge, ento, 
uma minuciosa tipologia de raas assente numa rea de distribuio 
geogrfica e na cor da pele, alm de outros menores aspectos morfolgicos 
como o tipo do cabelo, dos olhos, do nariz, da boca e das mas do rosto, 
etc.

Definem-se trs grandes grupos rcicos, a raa branca (leucoderme), 
caucaside (com origem e difuso a partir do Cucaso, identificando-se com 
uma hipottica expanso dos povos de lngua indo-europeia); a raa amarela 
(xantoderme), mongolide, com centro difusor na sia Central, e a raa negra 
(melanoderme), negr ide, do continente negro, a frica.

Centros e reas de difuso dos grupos raciais

45

Admitindo que o conceito de raa pode assentar numa diferena puramente 
morfolgica entre um nico grupo de homens, uma s espcie, a primeira 
verificao que se

impoe e que no existe nenhum grupo racial puro, mas uma miscigenao (a). 
De todos os grupos, aquele que surge como mais miscigenado  o grupo branco, 
onde tanto os

tons de pele como as outras caractersticas morfolgicas cobrem um leque que 
inclui as dadas como pertencendo a outras raas; no grupo branco encon@ram-
se tons de pele que vo desde o branco leite dos nrdicos at ao moreno 
escuro quase negro de muitos mediterrnicos e ao bronze dos indianos.

Para se admitir uma tipologia, tem de dar-se preferncia  designao de 
stock racial que implica a existncia terica dum grupo central ao qual se 
atribuem as caractersticas morfolgicas que a realidade desmente.

CAUCASIDES

ou LEUCODERMES

Stocks raciais e hibridos principais (in Mesquitela Lima e Outros, Int.  
Antropologia)

 Todos os homens actuais pertencem a uma nica espcie, a do Homo Sapiens, 
Na realidade toma-se impossvel ao antroplogo encontrar elementos que 
possam isoladamente caracterizar uma raa - quer morfologia do esqueleto, do 
crnio, dos msculos, da cor da pele ou caracteres do sistema piloso. Quase 
nunca o conjunto de caracteres que se atribuem a tal ou tal raa humana se 
encontram, ao mesmo tempo, reunidos num mesmo individuo.-  impossivel fixar 
as caractersticas das grandes unidades raciais do mundo.

Prefere-se a classificao de agrupamentos tnicos e no raas no sentido 
zoolgico do termo. Em ltima anlise, as classificaes no tm realidade e 
no correspondem a categorias precisas; sem dvida que  cmodo falar de 
raas brancas, amarelas, negras, de raas de cabea alongada, de cabea 
curta, de cabelos lisos, de cabelos crespos -

exi.stem raas que apresentam uns ou outros destes caracteres -, mas 
pretender sistematizar um conjunto de caracteres  uma quimera ou uma 
brincadeira infantil.

Hovalecque, Dictionnaire des Seiences anthropologiques

Na realidade, o problema que se levanta com o racismo no  o duma alegada 
superioridade do homem branco sobre os homens de outra cor e cultura - a 
Antropologia desmontou essa alegao com aparente facilidade -, mas sim, 
como e em que condies se verificou a racializao do Ocidente que 
desencadeou uma atitude quase generalizada no s entre os pases 
colonizadores, mas tambm, como reaco, entre as naes colonizadas: hoje 
existe um racismo negro e amarelo muito evidente.

Quer em Frana quer em Inglaterra, a palavra raa comeou a mudar de 
significado por volta de 1800. Anteriormente o termo foi utilizado primei  
.ramente no sentido de linhagem; as diferenas entre raas derivavam das 
circunstncias da sua histria e,

46

embora se mantivessem atravs das geraces, no eram fixas. Esta aplicao, 
na Inglaterra, foi reforada pelos modos de fala bblicos, porque embora a 
traduo da Bblia feita pelo rei Jaime no usasse a palavra ra a para se 
referir aos homens, Foxe, em
1570, escrevia sobre a raa e os descendentes de Abrao e, mais tarde, 
Milton ahidi@9  raa de Sat. As razes pelas quais a palavra comecou a 
ter uma utilizao crescente merecem um estudo separado, mas esse facto deve 
estar associado ao alargamento dos contactos humanos tomado possvel pelo 
melhoramento nos meios de transporte e comunicao.

No sculo XIX o termo raa veio a significar uma qualidade fsica 
inerente. Os outros povos passam a ser vistos como biologicamente 
diferentes. Embora a definio continuasse incerta, as pessoas comearam a 
pensar que a humanidade estava dividida em raas. Tinha, portanto, de se 
explicar a razo destas diferenas raciais. Seriam umas raas supen .ores a 
outras? Ou suceder-se-iam as raas na liderana da humanidade? Ou teria cada 
raa uma contribuio peculiar a dar  humanidade? Em qualquer caso, 
tratava-se sempre de descobrir a natureza da raa. (... ) A utilidade 
poltica da classificao racial para o colnialismo dos ltimos quartis do 
sculo XIX  to bvia que leva alguns investigadores a passar por alto a 
profundidade e extenso em que o processo de racializao foi influencado 
pelas inspiraes e erros de intelectuais que tentavam extrair algumas 
concluses da nova e espantosa informao que lhes vinha parar s mos.     
   )

Michael Banton, A Ideia de Raa, Ed. 70

0 incio da racializao como inconsciente ideolgico, parte do Darwinismo: 
tenta-se aplicar a teoria da evoluo das espcies em geral,  evoluo 
(mutao) das raas humanas.

Por darwinismo social entende-se a aplicao  sociedade dos princpios que 
se cr terem sido estabelecidos por Charles Darwin. Para o presente debate 
as suas caractersticas princpais so as que implicam uma modificao ou 
uma imediata inverso das proposies da tipologia racial.

A teoria dos tipos, na sua forma mais pura, estabelece que por debaixo das 
variaes superficiais na constituio humana h um nmero limitado de tipos 
permanentes de diferente origem. A miscigenao no tem qualquer efeito, j 
que os hbridos so no fim de contas estreis. A diversidade das formas 
humanas torna difcil a aceitao desta doutrina, e muitos dos seus 
expoentes admitiram algumas possibilidades de mudana. As suas afirmaes 
implicavam, normalmente, que houve em tempos raas puras e que os 
cruzamentos estavam a chegar  degenerao. Diversas verses da teoria 
apresentavam o antagonismo inter-racial como um facto implantado na natureza 
das racas, ou, pelo menos, na das raas que tiveram xito. (    ..)

Em contraste com o pessimismo de homens como Gobineau, os darwinistas 
pensavam que a operao da seleco natural criaria raas puras a partir da 
diversidade que ento era dominante; e mui  .tos deles mantiveram que, se se 
adoptassem medidas de eugenismo, a mudana biolgica poderia estar do lado 
do progresso humano. L.)

Os conceitos bsicos do darwinismo social L.) so quatro. Primeiro, 
variabilidade.no h dois seres vivos iguais. As espcies modificam-se ao 
longo do tempo, de modo que no existem tipos permanentes. Segundo, 
hereditariedade.- as caractensticas individuais no so adquiridas por 
adaptao, mas sim herdadas dos antepassados. Este princpio era olhado como 
limitando o poder do indivduo para realizar determinados fins e

como enfraquecedor do significado das causas morais nos assuntos humanos. 
Terceiro, fecundidade excessiva.- a demonstrao de que eram gerados 
muitssimos mais organismos que os necessrios para a manuten o e at 
expanso da espcie, destruiu as noes mais antigas da existncia de uma 
economi      .a divina da natureza. Quarto, selecco: a tese de que certos 
indivduos, por causa de variaes acidentais, se veriam favorecidos pelo 
processo selectivo, parecia basear a evoluo na sorte em vez de nos 
desgnios supranaturais, e revelava-se perturbadora para os que pensavam em 
termos antigos. A adequao biolgica no se julgava em termos de mrito, 
mas simplesmente em termos de sucesso em deixar uma prognie mais numerosa. 


M. Banton, ob. cit.

47

0 racismo , portanto, uma atitude de rejeio de um grupo humano por outro, 
a partir de diferenas biolgicas que se associam a diferenas psicolgicas. 
 uma atitude que tem muito a ver com valores e crenas muito profundas: no 
caso do racismo do homem branco contra o homem negro, instala-se a tendncia 
a associar a cor negra com o mal, o vcio, contrapondo-se a cor branca  
claridade,  luz,  razo, ao bem.

Contrariamente, no homem negro, o branco      a ociado  morte ko cheiro do 
homem branco  o da vegetao morta); numa ainda mais sofisticada forma de 
segregao, os

chineses vem o homem branco como excessivamente vermelho e concupiscente.

Portugueses num biombo japons.

A estes apontamentos de exotismo segregacionista vem juntar-se a relao de 
exploraco na sequncia do colonialismo do sculo XIX; o homem branco 
exorciza a sua culpa com as teorias da superioridade racial, levantando 
provas a partir de alegadas diferenas biolgicas e culturais:
1. - Superioridade biolgica: os negros e os judeus (estes por hibridismo) 
apresentam doenas congnitas e hereditrias, alm dum tipo de sangue 
inferior, diminuindo as capacidades psicolgicas e morais;
2. - Superioridade cultural: todas as grandes civilizaes foram produzidas 
pela raa branca. Para corroborar estes argumentos so estudados grupos de 
negros americanos, onde se

verifica a predominncia de certas doenas, muito menos frequentes em grupos 
de homens brancos; baterias de testes  capacidade intelectual de grupos 
negros americanos comprovam o baixo coeficiente intelectual dos testados em 
relao  mdia dos homens brancos.

As velhas civilizaes do Egipto e da Sumria so consideradas como centros 
difusores de todas as culturas antigas e a civilizao grega, de origem 
indo-europeia, torna-se paradigma da cultura branca.

Estas convices vm a determinar uma prtica racista que iria criar 
complexos de superioridade nos brancos e de inferioridade nos negros, que 
provocariam uma atitude de contra-racismo utilizando argumentos semelhantes. 
Ainda hoje o racismo  um elemento da mentalidade geral que, com maior ou 
menor intensidade, acaba por surgir em

situaes de conflito de naes.

48

 Todos pensam que eu sou um canibal Mas bem sabem o que so as lnguas

Todos vem as minhas gengivas rubras Mas quem as tem brancas Vivam os 
tomates

Todos dizem que agora viro Menos turistas Mas bem sabem No estamos na 
Amrica e de qualquer maneira Somos todos tesos

Todos dizem que a culpa  minha e tm medo Mas vejam Os meus dentes so 
brancos no rubros Eu no comi ningum

As pessoas so ms e dizem que eu engulo Os turistas assados

Ou talvez grelhados Assados ou grelhadosperguntei Ficaram calados e olha ram 
com medo para as Minhas gengivas Vivam os tomates

Todos sabem que um pas arvel tem agricultura Vivam os vegetais

Todos garantem que os vegetais No alimentam bem o agricultor E que eu sou 
forte demais para um subdesenvolvido Miservel insecto vivendo dos turistas 
Abaixo os meus dentes

Todos de repente me cercaram Prenderam Prostraram Aos ps da justia

Canibal ou no canibal Fala Ah! Julgas que s muito esperto E pes-te todo 
orgulhoso

Agora vamos ver o que te acontece Qual  a tua ltima palavra Pobre homem 
condenado

Eu gritei vivam os tomates

Os homens eram cruis e as mulheres curiosas sabem Havia uma no crculo que 
espreitava Que com a sua voz raspante como a tampa de uma panela Grita va 
Chiava Abram-no ao meio Estou certa de que o pap ainda est l dentro

Como as facas estavam rombas
0 que  compreensvel entre vegetarianos Como os Ocidentais Pegaram numa 
lmina Gillette E pacientemente Crisss Crasss Floccc Abriram-me a barriga

Encontraram l uma plantao de tomates Irrigada por riachos de vinho de 
palma

Vivam os tomates

Quologuem yambo, Quando os dentes dos negros falam, Mali

0 TEMPO DO MARTI 1RIO

0 Branco matou o meu pai.
0 meu pai era orgulhoso
0 Branco violou minha me A minha me era bela
0 Branco curvou meu irmo sob o sol dos caminhos
0 meu irmo era forte
0 Branco virou para mim As suas mos rubras de sangue

Negro

E com a sua voz de Senhor: Eh, boy, uma cerveja, um guardanapo, gua!

David Diop, Senegal

Entretanto, o desenvolvimento das investigaes da procura de argumentos a 
favor da superioridade branca acaba por destruir o argumento das doencas 
rcicas, pois descobrem-se doenas hereditrias noutros grupos humanos, 
desta vez em grupos brancos, como no caso de descendentes de bretes 
franceses emigrados para os Estados Unidos no sculo XVI 1. 0 estudo de 
doencas hereditrias leva a isolar o elemento contaminador de toda a 
descendncia, o que se consegue fazendo a retrospectiva familiar do grupo, 
at

so

encontrar, no passado, o momento e o indivduo que contraiu a doena: o que 
se considerava uma doenca rcica transforma-se numa doena individual, 
transmitida no seio de uma famlia aos seus descendentes, e salientando-se, 
posteriormente, num grupo muito alargado de elementos familiares. Sempre que 
uma doena se transmite hereditariamente em grupos fechados que no se 
misturam com outros grupos, como os judeus e

os negros, nomeadamente os escravos transportados para as colnias, a doenca 
parece surgir como caracterstica desse grupo. Mas, levantado o elemento 
transmissor podem isolar-se igualmente os seus descendentes, estabelecendo 
mapas genealgicos - e no, evidentemente, rcicos. 0 sistema de linhagens 
africanas permitiu o aparecimento de doenas em extensos grupos de 
parentesco.

0 argumento da superioridade cultural acaba por ser destrudo com o 
desenvolvimento da Histria das civilizaes antigas. Depois de 
levantamentos em frica, na sia e na Amrica, concluiu-se que todos os ---
stocks raciais- tinham produzido civilizaes difusoras de importncia 
semelhante. Se se pode considerar que o Egipto e a Sumria dinamizaram toda 
a rea do Prximo Oriente - e as civilizaes da margem do Mediterrneo como 
a grega, a fencia e a etrusca - outras civilizaes como as do Rio Amarelo 
e Rio Azul, na China, puderam dinamizar a sia, demonstrando a fora 
civilizacional do stock mongolide nesse continente. Na Amrica, as 
civilizaes inca, maia e azteca atingem maturidade tcnica e institucional, 
em muitos pontos mais sofisticada que os modelos apresentados pelo grupo 
caucaside. No continente negro, o papel difusor da cultura  representado 
pela civilizao do Zimbabu. Em todas estas civilizaes se encontram 
grandes constru es, metalurgia, olaria sofisticada e tecelagem, escrita, 
clculo, minuciosa organizao poltica e concepes do mundo que permitem o 
desenvolvimento de

cosmogonias, da arte e da pr-cincia.

Um argumento igualmente importante para desmontar a superioridade cultural 
de qualquer stock racial  a verificao da existncia de culturas 
consideradas tecnicamente inferiores em qualquer dos grupos j referidos. 
Assim, ao lado da imponente civilizao romana e gravitando no mesmo grupo, 
a modesta cultura castreja; no perodo da civilizao inca, os grupos de 
caadores corno os Tupi e Arauaque do Brasil,- no Mali, a grande civilizao 
urbana do bronze e do ferro dos sculos XII e XIV, enquanto os Boximanes 
continuam na Idade da Pedra. Todos os stocks raciais produziram, em 
circunstncias de autonomia relativa, civilizaes que se consideram 
superiores ou inferiores, seja qual for o critrio que se utiliza para as 
escalonar.

As Civilizaes dos stocks raciais a) Caucaside: Egipto; b) Caucaside: 
aldeamento castrejo; c) Mongolide: d) Mongoiide: Incas actuais; e) 
Negride: Mali; f) Negride: Boximanes.

Peru (Incas);

51

A alegada superioridade das culturas no pode atribuir-se s capacidades 
psicolgicas duma raa, tanto porque no podem concretizar-se grupos humanos 
que correspondem ao conceito de raa, como porque os critrios de 
superioridade e inferioridade baseiam-se no desenvolvimento tecnolgico e 
no numa capacidade de resposta a situaes especficas. As culturas 
tecnologicamente simples que foram apresentadas, representam apenas aspectos 
duma cultura que se especializou em sectores diversos: a aldeia germnica  
de levante, simples, correspondendo a povos seminmadas, famosos - tal como 
os homens dos castros - pela sua metalurgia nitidamente superior  grega ou 
romana; o povo tupi, caador e nmada da floresta, especializou-se na 
domesticao de plantas venenosas donde retirava veneno para as suas flechas 
e azagaias,- os Boximanes conseguem descobrir gua no deserto e capt-la 
onde quer que ela exista, nos frutos, no estJ

mago de animais, na maior profundidade.  acompanhando o critrio 
apresentado pelo racismo - civilizaes tcnicas superiores com escrita e 
clculo - que o levantamento de civilizaes ditas superiores e inferiores 
serve para a sua desmontagem.

Apesar de o racismo ter sido condenado aps a segunda guerra mundial, apesar 
da
1         Unesco proclamar a sua condenao, ele permanece, encapotado ou 
declaradamente,

na mentalidade actual. Atitude predominantemente irracional surge em 
situaes emocionais de medo ou insegurana.

Nos Estados Unidos, a Constituio proclama a igualdade dos cidados perante 
a lei, sem distino de cor da pele.

ARTIGO X111 (Aprovado em 1865)

Mo existir nos Estados Unidos ou em territrio sujeito  sua jurisdio 
nenhuma forma de escravatura ou de servido involuntria, salvo tratando-se 
de punio de um crime e tendo sido o autor deste legalmente condenado.

ARTIGO XIV (Aprovado em 1866)

So cidados dos Estados Unidos e do Estado onde residem todas as pessoas 
nasci das ou naturalizadas nos Estados Unidos e sujeitas  sua jurisdio.  
vedado aos Estados fazer ou executar leis que restrinjam as prerrogativas e 
garantias dos cidados dos Estados Unidos, privar alguma pessoa da vida, 
liberdade ou propriedade sem observncia dos trmites legais ou recusar a 
qualquerpessoa de suajurisdio a igualdade perante a lei. 

Consiituio dos @@stados Unidos da Amrica

No entanto,  por todos sabido a segregao que tem imperado e impera neste 
pas, nomeadamente nos Estados do Sul que pertencem  vencida Confederao 
dos Estados Sulistas durante a Guerra da Secesso. Na maior parte das vezes 
e apesar da lei geral mantm-se leis particulares de cada estado, permitindo 
a segregao.

Apelando para o direito  organizao, constituem-se grupos armados e 
justiceiros, que ainda se mantm em vigor, pretendendo defender a pureza 
anglo-saxnica da infiltrao de sangue negro ou mestio.


Uma das mais famosas organizaes racistas dos Estados Unidos  a Ku-Klux-
Klan.

52

Manifestaes raciais nos Estados Unidos

Outros pases mantm, abertamente, atravs de leis e consagrando-o na 
prpria Constituio, o direito  segregao, como a frica do Sul, onde 
aliada  segregao da cor

da pele se junta a segregaao religiosa.

FRICA DO SUL

Nota governamental de 1958.-

Um polcia est autorizado a passar busca  residncia de qualquer jovem 
africano menor de 18 anos, sem necessitar de um mandado para tal e a 
qualquer hora razovel do dia ou da noite, caso tenha motivos para suspeitar 
que este esteja a cometer o delito criminal de residir com o seu pai sem a 
necessria licena.

Todos os africanos com idade superior a 16 anos devem possuir um livro de 
referncias. Qualquer polcia pode, quando bem entender, exigir de um 
africano a apresentao do mesmo. Caso este no o puder exibir por o ter 
esquecido em casa, ser culpado de delito criminal e punido com uma multa 
mnima de 20 rands (um rand equivale a 53 escudos e meio) ou priso durante 
um ms.

Para um africano que seja advogado e exera a sua profisso, emite-se um 
livro de referncias de cor diferente, mas igualmente poder ser intimado a 
qualquer momento a apresent-lo e ser culpado de um delito criminal caso 
deixe de faz-lo.

Um inspector de trabalho pode, em qualquer momento, cancelar o emprego de um 
africano durante o qual estivera empregado, mesmo que o seu patro se oponha 
a tal medida. Um africano cujo emprego foi assim cancelado pode ainda ser 
afastado da cidade onde trabalha e proibido de regressar  mesma por um 
perodo prescrito por este inspector do trabalho.

Lei Baniu: Artigos

Segregao racial na frica do Sul

53

GUILHERME ISMAEL, EM LONDRES

Quando centenas de jovens negros e alguns brancos transformaram, no incio 
desta semana, as ruas de Handsworth, nos subrbios de Birmingham, num 
autntico campo de destruio, a opinio pblica britnica voltou a acordar 
com espanto para um dos seus mais graves problemas sociais. E, no entanto, a 
histria  antiga.

J no chamado Vero Quente de 1981, precisamente em Handsworth, as mesmas 
multides de jovens ocuparam as ruas lanando-
-   numa onda de violncia que, dessa vez, iria alastrar para outras zonas 
tais como Liverpool e Brixton (no sul de Londres), onde vivem as maiores 
comunidades negras e tambm onde os problemas so maiores, sendo o 
desemprego a situao normal de qualquer jovem acabado de terminar o seu 
curso secundrio.

Apesar de exemplos anteriores, para o pblico em geral, estas sbitas e 
incontroladas erupes de violncia surgem como que cadas do cu e as 
razes parecem, por vezes, algo obscuras. Aquando dos incidentes do Vero 
Quente de 1981, o governo ordenou um inqurito sobre o assunto - as

i.nvestigaes acabaram por revelar que a violncia era, apenas, 
consequncia do modo como viviam as minorias tnicas na Gr-Bretanha e, em 
especial, as comunidades negras. Pssimas condies de habitao, 
desemprego, discriminao racial na tentativa de encontrar uma carreira 
profissional, com o consequente isolamento provocado por essas condies. 
Tudo isto vinha cri  .ar uma sensao de frustraojunto dos j.ovens que, no 
incio da vida, se viam desocupados nas ruas, tendo apenas como soluo de 
recurso, muitas vezes, a venda e o consumo de drogas.

Incidentes peculiares

Os actuais incidentes de Handsworth so, de qualquer modo, peculiares. A 
comunidade tinha festiado, no fim-de-semana, o seu carnaval anual. No se 
registaram 1.nci.-

dentes apesar da participa co de milhares de pessoas. Segundo as 
autoridades policiais, a situao pareci      .a calma e no se detectavam 
tenses entre a comunidade e a polcia que tinha recebido instrues para 
participar e cooperar nos festejos de carnaval. No entanto, segundo 
habitantes da zona, tratava-se apenas de uma paz fictcia, apenas um adiar 
dos conflitos.

Na realidade, a pedido da prpria populao da zona, as autoridades tinham 
vindo a aumentar o policiamento devido aos problemas levantados pela venda e 
consumo de drogas duras. S que, segundo elementos da comunidade negra, o 
modo como esse policiamento era feito e a atitude da polcia deixavam muito 
a desejar, aumentando as tenses. Da que tenha bastado apenas um pequeno 
incidente para que se despoletasse toda uma onda de violncia que acabou por 
se tomar incontrolvel.


Segundo se conseguiu apurar, tudo comeou numa zona conhecida por Lozelles 
Road, quando a polcia deteve um asitico, devido a um problema de trnsito. 
0 modo como o polcia se dirigiu ao indivduo em questo fez que diversos 
]ovens negros, que se encontravam na rue, interviessem a seu favor. 0 clima, 
a partir da, ficou tenso e, duas horas depois, grupos de jovens 
7cendivam, uma grande sala de bingo. Quando a polcia e os bombeiros 
tentaram interferir, foi-lhes dito pelos jovens que deixassem arder o 
edifcio. Iniciaram-se ento os confrontos que alastraram pelas ruas, com 
multides de jovens saqueando e incendiando lojas e fazendo barricadas com 
automveis.

Na manh seguinte e acal-

mados temporariamente os nimos, o aspecto das ruas era o de uma cidade 
bombardeada, uma cidade onde, de sbito, tivesse passado uma onda de 
devastao. No rscaldo, assinalavam-se dois mortos e o facto de ter sido a 
comunidade indiana a que mais sofreu com os incidentes, uma vez que  
proprietria da maior parte das lojas da zona. Contudo, como se tornou 
claro, no se tratou de um confronto tnico, uma vez que no se registaram 
ataques diferenciados.

Racismo  realdade

De um modo geral, os britnicos so sensveis a este tipo de problemas. 
Basta recordar que, por exemplo, na zona da Grande Londres, cerca de 50 por 
cento da populao  constituda por mi non.as tnicas, seja de ne-

gros ou asiticos. Algumas autoridades locais de Londres ou Liverpool do 
uma atenco especial a essas questes, criando organismos especficos 
destinados a acompanhar e a ajudar as minorias a resolverem os seus 
problemas e a enfrentarem o racismo latente que qualquer comunidade enfrenta 
no dia-a-dia.

Assim, os britnicos esto mais ou menos conscientes das dificuldades que 
enfrenta um jovem negro, ou asitico, quando pretende procurar uma colocao 
profissional. Em Handsworth, nos arredores de Birmingham, apenas um em cada 
trs negros est empregado, Por outro lado, a zona onde se passaram os 
distrbios  considerada como em condio precria, apesar de, aps os 
incidentes do Vero de 1981, as autoridades terem resolvido dirigir-lhe uma 
maior ateno. Por outro lado, o raci .smo  uma

54

realidade - e no  por acaso que ainda no ano passado o Conselho da Grande 
Londres (GLC) desencadeava uma enorme campanha contra o racismo na capital.

Quando acontecem incidentes como os de Birmingham, h como que um relembrar 
de situaes anteriores. Os polticos despertam para os problemas das 
minorias tnicas e comeam a surgi      .r novos projectos de aco. No 
entanto, desta feita, tudo Indica que o governo no se encontra muito virado 
para ter em considerao a raiz dos problemas. Se em 1981 foi ordenado um 
inqurito rigoroso com vista a perceber a origem da violncia e as suas 
repercusses sociais, agora que o governo da sr. Thatcher no parece 
disposto a seguir o mesmo caminho, considerando os Incidentes apenas como 
obra de criminosos que tm de ser detidos. Para o primeiro-ministro e para o 
seu novo ministro do

Interior, DougIas Hurd, no  o desemprego ou a precria situao social que 
esto na origem das perturbaes em Birmingham.

Esvaziar de signficado social

Contudo, o que parece claro desta atitude do governo,  a sua tentativa de 
esvaziar de qualquer significado social os acontecimentos de Birmingham, de 
modo a retirar  oposio qualquer possibilidade de obter da situao 
dividendos polticos com repercusses eleitorais. E isto, uma vez que a sr. 
 Thatcher tem estado ultimamente sob fogo cerrado da oposio e dos 
sindicatos que cri.ti.cam a sua i.ncapacidade em resolver o problema do 
desemprego que atinge graves dimenses.

A realizao ou no de um Inqurito ser, ainda, tema de um debate aceso, 
uma vez que, durante o congresso dos

sociais-democratas, realizado esta semana, a questo de Birmingham foi tema 
de discusso, com os delegados exigindo esse inqurito e ana-

lisando precisamente a situao das minorias tnicas. Uma atitude tambm 
tomada pelo Partido Trabalhista que, no entanto, surge agora com uma posio 
muito mais cautelosa que a dos sociais~democratas.

Assim, no rescaldo de Birmingham, apenas resta a estratgia poltica de cada 
um

dos partidos, enquanto que as comunidades tnicas continuaro a viver com os 
seus problemas, com ou sem a ajuda de algumas das autoridades locais que, 
essas sim, tm de enfrentar o dia-a-dia dos seus habitantes. E isto num 
ambiente que continua a

ser de uma tenso sempre latente, agravada pela situao de desemprego, com 
tudo o que lhe  decorrente.

0 Jornal, 13.9.85

Conflito racial no Reino Unido

Manifestao anti-racista em Paris

55

A bem dizer no h discriminao racial no Brasil como havia nos Estados 
Unidos. Nunca se trata um homem ou uma mulher de cor por negro sujo. E, no 
entanto, quase todos os negros so pobres e uma boa parte dos pobres so 
negros ou mestios. Quanto mais miser veis so as fa velas mais escura  a 
pele. Felizmen te, no po vinho, o dio racial  estritamente desconhecido.

Pierre Blanchei, in Le Nouvel Observateur, 11/17 Jun. 85

0 homem e os homens

Sou um homem que sonha que  uma borb(,,-,ta, ou uma borboleta que sonha 
que  um homem?

Para se situar no mundo, o homem necessita de se inserir em padres de 
comportamento mais ou menos rgidos que lhe so inculcados como modelos de 
verdade. Encontra-se num universo onde as relaes entre os vrios grupos e 
entre estes e a natureza se explicam por normas, leis, interditos, hbitos, 
crenas, valores. Parece que este mecanismo quase chauvinista(e) se teria 
tornado indispensvel para o funcionamento do indivduo na sociedade, 
surgindo ern todas as sociedades conhecidas.  inevitvel que esta atitude 
de confian a para com o conhecido - e de repdio para com o desconhecido, o 
outro, - se caracterize como um olhar de     desconfiana para com o 
exterior, levando  rejeio do desvio, em relao s crencas    e s 
regras, para evitar a confuso e a des-

crena nos prprios valores e limites -  o  etnocentrismo.

Esta atitude, que  fundamentalmente       psicolgica, releva da prpria 
aprendizagem social e pode levar a uma outra de rejeio de aspectos 
culturais inditos e estranhos, ou mesmo ao repdio puro e simples de toda 
uma cultura alheia.

A atitude mais antiga e que repousa, sem dvida, sobre fundamentos 
psicolgicos slidos, pois que tende a reaparecer em cada um de ns quando 
somos colocados numa

situao inesperada, consiste em repudiar pura e simplesmente as formas 
culturais, morais, religiosas, sociais e estticas mais afastadas daquelas 
com que nos identificamos. Costumes de selvagens, sso no  nosso, (mo 
deveramos permitir isso, etc., um sem nmero de reaces grossei      .ras 
que traduzem este mesmo calafrio, esta mesma repulsa, em presena de 
maneiras de viver, de crer ou de pensar que nos so estranhas. De,9te modo a 
Antiguidade confundia tudo o que no participava da cultura grega (depois 
greco-romana) sob o nome de brbaro; em seguida, a civilizao ocidental 
utilizou o termo selvagerro) no mesmo sentido. Ora por detrs destes 
eptetos dissimula-se um mesmo juzo:  provvel que a palavra brbaro se 
refira etimologicamente  con-

fuso e  desarticulao do canto das aves, opostas ao valor significante da 
linguagem humana  - e selvagem, que significa da floresta, evoca tambm 
um gnero de vida animal, por oposio  cultura humana. Recusa-se, tanto 
num como noutro caso, a admitir a prpria diversidade cultural, preferindo-
se repetir da cultura tudo o que esteja conforme  norma sob a qual se vive.


Este ponto de vista ingnuo, mas profundamente enraizado na maioria dos 
homens, no necessita ser discutido uma vez que esta brochura  precisamente 
a sua refutao. Bastar observar aqui que ele encobre um paradoxo bastante 
significativo. Esta atitude do pensamento, em nome do qual se rejeitam os 
selvagens (ou todos aqueles que escolhemos considerar como tais) para fora 
da humanidade, justamente a atitude mais marcante e a mais distintiva 
destes mesmos selvagens. Sabemos, na verdade, que a

noo de humanidade, englobando, sem distino de raa ou civ1izac'@o, 
todas as formas da espcie humana, teve um aparecimento mui        1to 
tardio e uma expanso limitada.

Mesmo onde ela parece ter atingido o seu mais alto grau de desenvolvimento, 
no existe qualquer certeza - tal com a histria recente o prova - de se ter 
estabelecido ao abrigo de equvocos ou de regresses. Mas, para vastas 
fraces da espcie humana e

durante dezenas de milnios, esta noo parece estar totalmente ausente. A 
humanidade acaba nas fronteiras da tribo, do grupo lingustico, por vezes 
mesmo, da aldeia,- a tal

56

ponto que um grande nmero de populaes ditas primitivas se designam por um 
nome

que significa ws homens (ou por vezes - digamos com mais discrio - os 
bons, os excelentes, os perfeitos), implicando assim que outras 
tribos, grupos ou aldeias no participem das virtudes - ou mesmo da natureza 
- humanas, mas so, quando muito, compostos por maus,  perversos, 
macacos da terra, ou ovos de piolho. Chegando-se mesmo, a maior parte 
das vezes, a privar o estrangeiro deste ltimo grau de realidade fazendo 
dele um fantasma ou uma apario.

Assim acontecem curiosas situaes onde os interlocutores se do cruelmente 
rplica. Nas Grandes Antilhas, alguns anos aps a descoberta da Amrica, 
enquanto os espanhis enviavam comisses de investigao para indagar se os 
indgenas possuam ou no alma, estes ltimos dedica vam-se a afogar os 
brancos feitos prisioneiros para verificaram atravs de uma vigilncia 
prolongada se o cadver daqueles estava, ou no, sujeito  putrefaco.

Claude Lvi-Strauss, Raa e Histria

A atitude etnocntrica  uma constante da humanidade que s a habituao aos 
outros pode atenuar. 0 etnocentrismo pode levar ao racismo quando  tnica 
cultural, de rejeio da cultura, se acrescenta a rejeio da cor da pele. A 
evoluo das comunicaces e a cultura de massas, permitem um contacto com o 
mundo e com outras culturas que ajudam a despoletar os elementos 
etnocntricos da mentalidade. Os contactos culturais, a dinamizao das 
culturas e a planetizao da vida parecem encaminhar o

homem de qualquer cultura a ser apenas um homem entre homens e no o centro 
do mundo. So esses homens que a prpria Antropologia ainda estuda com 
critrios sados da cultura ocidental.

0 etnocentrismo alimenta-se da estranheza face a padres culturais 
diferentes: a ave depena-se viva, pois apodrece rapidamente.

2.2.3. NATUREZA E CULTURA. NATUREZA -AMBIENTE E CULTURA,

DESAFIO E RESPOSTA

A enorme variedade de respostas culturais, a multiplicidade de padres de 
cultura, explicam-se pela variedade do meio ambiente, dos problemas diversos 
que esse meio ambiente coloca ao homem - o que se relaciona com o imaginrio 
que a comunidade adquiriu - e, assim, fundamentalmente, com os condicional 
ismos histricos dessa comunidade.

57

Um solo pobre pode permitir o desenvolvimento de tcnicas adequadas ao seu 
aproveitamento - caso de solos argilosos, junto de rios de cheias que 
levantam o problema da captao e disciplina da gua das cheias - dos 
paradigmticos exemplos histricos das civilizaes dos grandes rios, que 
desenvolverarri tcnicas hidrulicas e de agrimensura concomitantes com os 
problemas que eram levantados pela riqueza dos aluvies arrastados em guas 
turbulentas e desastrosas para as colheitas desde que no fossem 
disciplinadas pelos diques e canais.

Em outros casos, solos pobres, arenosos ou pedregosos, em reas com falta de 
gua, permitiram uma explorao dum solo de superfcie - situao vulgar no 
continente africano das zonas tropicais - de produo limitada e carenciada 
mas o nico processo adequado a esse tipo de solo. De acordo com os 
problemas levantados pelo meio ambiente dentro duma perspectiva da sua 
explorao pelo homem, surge o tipo de cultura. A criao de gado foi 
favorecida pela situao especfica da existncia de gargantas montanhosas 
onde com maior facilidade a caa podia ser encurralada, sujeita a uma 
passagem estreita; nas zonas geogrficas onde a maioria dos herbvoros tm 
um sistema de fuga caracterizado pela disperso, como a grande maioria dos 
ant lopes, a criao de gado deste tipo de animais no pde surgir.  o 
desafio da natureza que permite a resposta cultural do homem, mas a tcnica 
 sempre adequada ao tipo de problema levan~ tado  resoluo tcnica.

Por vezes, as solues encontradas so semelhantes porque a prpria 
observao da natureza permite ao homem tirar concluses idnticas; noutras 
casos, o mesmo problema encontra solues diversas.

Solues idnticas, povos diferentes

Em todo o lado o homem encontra solues tcnicas para o domnio da natureza 
ambiente. A Antropologia pde definir leis - tendncias da cultura - 
manifestadas pelo crescimento da tcnica. A tendncia mais evidente  a da 
crescente dependncia da cultura, manifestada por todas as sociedades 
humanas desde a hominizao- o homem passou a substituir a sua dependncia 
biolgica pela dependncia cultural, criando necessidades culturais que 
chegam a tornar-se predominantes.

Uma segunda tendncia  a natureza cumulativa da cultura, pois o homem 
mantm tcnicas de explorao da natureza, mesmo aps ter ultrapassado esse 
estdio tcnico (as tcnicas de caa do Paleoltico e a explorao da caa 
mantm-se a par com a agricultura; estas continuam na Idade dos Metais at 
hoje); esta tendncia tem como conse-

quncia uma crescente acelerao da explorao do planeta e do consumo dos 
recursos naturais, implicando a destruio do nicho ecolgico especifico do 
homem e a sua even-

tual estrutura biolgica.

Desde o Neoltico, com a crescente complexidade das operaes tcnicas e 
diviso de trabalho, surge uma outra tendncia, a da percentagem decrescente 
do conhecimento industrial, impondo uma organizao e cooperao humana no 
trabalho e uma diminuio do conhecimento global de cada indivduo (um s 
homem conhece a tcnica de produzir um barco ou uma canoa e pode produzi-lo 
por si mesmo - para produzir um navio  necessrio o concurso de milhares de 
tcnicos, de saberes e de homens). Uma ltima lei

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indicia a caracterstica mais especfica da cultura do homem, a lei da 
conservao do tempo e da energia muscular humana- toda a cultura tende a 
poupar o esforo e o tempo individual e social.

Estas quairo @e'@s do conhemen@o cU@ura@ co@ocam o proUerna do des@'mo do 
`nomem como espcie. Na realidade, o animal vertical que  o homem produziu-
se a si mesmo atravs da prtica da mo e da linguagem. Ser homem  produzir 
instrumentos e simbolos,- as tendncias indicadas pem em risco a prpria 
essncia do homem, Inserido num

universo cultural e num mundo artificial, o homem afasta-se cada vez mais da 
natureza, destruindo o seu nicho ecolgico e, se este evoluir, condicionar 
a sua prpria evoluo: a humanidade torna-se cada vez mais um ser 
colectivo, incapaz de sobreviver sem uma multido de outras clulas sociais, 
perdendo pouco a pouco a sua capacidade de sobrevivncia individual. 
Finalmente, a linha evolutiva da sua mo exterior (o instrumento) con-

firma a economia do esforo humano, de que  exemplo paradigmtico a 
maquinofactura a partir da Revolu o Industrial, alterando o cicio vital do 
homem com as invenes dos transportes, da luz artificial e das 
comunicaes. 0 homem tende a deixar de utilizar, no apenas a sua mo 
natural e arcaica, fonte de toda a sua cultura, permitindo que cresa  sua 
volta todo um universo mecnico que ele j no controla, como est a ponto 
de limitar o uso da linguagem com o progresso nas comunicaes, pois o 
discurso  ultrapassado pela imagem. 0 homem deixa de ser o produtor tcnico 
desde o

momento que entra na tecnologia.

0 homem tcnico e o homem industrial

A etapa actual da civilizao - progressivamente planetria -, a era dos 
computadores e das comunicaes, surge como o final de linha duma espcie 
que especializou a

mo e a linguagem; a espcie humana deixa de necessitar dos dois elementos 
fundamentais que lhe deram a sua especificidade; os circuitos integrados 
produzem-se a si mes-

mos, elaborando todas as sries materiais e simblicas que s o homem 
produzia. No seu universo tecnolgico, sem necessitar de produzir 
directamente e limitando a sua lin- guagem a um cdigo cifrado, o homem 
poder perder os seus membros e tornar-se um verme jacente, emitindo sinais 
da mente para transistores especializados.

2.3. A estruturao da cultura

2.3.1. UNIDADES ELEMENTARES DA CULTURA.

TRAOS E COMPLEXOS CULTURAIS

A Antropologia cultural, como qualquer cincia, cria os seus prprios 
conceitos destinados  descrio e compreenso do seu objecto, ou seja, das 
culturas.

Partindo da definio de certas estruturas mais vastas, como rea cultural e 
complexo cultural, organiza todo um edifcio conceptual - um modelo 
descritivo - que pretende corresponder ao objecto em estudo.


59

0 conceito bsico  o conceito de trao cultural, a mnima poro de cultura 
(material ou imaterial) descrita como indivisvel. 0 trao cultural  a 
pedra-base do edifcio consIru do pela Antropologia Cultural. So traos 
culturais, objectos unitrios como um utenslio, uma arma, um objecto de 
adorno ou, ainda, um rito religioso ou mgico, uma lei, uma norma, uma 
cano.

Traos culturais significativos de padres culturais

Porm, cacia irao cultural, se bem que objecto indiviso e unitrio, permite 
registar elementos de composicao, de forma, de fabrico. Nos tracos 
apresentados destacam-se elementos como o toucado da estatueta, a posio 
das mos, o tipo de entranado da cesta de verga, os desenhos geomtricos do 
vaso. Uma anlise detalhada permite assinalar um

sem nmero de pormenores des      te tipo - itens culturais - que facilitam 
a leitura duma descrio e a identificao do objecto.

Habitualmente, os traos culturais integram-se numa cadeia produtiva 
significante, quer dizer, organizam-se em sries de objectos que respondem a 
uma funo; complexo cultural  a expresso que se utiliza para identificar 
o agrupamento de objectos unidos pela mesma funo.

Identificado o complexo onde se insere o trao, o objecto ganha significado.

Complexos culturais: a-armas de pedra; lo-cinzis; c-vasos rituais

60

A noo de complexo cultural est ligada  ideia de rea cultural, zona onde 
se verifica a existncia de um dado complexo cultural, cumprindo determinada 
funo e implicando certa actividade. A actividade cultural caracteriza-se 
pela tcnica de produo.

A cultura, o espao e o tempo

0 tempo cultural no corresponde ao tempo cronolgico, do mesmo modo que o 
espao cultural no cobre, necessariamente, o espao geogrfico.

0 espao e o tempo culturais medem-se pelas significaes socioculturais, 
pela prtica cultural que revelam. A unidade do tempo cultural pode 
corresponder a sculos, mesmo a milhares de anos, no caso do Paleoltico,- 
mantm-se um tempo cultural enquanto se verificam complexos culturais 
determinantes na cultura. 0 espa o cultural mede-se em funo de outro 
espao cultural que surge como ponto de referncia.

E o homem que domestica o tempo e o espao, a sua medida tem de ser feita a 
partir dos smbolos que o representam em cada cultura. Por isso, podemos 
ainda hoje falar de povos que se encontram na Idade da Pedra e encontrar 
espaos culturais descontnuos dentro de um s pas, conforme certas regies 
esto de acordo com uma cultura ou outra, o que  muito significativo na 
distino entre cultura urbana e rural - espao urbano e rural.

Para determinar o espao cultural, ou seja, caracterizar a cultura, parte-se 
do conceito de configurao cultural.

RELAO HOMEM/MEIO Configurao sociocultural

A configurao cultural duma sociedade parte do tringulo biocultural, 
modelo de interpretao onde todos os lados dum tringulo equiltero tm 
peso idntico e sofrem interligaes- no se admite um lado do tringulo a 
no ser para organizao do estudo, pois na realidade h interpenetraes 
constantes. 0 processo de interligao varia de sociedade para sociedade, 
permitindo a multiplicidade de culturas.

Um dos lados do tringulo corresponde  relao Homem lAmbiente, referindo o 
tipo de respostas culturais e sociais que o homem concebeu,para responder ao 
desafio do meio ambiente implicando as instituies tcnicas e econmicas 
produzidas pelo grupo social. 0 lado indicado como HomemlHomem refere as 
relaes sociais e polticas, ou seja, a estratificao social e, 
eventualmente, a organizao poltica. A relao Homem/Homem obriga a todo o 
tipo de estudo dos grupos sociais, familiares, etrios, estratificao 
social, etnias, etc.

Finalmente, o terceiro lado responde  relao Homem lSobrenatural, 
obrigando ao levantamento de todo o imaginrio do grupo, ritos, mitos, 
religio, crencas, teoria, etc 

Terminada a estrutura do tringulo, tem-se a configurao da comunidade em 
estudo, tal como ela se organiza nos seus principais aspectos, permitindo a 
definio dos padres culturais especficos de cada comunidade. Padro 
cultural  pois a configurao cultural que assenta nas relaes 
estreitamente codificadas que o homem mantm com o meio fsico, a sociedade 
e o sobrenatural, o que inclui o estudo das produes tcnicas e simblicas, 
transmitidas pelos mecanismos da aprendizagem.

61

 (... ) a integrao espacial do homern que descansa na sua cabana pouco 
difere da do texugo na sua toca, ou que o reconhecmento social se situa 
prximo dos cdigos que permitem aos pssaros estabelecer as suas relaes 
coni base em sinais existentes na plumagem. Mas j se ultrapassou a 
fronteira entre o espao vivido pelo texugo e o

espao simbolicamente construdo pelo homem, entre o adorno do tetraz e o 
uniforme simblico do oficial superior, entre o canto do rouxinol e a 
melodia sentimental. No caso do homem, trata-se de comportamentos vividos 
atravs de filtros de imagens e, se  necessrio ter conscincia de que elas 
nascem a nveis profundos, toma-se intil e paradoxal pretender mant-las 
nesse nvel por excesso de preocupao lgica. (... ) 0 facto humano por 
excelncia no  tanto a criao do utenslio mas talvez a domesticao do 
tempo e do espao, ou seja, a criao de um tempo e de um espao humanos.

/A. Leroi - Gourhan, ob. cit., 2

A criao espciO-temporal  tambm a criaco da cultura: ela acompanha sem 
inter-

ao,, e so com rupes as etapas da hominizac               o homo sapiens 
que o homem cria um

espao e um tempo controlveis atravs de ritmos baseados nos prprios 
ritmos da natureza - o dia e as esta es do ano -, que acabar por 
expressar em calendrios, horrios e medidas.

Esta domesticao do tempo e do espao resultar, por sua vez, no controle e 
domesticao do prprio homem.

Sendo sociais, regulando cada comunidade, o espao e o tempo humanizados no 
coincidem em todas as culturas,- h tempos que podem ser considerados mais 
ou menos atrasados de acordo com critrios seleccionados.

reas culturais, crculos e cicios culturais. Centros de cultura e culturas 
marginais

As culturas distribuem-se no espao: a primeira preocupao duma comunidade 
 definir um territrio, separando-se de outras culturas e comunidades,- o 
etnocentrismo surge nos povos primitivos em funo da necessidade de 
identidade num dado territrio e cultura. Com o alargamento do territrio ou 
a assimilao de outras comunidades, a cultura acompanha a expanso dos 
homens. Este processo habitual de expanso cultural processa-se em crculos 
a partir dum ponto fixo, aquilo a que metodolog ica mente se chama crculos 
culturais. 0 centro produtor da cultura, a sede original  o centro 
cultural, o espao onde os elementos culturais se encontram mais puros e 
mais arcaicos, j que  o contacto com outras culturas e outras invenes 
que permite a evoluo cultural; quanto mais se afasta do centro mais evolui 
a cultura, enriquecida com novos elementos e novas situaes face a novos 
meios ambientes. 0 centro cultural, tendo encontrado uma soluo de vida, 
tende a tornar-se conservador- o afastamento progressivo do centro quebra 
esta atitude de conformismo a hbitos e regras culturais.

Centro e crculos culturais

62

A rea onde predomina unia forma de vida idntica chama-se rea cultural,- a 
rea cultural coincide com determinada regio natural, pois  a que as 
mesmas respostas culturais coincidem com os problemas apresentados pelo 
meio. A rea cultural pode apresentar gradaes do mesmo tipo de cultura e 
incluir ciclos culturais, onde apenas se mantm padres culturais bsicos ou 
um estilo de vida coincidente com os grandes complexos culturais. Apesar da 
manuteno dos padres culturais mais significativos, surgem igualmente 
culturas marginais que anunciam a ruptura dos principais padres ou mesmo 
das estruturas culturais.

Culturas marginais so culturas que sobrevivem  margem da cultura oficial 
reproduzida pelos mecanismos de aprendizagem oficiais,- so culturas de 
margem que reagem  cultura institucional, resultando habitualmente de 
extractos tnicos diversificados, ou de margens excessivamente afastadas do 
centro produtor, sobrevivendo em meios naturais diversos. Descentralizadas, 
as culturas marginais exploram as contradies e conserva-

dores da cultura oficial, organizando-se em volta de um novo modelo de 
cultura. Actualmente podem considerar-se culturas marginais - e 
marginalizadas - as culturas populares.

arginal, Ciganos: antiga cultura m,

sobrevivendo em todo o mundo

Culturas nacionais

A minha ptria  a lngua portuguesa, FERNANDO PESSOA

Na realidade no existem verdadeiras culturas nacionais dado que em cada 
sociedade subsistem culturas marginais, subculturas e coniraculturas 
(culturas marginais que pretendem substituir a cultura oficial). Dum modo 
geral, hoje ern dia, nenhum pais se identifica com uma nica nao, uma 
nica cultura, ou mesmo uma etnia, incluindo vrias comunidades com heranas 
culturais prprias. 0 elo de ligao entre as naes, fundamento 
determinante na coeso das naes e dos pases,  a lngua. 0 idioma carreia 
gestos culturais - corporais e vocais -, subtilezas de entoao e simbolismo 
que criam uma certa identidade de comportamentos a nvel nacional; porm,  
bem conhecido que uma mesma lngua  utilizada diferentemente no campo e na 
cidade ou nos vrios grupos sociais e, ainda, nas diferentes reas que 
compem um pas.

 quase uma conveno falar-se em cultura nacional - mesmo medindo-se a 
personalidade-base dos jovens -,- h sim, um certo sentido da cultura, a 
maior parte das vezes de criao artificial a partir da educao oficial e 
das determinaes polticas consubstanciadas nos projectos nacionais. 
Padres culturais comuns do certo ar de identidade  cultura, quando 
comparada com outras.

63

A raa portuguesa, por mais decada que a consideremos pelo abastardamento 
dos elementos que a formaram,  ainda hoje considera velmen te menos 
absorvvel do que absorvente. Que essa raa realmente existe  para mim uma 
verdade que debalde tm por vezes contestado alguns dos nossos prprios e 
pessimistas etngrafos.

No  pela deduo secamente cientfica dos atavismos e das hereditariedades 
dos grandes agrupamentos humanos, nem to-pouco pelos seus caracteres 
anatmicos, seno pelos elementos psicolgicos da sua mentalidade, que hoje 
historicamente se diferenciam, se dividem e subdividem as raas. Neste ponto 
de vista, que  aquele em que me coloco, o Portugus consti     .tui.um tipo 
i.ntei.ramente especial no grupo indo-europeu.

Ele  sentimentalista, idealista, gal, dado a aventuras e a viagens como o 
Preste Joo, como Femo Mendes, como o Infante Dom Pedro, como Cames.  
sbrio e  rijo. Tem o dom socivel e fecundo de amar e de se fazer amado, e 
 singular a sua facilidade de adaptao a todos os meios biolgicos e 
sociais, bem como a sua enorme fora de resistncia  fadiga,  fome, a 
todas as privaes da vida e a todas as hostilidades da Natureza. De resto, 
propenso  rebeldia, leviano, gastador, volvel e inconstante. Durante o 
sculo X VII, depois de clebre pelos seus grandes feitos de guerra, de na 
vegaco e de conquista, era proverbial em Espanha a sua ---melosidad y 
derretimiento- em

amores. Quevedo dizia que de portugueses no ficariam torresmos no fogo do 
inferno, porque, havendo l mulheres, os Portugueses derreteriam 
completamente, no deixando como vestgios mais do que uma ndoa no cho.

Na nossa Histria Trgico-Martima, livro composto, sob um ttulo de 
conveno retrica, pelas autnticas narrativas martimas dos nossos 
soldados e marinheiros da India -

livro sem rival em nenhuma outra literatura do mundo -, conta-se que os 
nufragos de um dos nossos galees se encontraram na costa de Moambique com 
uma hoste guerreira de negros -selvagens, da qual se reconheceu que fazia 
parte um soldado portugus, que alguns anos antes, por ocasio de outro 
naufrgio, ali dera  costa e ficara cativo. Em pouco tempo ele aprendeu a 
lngua da tribo, impusera-se  obedincia dos nmadas que o haviam capturado 
e fizera-se inteiramente to negro como eles. Eis um caracterstico espcime 
da raa.

0 mesmo poder de adaptabilidade, que no serto de frica o fizera um preto, 
teria igualmente feito dele em Londres um genflemam) e em Paris um dandy.

Um dos seis ou oito primitivos fundadores do Jockey Club em Paris era 
portugus. Um dos mais excntricos dos pansienses registados na conhecida 
galeria de Champofleury era portugus. 0 elegante cavalheiro e o dono dos 
mais belos cavalos que ainda no fim do sculo passado escarvavam o solo de 
Longchamps, no Bois de Boulogne, era portugus. 0 mais elegante palacete dos 
Campos Elsios, notvelpelo seu tipo arquitectnico, no estilo do Segundo 
Imprio, famoso pela sua escadaria de nix, no qual ao presente se acha 
instalado um dos mais selectos cercles de Paris, o Vauclers Club, foi 
construido pela viva de um janota portuense, hoje condessa de Donesmark, 
por afinidade prima milionria de Bismarck.


Raras so as interrupes em que Portugal tem deixado de ter um 
representante seu no Jockey Club, e bem assim no Instituto de Frana. Um 
desses clubmen portugus pagou de uma vez, segundo consta das Memrias 
de Henri Villemessant, fundador do Fgaro, cem mil francos pela nota de 
uma ceia que ofereceu aos seus conscios e que ele terminou atirando  rua 
com toda a baixela da mesa.

A par destes atestados de puro chique, os Portugueses devem  congnita 
rusticidade da sua robusta constituio e do seu aguerrido temperamento o 
privilgio de terem sido os melhores soldados de Napoleo na campanha da 
Rssia e de serem ainda hoje os mais invencveis soldados de frica.

Nas escolas estrangeiras so em geral distintamente notados os estudantes 
portugueses. H dois anos dzia-me em Lausana o director da Escola Normal 
que eram conhecidos pela sua aplicao e pelo seu talento todos os opern.os 
pensi.oni.stas do Estado que ali estavam em curso de aperfeioamento. Tinham 
rapidamente aprendido a falar alemo

e francs.

64

Tem-se a impresso que os Portugueses precisam de emigrar para desenvolverem 
todos os recursos da sua nativa e latente capacidade. Porqu? Porque na sua 
terra a casta dos polticos, a mais vil de todas as castas, como diz Paul 
Adam, predomi       .na; absorve as energias nacionais na msera ambio e 
na reles intriga de partidos,- revoluciona; revolve at os seus mais 
profundos alicerces o equilbrio social- perturba e enxovalha a serenidade 
da aplicao e do trabalho; em nome de uma quimrica igualdade com que 
incendeia a brutalidade das multides, decapita e destri a influncia 
ponderadora das eltes, e deturpa, avilta, emporcalha tudo, afogando num 
cataclismo de lama a digndade de um pas inteiro. Mas no  da ptrida 
infeco da poltica,  da s resistncia da raa que eu hoje me ocupo.

Ramalho Ortigo, A Raa, in As Farpas

Porm, uma anlise elaborada como esta de Ramalho Ortigo, a partir de 
observao emprica e no-cientfica, arrisca resultar num simples relatrio 
de lugares-comuns, fortemente impregnados da ideologia decorrente. Este 
texto de Ramalho Ortigo  invulgarmente ideolgico: o conceito de    raa 
que  veiculado pelo autor,  tpico deste final do sculo XIX - os 
Portugueses so mesmo includos no grupo lingustico indo-europeu, como se 
de raa se tratasse. As caractersticas rcicas servem para explicar padres 
culturais e temperamentos que se atribuem  totalidade dos Portugueses -- a 
prpria emigrao surge como esprito de aventura e j se insinua a 
contraditria mitologia de militar valente, de brandos costumes. Na 
realidade, a tentativa de definir uma cultura nacional aparece, na maioria 
das vezes, como um argumento  unio de grupos antagnicos - os nacionais - 
contra o exterior.

Durante muito tempo certas formas de melancola foram consideradas como 
especificamente inglesas; era um dado mdico e tambm uma constante 
literria. Montesquieu opunha o suicdio romano, conduta moral e poltica, 
efeito conseguido duma educao adequada, ao suicdio ingls que devia ser 
considerado como uma doena ]a que ws Ingleses matam-se sem que se possa 
imaginar nenhuma razo que os leve a isso; eles matam-se mesmo no meio da 
felicidade. (     .. ) No incio do sculo XIX, Spurzheim far a sntese de 
todas estas anlises num dos ltimos textos que lhes  consagrado. A loucura 
na Inglaterra mais frequente que em qualquer outro lugar, no  mais do 
que o tributo da liberdade que a reina, e da riqueza por todos repartida. ( 
.. ) Para ns, o essencial de uma anlise como esta, no  a crtica da 
liberdade, mas sim a utiliza o da noo que para Spurzheim designa o meio 
no natural onde so favorizados, ampliados e multiplicados os mecanismos 
psicolgicos e fisiol gicos da loucura.

M. Foucault, Histoire de Ia Folie, Plon, 1961

Padronizao cultural: coeso cultural e realidade cultural como totalidade. 
A noo de estrutura e funo


Perfeitamente detectados do exterior, cada cultura apresenta um conjunto de 
modelos ideais que representam a opinio geral sobre o modo de se 
comportar em certas situaes. Estes modelos ideais no so estritamente 
seguidos por todos os grupos sociais, pois s alguns deles tendem a utiliz-
los sistematca mente, enquanto outros grupos, mesmo tendo conscincia da 
sua existncia, no os incorporam no seu comportamento. De resto, estes 
modelos variam de sociedade para sociedade. Estes modelos ideais assentam na 
observa o do passado da cornunidade, cristalizados em comportamentos que 
idealmente devem nortear os indivduos e, portanto, raramente correspondem 
aos modelos de comportamento real levantados pelo socilogo ou pelo 
antroplogo. Por vezes, o modelo ideal apresenta-se como um objecto de 
desejo, no correspondendo em nenhum caso ao comportamento real. De qualquer 
modo, tanto num

como noutro caso, os modelos ideais tm a funo de desencorajar certos 
comportamentos que se afastam demasiado daquele que eles propem; quando o 
modelo ideal se torna desactualizado tende a desaparacer e  substitudo por 
outro.

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0 padro cultural duma sociedade ou o complexo de padres culturais que 
permitem individualiz-la, ganham um sentido prprio em funo destes 
modelos ideais; a cultura ganha uma certa coeso a nvel de imaginrio e de 
discurso, mas a sua realidade  o con-

junto de comportamentos dos vrios grupos sociais; a padronizao cultural 
deve alicercar-se sobre os comportamentos reais e no sobre os 
comportamentos atribudos a um

modelo ideal que fazem parte das intenes da comunidade e no da sua 
realidade; porm, h sempre um sentido expresso no imaginrio ideal que 
serve de limite e de explicao do sentido de muitos comportamentos.

A cultura oficial, institucionalizada pelos mecanismos oficiais, recorre a 
muitos dos modelos ideais, o que no s explica o seu qu de artificialismo 
e superficialidade, como o facto da parte de inoperncia que produz a sua 
aplicao na vida prtica. Entretanto,  responsvel pela segregao de 
padres seculares tradicionais que passam a participar de subculturas 
marginais. E o caso das velhas profisses como curandeiros, 
Inerbanrios, endireitas que foram desvalorizados pela prtica da 
medicina oficial, mesmo que, por vezes, provem a sua eficcia - no  
mdico o que cura, mas o que tem o diploma.

0 alargamento da escolaridade obrigatria tende a impor com mais xito a 
padronizao oficial logo a partir duma tcnica de linguagem e um lxico 
especfico que permite o esvaimento dos falares tradicionais e esbate as 
linguagens de classe, ao mesmo tempo que despadroniza os gestos da 
linguagem. Entretanto, a cultura oficial distribui-se em

fatias culturais e nem todos os grupos so atingidos e favorecidos 
igualmente pela cultura - a realidade cultural mantm um universo cultural 
dentro dum espao supostamente coeso.

Padres culturais em extino

0 funcionalismo no aceita a noo de indeterminao de sentido de alguns 
padres culturais,- dado que toda a sociedade  uma organizao a partir de 
necessidades bsicas, estas acabam por produzir instituies como a 
economia, a organizao social, o

controlo social, a educao, que constituem um sistema onde todos os 
elementos so solidrios. Recusa, portanto, a noo de antagonismo entre as 
instituies, ou mesmo

no seio dessas instituies. A coeso cultural  conseguida pelas prprias 
instituies que regulam a vida colectiva e ganham sentido em si mesmas, 
respondendo a necessidades primrias como a alimentao, a reproduo e a 
proteco - sobrevivncia do colectivo.

Recusa, portanto, dada a coerncia interna das suas instituies, a 
possibilidade duma cultura assimilar elementos exticos, estruturando-os ao 
seu prprio sentido. Cada padro cultural, cada objecto, cada costume, cada 
crena tem uma funo a desempenhar na sociedade, uma funo vital que 
desempenha uma parte indispensvel no sistema. Rejeita-se assim a teoria do 
difusionismo que reconhece a existncia de certos centros culturais que 
teriam difundido e alargado a sua cultura.


A corrente estruturalista procura encontrar o sentido dos conjuntos 
culturais, definindo estruturas que esto prximas das noes de padres 
culturais. Nas estruturas existem elementos fixos e elementos mveis; o 
desaparecimento dos primeiros acarreta a

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destruio da estrutura e a constituio de uma nova. S os elementos fixos 
e imutveis da estrutura lhe do o seu sentido prprio. Os apports 
culturais vindos do exterior no s podem incluir-se como elementos novos de 
uma estrutura, sem lhe destruirem o sentido, como podem constituir 
estruturas novas que permanecem em relao de unio ou antagonismo com 
velhas estruturas. Pode perfeitamente conceber-se a estrutura econmica da 
troca directa existindo paralelamente a uma estrutura capitalista. Os 
padres culturais que se sobrepem na sociedade que as comporta, permitem a 
concepo de uma sociedade de subgrupos e mltiplos comportamentos, 
respondendo entretanto cada um

deles a um modelo prtico de vida que pode ser teoricamente unificado pelos 
modelos ideais. Mesmo praticando a troca directa, o modelo de enriquecimento 
do capitalismo pode interferir no imaginrio do outro grupo.

0 estruturalismo concebe a sociedade como um campo de conflitos onde vrias 
estruturas se cruzam, entendem ou antagonizam, num modelo de ordem e 
desordem, criativo de progresso e inovao.

2.4. Aspectos universais da cultura
2.4. 1. A TECNOLOGIA CULTURAL OU A ETNO-TECNOLOGIA CULTURAL

A tecnologia cultural  a anlise das tradies tcnicas que no incluem a 
tecnologia industrial. 0 seu campo de aco  pr-industrial. Analisa-se a 
tecnologia que ainda no foi contaminada por valores tecnicistas da 
sociedade industrial e onde o pensamento mtico  ainda predominante.

Eivada ainda de arcasmo, a tecnologia cultural analisa o tipo de relao 
dialctica entre a cultura tcnica e o meio natural, entre o meio geogrfico 
e as possibilidades tcnicas ou tecnolgicas das sociedades; analisa ainda 
os fenmenos de aceitao e rei      .ei-

co de inovaes tcnicas introduzidas por contactos culturais e por 
aculturao. Todas as culturas esto sujeitas no apenas s insuficincias 
do meio ambiente como ainda s que provm de outras culturas; porm, esta 
aco e reaco frente a apports culturais faz-se selectivamente: as 
culturas aceitam e rejeitam inovaes de modo idiossincrtico(-P).

As sociedades organizam-se em sistemas socioculturais, compreendendo uma 
infraestrutura bsica que inclui as suas respostas tcnicas ao desafio da 
natureza: o modo de produco econmico e o conjunto de tcnicas adaptam-se 
ao meio ambiente e determinam o aparecimento de uma superstrutura que inclui 
as representaes colectivas que, naturalmente, se adaptam s estruturas 
econmico-tcnicas. Entre a superstrutura e a infraestrutura desenvolve-se 
assim um movimento dialctico: a infraestrutura determina a superstrutura e 
esta controla a infraestrutura por intermdio das instituies.

Sistema socioculturall S,E.-Superstrutura
11. -Infraestrutura

As sociedades mais apetrechadas tecnologica mente tendem a dominar as 
sociedades menos apetrechadas, do que resulta que as inovaes tcnicas 
penetram, na maioria dos casos, atravs do campo idelgico-poltico, ou 
sei.a, atravs da superstrutura.

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As culturas mais bem adaptadas ao seu meio ambiente so muito resistentes s 
inovaes tcnicas vindas do exterior, pois compreendem um sistema cultural 
muito especializado em funo dessa adaptao que cria quadros mentais de 
rejeio a qualquer mudana.

No pode esquecer-se que todas as estruturas se organizam e interligam num 
sistema sociocultural, mantidos pela inculturao. Pelo contrrio, quanto 
menos adaptada e menos especializada  uma cultura, mais sujeita se encontra 
a inovaes culturais e, ao mesmo tempo, est menos sujeita ao 
etnocentrismo, j que este funciona como uma barreira cultural frente aos 
outros. As culturas especializadas tendem a manter-se subconservadoras, 
evoluindo rnuito lentamente, agravando-se o conformismo por ideologias 
conservadoras. So casos paradigmticos as culturas rurais, especializadas 
em tcnicas tradicionais, invulnerveis a inovaes e mudanas, j que as 
suas respostas tcnicas lhes surgem como eficazes para a sobrevivncia. Um 
terceiro caso  o dos sistemas culturais que se especializam em transporte e 
circulao de mercadorias e ideias, veculos de riquezas e conhecimentos 
cientfico-tcnicos (Mesquitela Lima), sem os incorporarem no seu prprio 
sistema. Levanta-se esta dvida para o caso histrico-portugus.

Classificao socioeconmica das tcnicas

No podendo esta classificao ser puramente tecnolgica, mais do que dar  
definio um julgamento esttico (rusticidade)  prefervel tomar como pivot 
um termo socioeconmi .co que implique pelo menos uma parte das 
consequncias tecnolgicas. Parece-me que o pivot procurado corresponde ao 
artesanato em sentido amplo, isto , um

estado social em que determinados indivduos votam o seu tempo a tcnicas de 
fabricao (metalurgia em particular), sendo este tempo recompensado por uma 
contrapartida em espci .e ou em espci .es correspondentes  no-aquisio 
alimentar resultante da sua actividade de fabricao. A noco de artesanato 
faz intervir a sociedade global simultaneamente no plano das instituies 
sociais e das operaes econmicas, tendo os graus sucessivos de 
complexidade social como corolrio (e como elemento componente) a libertao 
gradual do tempo de fabricao dos indivduos especializados. propriamente 
relacionar a hierarquia tcnica com o meio favorvel, e verificar que o 
grupo tcnico no pode ser separado da sociedade total. Neste plano 
podero considerar-se as divises seguintes.-

1) pr-artesanal: no plano da fabricao, a sociedade no distingue alguns 
dos seus

membros e, teoricamente pelo menos, todos os indivduos (ou casais) podem 
assegurar a parte da fabricao que corresponde s suas necessidades 
fundamentais. Esta expresso corresponde melhor que muito rstico ao que 
queria caracterizar na ---poca em que escrevi pela primeira vez este 
captulo.

2) proto-artesanal: sem deixar de assumir a parte maior da sua aquisio 
alimentar, um ou alguns indivduos fabricam objectos que correspondem s 
necessidades fundamentais do grupo. Este ltimo assegura a compensao, 
normalmente em espcie. Proto-artesanal poderia substituir rstico, mas a 
partir daqui a terminologia s se sobrepe particularmente.


3) artesanal-isolado: a este nvel os indivduos tomam-se especialistas a 
tempo inteiro (o que no exclui algumas actividades de aquisio alimentar, 
mas esta ltima passa a um plano menor). Os artesos so pouco numerosos, / 
       .nseridos individualmente no grupo.

4) artesanal-agrupado: os artesos formam grupos, associados em unidades de 
pro~ duo, num sector citadino que lhes  prprio, ou, nalguns casos, em 
aldeias separadas, como acontece com os oleiros. Distinguem-se dos proto-
artesos rurais que, em aldeias inteiras, consagram uma parte do tempo  
fabricao, sendo o resto votado aos trabalhos de aquisio alimentar.

5) industrial: os indivduos esto agrupados hierarquicamente no seio duma 
empresa de mdias ou grandes dimenses e cujos meios de aco so exteriores 
aos executantes.

 evidente que estas categorias conti      .nuam a ser permevel    .s, uma 
relativamente  outra, num duplo sentido. Num grupo que atingiu o tipo 
artesanal-isolado ou mesmo

industrial, alguns factos de fabricao continuam a ser factos de massas de 
indivduos por sexos (a costura ou a cermica em muitos casos, etc.). De 
igual modo pode-se constatar que h casos de transio entre tipos como o de 
artesos isolados numa comunidade rural, os quais nalguns planos constituem 
um agrupamento com outros artesos isolados das comunidades vizinhas. 

A. Leroi-Gourhan, 0 Gesto e a Palavra, 1

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2.4.2. A ECONOMIA: SISTEMAS DE AQUISIO E DE PRODUAO DE BENS, ORGANIZAAO 
ECONMICA

Por toda a parte onde quer que fixemos o nosso olhar no foram s as 
superfcies e a

fertilidade do solo, mas sim os meios disponveis para o seu aproveitamento 
- inteligncia, eficcia e sentido de economia dos homens -, que 
determinaram o campo alimentar.

So esses meios que sabem encontrar sempre terra nova no sentido mais amplo 
do termo, isto , novos mtodos de aproveitamento do solo e novos recursos 
da agricultura. A terra nova que, para ampliao do espao alimentar do 
homem, tem de ser conquistada e desbastada, encontra-se em pn          
.melro lugar nas cabeas dos homens e dos povos. 

F. Aereboe, 0 Problema da Alimentao dos Povos e o Aumento da Produo da 
Agricultura

Se as tcnicas agrcolas so produto do imaginrio tcnico do homem, tem de 
se ter em conta, em primeiro lugar, o seu tipo de intestino que o orienta 
para a absoro de carne e de cereais. , porm, o processo de hominizao 
que, produzindo o homem tcnico, lhe permite ultrapassar o estdio de caa e 
colecta de alimentos atravs da domesticao paralela do mundo animal e 
vegetal.

Quatro grandes e decisivas ampliaes do espao alimentar tiveram at agora 
lugar na terra. Uma quinta ampliao poder sobrevir no decorrer do prximo 
sculo.

A primeira ampliao do espao alimentar teve lugar com a transio da 
economia de caa para a economia de prados.

A segunda ampliao verificou-se com a transio da economia nmada para a 
econo-

mia sedentria e a agricultura.

A terceira ampliao foi a da transio da primitiva agricultura para a 
moderna.  quarta ampliao do espao alimentar poderemos chamar a da 
produo sinttica dos alimentos. Assenta na descoberta cientfica de que as 
plantas precisam de certas substncias alimentares para o seu 
desenvolvimento, em especial de azoto, cido fostrico, potssio e clcio. 
Podemos produzir essas substncias alimentares fora da agricultura: em minas 
e em fbricas. Transportando~as depois para os campos, damos a estes a 
capacidade de produzir alimentos em quantidades mltiplas das que produziam 
na simples base da sua fertilidade natural.

A quinta ampliao seria a da produo totalmente sinttica dos alimentos. 
Certos valores alimentares podem j ser sinteticamente produzidos. A cincia 
qumica encontra-se nos umbrais da possibilidade de produo sinttica de 
alimentos, e h-de transpor esses umbrais antes de decorrer meio sculo. 

Fritz Baade, Economia Mundial da Alimentao


H, porm, problemas quando se levanta uma classificao como a apresentada. 
Este tipo de classificao funciona va lorativa mente, fazendo surgir o 
processo de aproveitamento do espao alimentar em estdios equivalentes a um 
progressivo melhoramento das tcnicas e dos resultados econmicos. Porm, se 
se admitir que a distribuio de bens alimentares estava facilitada no 
estdio da caa/colecta, uma classificao deste tipo deixa de ter sentido. 
Tem caractersticas etnocntricas, de seleco de modelo de desenvolvimento, 
a noo do atraso dum estdio em rela o ao anterior ou seja, desde o 
momento que o modelo de desenvolvimento seja o da mxima renta@ilidade.

A caa e a colecta tm todas as suas foras na sua fraqueza. Os movimentos 
peridicos e as limitaes da riqueza e da populao so simultaneamente 
imperativos da prtica econmica e solues de adaptao criativas. So de 
qualquer forma necessidades feitas virtudes pois no quadro de tais 
condicionamentos a abundncia toma-se possvel. A mobilidade e a moderao 
pem os objectivos dos caadores ao alcance das suas possibilidades 
tcnicas. E assim que um modo de produo fundado em tcnicas rudimentares 
pode ter um alto rendimento. A vida do caador no  assim to dura como 
pode parecer ao observador menos avisado. Em alguns aspectos a economia 
reflecte os dados rudes da ecologia, mas estes dados ela inverte-os 
completamente.

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De acordo com testemunhos etnolgicos recentes, os caadores-colectores - 
mais particularmente os que vivem em meios marginais - consagram em mdia 
trs a cinco horas dirias (nmeros vlidos para um trabalhador adulto) na 
produo da sua alimen taco. Em matria de tempo, tm emprego de bancrios, 
e trabalham nitidamente menos que os operrios industriais que desejosos 
estariam de obter uma semana de trabalho de
21 a 35 horas! Estudos recentes feitos aos custos de trabalho entre os 
agricultores do ti;oo neoltico permitem comparaes interessantes. Assim, 
entre os Hanuno, um adulto mdio, homem ou mulher, consagra 1200 horas por 
ano  agricultura... seja em mdia 3 horas e 20 minutos por dia. Note-se que 
estes nmeros no do conta nem da preparao, nem dos cuidados com os 
animais domsticos, nem da cozinha ou de outras actividades de subsistncia 
a que se do estas tribos das Filipinas. ( ...)

Podero neste ponto fazer-se algumas observaes acerca do lugar que o facto 
econmico ocupa na organizao social das sociedades tradicionais.

A auto -subsistncia aparece-nos como sendo o quadro econmico em que se 
elaboram o modo de produo e o modo de circulao dos bens. Modo de 
produo directo, implicando relaes de produo de carcter pessoal e 
imediato. Modo de circulao sem troca e edificado a partir das relaes 
pessoais que confirma e prolonga.

0 papel determinante das condies econmi       .cas no aparece 
imediatamente pois estas sociedades assentam numa estrutura material fraca 
que, em proporo, d uma importncia maior aos fenmenos intelectuais. 0 
que desencoraj o economi     .sta que procurar um determinismo econmico 
imediato  que o sistema de circulao dos bens que observa se elabora por 
interveno de um fenmeno no material.

Desde que a economia de auto-subsistncia esteja ameaada pela apario de 
trocas comerciais, a sociedade que sobre ela se edifica tende a ser 
preservada pela neutralizaco das contradies que penetram no seio do 
grupo. A eventual desapario da economia de auto-subsistncia leva  
apario de novas relaes sociais estabelecidas em funo de uma pertena a 
categori  .as soci.ais hierarquizadas (e no mais em funo de relaes 
individuais) e de novas relaes entre classes edificadas sobre um modelo 
transformado das relaes anteriores.

As noes de parentesco e de ancianeidade perpetuam-se atravs destas 
transformaes e adquirem a fora de uma ideologia familiar e religiosa.

A sociedade passar da economia directa  economia feudal apoiando-se nesta 
ideologia durante todo o perodo em que, sendo j hierarquizada, ela ainda 
no chegou ao estdio de controlo da terra pela classe dominante.

As noes de idade e de parentesco, pelas contradies que lhes so 
inerentes, trazem em si os elementos destas transformaes. A aparente 
fixidez destas sociedades deve-se ao facto de que a observao se situa o 
mais frequentemente ao nvel da organizao clnica. Enquanto forem 
preservadas as condies de auto-subsistncia, estas socedades multiplicam-
se, alargam-se e repetem-se por segmenta(,o sem que a organizao das 
clulas constitutivas se transforme de forma significativa.

E no plano demogrfico e geogrfico que o seu dinamismo  visvel. Por isso 
criam, elas prprias, as condies da sua transformao, tomando possvel o 
contacto com um grupo econmico complementar, ou tomando-se elas prprias 
complementares.

Marshall Sahiins, Stone Age Economics, 1972

Entretanto, se bem que no se possa admitir uma imagem-das sociedades 
colectoras e

caadoras como uma sociedade famlica que assegura dificilmente a sua 
sobrevivncia, apesar de um trabalho encarnicado,  um facto que o 
inevitvel esgotamento da caa e

das pradarias condena as comunidades  itinerncia - e ao estdio da 
agricultura de prados. Com a agricultura de fixao resultante e resultado 
da primeira e segunda revolues urbanas, aumenta a produtividade da terra, 
mas diminui a produtividade do trabalho, o que ir permitir, apesar desse 
abaixamento de produtividade do trabalho, um aumento de produo e uma 
libertao de horas de trabalho geral que passam a ser ocupadas por sectores 
secundrios e tercirios, tornando muito mais complexo o sistema social. Nas 
economias de caa e colheita, a terra  apenas um objecto de trabalho, 
enquanto que na economia agrcola, a terra  tambm meio de trabalho e terra 
de cultura

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onde se investem novos trabalhos, novas especial izaes, uma nova 
cooperao -

vedao, arranjo dos solos, aclubagem, esfolhamento, etc. 0 cicio da 
agricultura  anual
- impe calendrios precisos, obriga a uma cooperao estvel e prolongada 
dos homens.

Nas econornias de caadores resultam relaes sociais fracas e descontnuas 
e um fraco controlo de homens e de mulheres; na economia agrcola as 
relaes so vitalcias, quando no hereditrias, pois exigem-no as 
prestaes a pagar pelo crdito do primeiro perodo das sementeiras que no 
 de rendimento imediato; este crdito indispensvel para quem inicia um 
cicio agrcola implica o domnio da anterioridade, com papel de destaque 
para os mais velhos na funo de controlo e repartio dos stocks, dos 
dependentes e das mulheres.

Com a agricultura advm tambm, a nvel poltico, a gerontocracia e, a nvel 
ideolgico, o culto dos antepassados e o estabelecimento de genealogias.

Tcnicas agrcolas e instrumentos agrcolas

As instituies econmicas, os sistemas de produo, no surgem 
autonomamente mas, sim, diluem-se noutras instituies, nomeadamente a 
social. Esta dependncia era

particularmente notria nas sociedades primitivas, onde as instituies 
econmicas se diluam numa instituio mais importante que era a troca de 
mulheres, ou seja, na prtica de casamentos exogamicos e sistemas de 
aliana.

( ... ) Tomaremos como ponto de partida a clula social tradicional que 
pode ser descrita como um conjunto de indivduos de ambos os sexos vivendo 
agrupados num

espao comum, ou deslocando-se em conjunto, sob a autoridade de um homem 
vivo, reputado de eminente, e mantendo entre si relaes de parentesco. Uma 
tal clula, que chamaremos comunidade, retira a sua subsistncia da caa, da 
colecta, da agricultura, da pecuria, ou de uma combinao qualquer destas 
actividades.

A principal caracterstica econmica duma tal comunidade  a sua auto -
subsistncia.- o

grupo produz a totalidade dos bens necessrios  sua perpetuao e cresci   
.mento a parti .r dos recursos naturais que esto directamente  mo. 
Veremos como este carcter de susbsistncia, uma vez que se elabora nesta 
base o edifcio social, tende a ser artificialmente preservado contra as 
transformaes implicadas pelas relaes de troca complementares com as 
outras economi    as.

Esta comunidade pode ter existncia isolada ou estar integrada, seja num 
conjunto mais vasto de comunidades homlogas igualmente de auto -
subsistncia, seja eventualmente no seio de uma sociedade poltica mais 
complexa e hierarquizada.

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As outras caractersticas econmicas da comunidade, no sentido em que a 
definimos, so as seguintes.-

- acessibilidade de todos os membros da comunidade s matrias-primas e  
terra;

simplicidade dos meios de produo, isto , dos meios naturais e artificiais 
accionados para produzir os bens de consumo;

- complexidade relativa das tcnicas de produo;
- diviso do trabalho em funo do sexo e da idade;
- circulao dos bens de subsistncia em funo de uma hierarqui social 
baseada na noco de ancianeidade. (       ..)

Num tal sistema, as mulheres casadas trabalham para os seus esposos que 
entregam o

produto de ambos aos ancios, os quais o redistribuem ao conjunto da 
comunidade directamente ou por intermdio dos homens casados.

Se neste ponto prestarmos ateno apenas s relaes entre os ancios e os 
jovens, podem-se definir dois modos de circulao dos bens:

- uma prestao dos jovens aos anciaos;
- uma redistribuico dos ancios aos jovens. Este esquema, que no  i      
  .magi .nri.o, revela portanto uma relao de dependncia entre duas 
categorias de indivduos, que se caracteriza pelo facto de que uma recebe 
prestaes da outra e portanto controla a totalidade da produo do grupo.

0 problema que se pe  o de saber.-

Claude Meiliassoux, Cahiers dtudes Africaines, 1960, Paris

Assm, se o mais velho controla as trocas matrimoniais, no  porque 
controla o produto social (em muitos casos este produto no tem afectao 
matrimonial), mas porque controla as mulheres do seu grupo e porque estas 
mulheres, por causa da proibio do i.ncesto, no possuem nenhum valor 
sexual no interior do seu grupo. Nesta perspectiva, o controlo dos produtos 
(em particular dos excedentes quando esto afectos s trocas matrimoniais) 
surge claramente como uma consequncia do controlo primordial das mulheres 
do grupo.

No fim desta anlise, o que finalmente parece caracterizar as relaes 
sociais na sociedade de linhagem  uma dupla realidade complementar.- por um 
lado, a transformao das mulheres do grupo em mercadorias destinadas  
troca e de que s os mais velhos tm o controlo, e, por outro, o correlativo 
espoliamento, dos mais novos, obrigados a trabalhar para os mais velhos, 
dado que s estes, pondo em circulao uma mulher do grupo, lhes podem 
fornecer, em paga, uma esposa.

Alain Marie, Relaes de parentesco e relaes de produo nas sociedades de 
linhagem,

in A Antropologia Econmica dir. Franois Pouillon

0 problema do surgimento da troca econmica


A vida social , j em si, um sistema de trocas que pode extravasar o 
prprio territrio, como se verifica pelo casamento exogmico.

J no Paleoltico se detectam vias comerciais de instrumentos, levando a 
crer num comrcio expansionista a partir das pedreiras que forneciam o slex 
para os utenslios -

onde os stocks encontrados ultrapassam de longe qualquer necessidade local 
de abastecimento.

Porm, o verdadeiro comrcio, ultrapassando a troca directa e utilizando um 
objecto intermedirio de valor relativamente fixo - que ser a moeda -, 
parece surgir apenas com o advento da metalurgia. A fundio de metais 
(cobre, ouro, prata e liga do bronze) surge nas montanhas, junto dos veios 
de minrio; as civilizaes dos grandes rios, com capital, capacidade de 
utilizao e, em breve, com necessidade de organizar a sua defesa e os seus 
exrcitos imperialistas com armas de bronze, situam-se nas plancies 
aluviais: caso do Egipto, da Sumria e de outras civilizaes urbanas como a 
chinesa. Quando os reis militares da Sumria organizam expedies para a 
captura do metal e lpis-lazli, esto a criar as condies do futuro 
imperialismo econmico das cidades acdias, sum-

72

rias e egpcias, de que so casos paradigmticos o imprio de Sargo e de 
Ramss 11. 0 imprio acdio acabar por enfrentar as expedies 
militarizadas do Egipto,  procura do minrio. Em pouco tempo o metal , 
alm de moeda de troca, o produto comercial mais valorizado do mundo antigo, 
surgindo na orla das grandes civilizaes agrcolas, nas culturas de margem 
dedicadas quer  minerao e fundio (civilizaes da sia Menor), quer  
troca comercial entre as grandes reas culturais e nas culturas do corredor 
palestiniano, como troca. 0 Prximo Oriente surge como um laboratrio onde 
pode estudar-se a evoluo dos sistemas de aquisio e produo de bens.  
a que surge a domesticao do gado e das plantas vegetais, cujas tcnicas 
emigram para o Ocidente e Mdio Oriente;  igualmente nos leitos dos rios 
que se desenvolve a agricultura baseada na captao das guas das cheias, 
arrastando consigo a segunda revoluo urbana das grandes cidades, com 
teogonias mistas herdadas da justaposio dos mitos das fratrias exogmicas 
que se tinham organizado em fortificaes urbanas complementares de 
agricultores e pastores. Se na primeira revoluo urbana a regra era a troca 
directa, com a segunda revoluo o

metal circula rapidamente e a moeda propriamente dita acabar por surgir.

A revoluo metalrgica, ao mesmo tempo que cria uma nova sociedade onde o 
arteso passa a ser seqreqado, lana o comrcio internacional na rota da 
procura do minrio
- imprio comercial que seguir o caminho da expanso da escrita, alicerce 
primeiro de dominao.

Os povos surgem como agricultores ou pastores, mas pouco a pouco estas 
actividades incluem-se no espao urbano, passando a produzir para a cidade. 
Redes de cidades burocrticas ou mercantis dominam todo um espao 
circundante que lhes fornece produtos agrcolas e pastoris. 0 sistema 
poltico-jurdico a que se chama feudalismo, est habitualmente associado a 
uma agricultura de subsistncia e de prestao de servios ao senhor da 
terra; surge em vrias culturas aristocrticas, habitualmente em regime de 
ocupao do territrio por um

invasor que constitui ento a classe dominante, pela qual se distribui a 
terra. Nestas parcelas. de terra entregues para cultivo a camponeses-
vassalos, a base econmica  a agricultura e a criao de gado, mas mantm-
se um comrcio itinerante feito habitualmente por comerciantes do corredor 
palestiniano ou caravaneiros de vrias origens nmadas.

No Feudalismo europeu, com caractersticas especficas na relao senhor-
vassalo, o comrcio mantm-se, at ao sculo XII, limitado a umas poucas 
cidades como Veneza e outras cidades do Mar do Norte, enquanto uma economia 
de subsistncia se adapta melhor a uma poca de violncia e invases; a 
partir do sculo XII, a Europa abre-se de novo ao comrcio interno e 
externo, mantendo a base agrcola como fundamental. A Idade Moderna, com 
comrcio mundial, arrasta o continente europeu para a racionalizao da 
agricultura, ou agricultura moderna, merc de novas tcnicas de cultivo, de 
adubao, de escolha de terras adequadas a produtos em monocultura e, 
nomeadamente, a aclimatizao de produtos agrcolas americanos.

Quando se atinge a 4. fase da ampliao do espao alimentar, este 
crescimento agricola alia-se s novas tcnicas industriais. Pela primeira 
vez na histria, a economia assenta nas tcnicas de transformao, no sector 
secundrio e no no sector primrio; a


evoluo para os produtos sintticos  sintomtico desta inverso econmica. 
0 mundo ir conhecer um novo sistema de produo de bens, herdeiro de todas 
as prticas capitalistas da Idade Moderna, mas implicando um novo universo 
econmico que cria um novo

etnocentrismo: a tese do desenvolvimento e subdesenvolvimento das naes. 0 
desenvolvimento associa-se ao crescimento do sector secundrio - 
transformador - dado que mesmo em pleno crescimento econmico o 
desenvolvimento do primrio  muito lento e o sector tercirio mantm-se 
praticamente na mesma. 0 modelo de desenvolvimento atribui, portanto, valor 
essencial ao crescimento das indstrias e tecnologia, avaliando o produto 
per capita em quantidade de ao consumido e produzido. Consideram-se, 
portanto, pases subdesenvolvidos aqueles que tem o sector secundrio pouco 
desenvolvido e cuja produo per capita no atinja a produo em ao ou em 
dlares, estabelecida para padro a partir dum ndice abaixo dos pases 
desenvolvidos.

Esta distino , j hoje, criticada pelos socilogos, mas mantm-se com 
toda a sua

fora na economia e no prprio senso-comum. C.eC-4                          
                                                          73

0 crescimento quantitativo no corresponde sempre a um progresso humano, 
nem mesmo a um progresso econmico, no sentido mais vago e amplo da palavra 
progresso. Uma economia de guerra, com um desenvolvimento considervel da 
produo de armas e munies, provocaria um crescimento da produo que 
hesitaramos em chamar de progresso. Concebemos dois casos de crescimento 
sem progresso econmico.- quando os bens produzidos no correspondem a uma 
melhor satisfao das necessidades dos indivduos, e quando o crescimento 
econmico geral se traduz por uma distribuio mais desigual do produto 
nacional. 

Raymond Aron, Dezoito lic(5es sobre a sociedade industrial, Presena

A economia capitalista mantm todas as outras economias em paralelo: no h 
um

espao capitalista em si, mas um conjunto de espacos mais ou menos 
sobrepostos de outras prticas e trocas econmicas, rede complexa de 
aquisio e produo de bens puramente abstracta que cria desejos 
secundrios no homem programando-os para uma posterior srie produtiva.

0 sistema capitalista, eminentemente racional nos seus propsitos 
econmicos, reduz-se a uma rede simblica onde os produtos perderam, h 
muito, o seu valor real.

2.4.3. A ORGANIZAO E A ESTRUTURA DA SOCIEDADE

Se juntarmos frangos de diferentes descendncias, pode-se observar que 
comeam imediatamente a lutar uns contra os outros. Passados alguns dias as 
lutas diminuem de frequenci.a e por fim o grupo vive pacificamente. Se 
observarmos mais atentamente verificamos que durante as lutas se estabelece 
uma hierarquia. Os frangos lutam sucessivamente uns com os outros e graduam-
se hierarquicamente entre si segundo um critrio de vitria ou derrota. Um 
frango a que vena os frangos b, c e d  de futuro superior a estes. 
Passa a ter direitos prioritrios sobre a comida, sobre o lugar preferido de 
dormida e pode p  icar um frango hierarquicamente inferior se este lhe 
disputar a sua precedncia sobre o lugar da comida. Se por sua vez o frango 
b vence os frangos c e d, torna-se-lhes imediatamente superior, 
formando-se assim hierarquias lineares. Apesar de tudo h ainda relaes 
mais complexas. Assim, o frango d, com uma posio inferior a a, b e 
c, pode casualmente conseguir uma vitria decisiva sobre a. Daqui 
resulta que  d permanea  mesma subordinao a b e c, mas em posio 
superior a a.

Uma hierarquia deste tipo evita as disputas agressivas permanentes;  um 
meio de controlo da agressividade. Nos vertebrados superiores, os membros 
mais altos da hierarquia tm a seu cargo tarefas especficas ao servio do 
grupo. (   ...)

A diversificao das tarefas dos membros de hierarquia superior exige uma 
srie de caractersticas, entre as quais se destacam, nos animais 
superiores, as qualidades sociais e a experincia juntamente, com a fora 
fsica e a agressividade. A posio hirarquica de um babuno ou de um 
macaco no  de modo algum resultado de uma agressividade desenfreada. No  
o animal especialmente agressivo que sobe ao posto mximo hierrquico, mas 
sim o que sobretudo  pacfico e sabe ganhar as simpatias dos outros. (     
  ..)


So as qualidades sociais que decidem sobre a posio hierrquica e no 
apenas a agressividade que pretende conquistar uma posio. A posio 
hierrquica depende da aceitao dos outros membros do grupo e nunca  
concedida a um animal que seja exclusivamente agressivo. Tudo isto se aplica 
apenas a primatas que vivem em condies naturais.

Nas condies limitadas da vida do jardim zoolgico, so os tiranos que 
conseguem posies hierrquicas elevadas.

0 facto de at hoje ter sido impossvel levar  prtica o modelo de uma 
sociedade sem hierarquias - a abolio radical de hierarquias estabelecidas 
tambm no nos aproximaria em nada deste ideal, pois novos sistemas 
hierrquicos se desenvolvem rapidamente
- mostra que provavelmente deparamos aqui com uma disposio inata, que 
transpo@tamos sob a forma de herana primata. Nos grupos individualizados, 
so as qualidades

74

humanas, tais como esprito de sacrifcio, amor ao prximo, sabedoria, que 
decidem a

Posio hierrquica definitiva, e no exclusivamente a agressividade. Num 
rupo indivi-

9 dualizado pequeno, onde todos os seus membros se conhecem relativamente 
bem,  muito difcil a algum simular estas qualidades.

0 mesmo no se passa nas comunidades annimas.

................................................................. (... ) a 
segunda disposio que  condio bsica para a formao de uma ordem hi  
.e-

rrquica, ou seja, a disposio para aceitar a subaltemizao, baseada no 
respeito pelos membros hierarqui  .camente superiores (respeito enquanto 
combinao dos conceitos de honra e medo ... )

Eibl-Eibesfeidt, ob. cil.

A Etologia admite que os sistemas hierrquicos e a tendncia  organizao 
de hierarquias no ser humano releva duma disposio filogeneticamente 
adquirida, ou seja, o que hoje surge como disposio inata, teria surgido ao 
longo da evoluo como um processo para controlar a agressividade dos 
membros de um grupo e baseia-se, precisamente, nas qualidades de 
apaziguamento daqueles que ganham posio no grupo, portanto, que detm 
qualidades tidas como sociais.

As instituies sociais e formas de agrupamento socioculturais: grupos, 
classes, classes de idade, associaes, linhagens, cls, grupos tnicos, 
etnias, naes, A famlia

Admitindo o peso do fundamento biolgico nos comportamentos sociais, parece 
ser um facto que a sociedade se estruturou em funo do estabelecimento de 
regras e interditos,- o interdito nuclear foi o interdito do incesto, 
fazendo irromper a cultura no interior da natureza.


Este problema da proibio do incesto apresenta-se  reflexo com toda a 
ambiguidade que, num plano diferente, se d conta do carcter sagrado da 
prpria proibio. Esta regra, social pela sua natureza de regra,  ao mesmo 
tempo pr-social num duplo sentido: primeiro, pela sua universalidade, em 
seguida, pelo tipo de relaes s quai           .s ela impe a sua norma. 
Ora, a vida sexual , ela prpria, duplamente exterior ao grupo. Ela exprime 
no mais alto grau a natureza animal do homem, e atesta, no prprio seio da 
humanidade, a sobrevivncia mais caracterstica dos instintos,- em segundo 
lugar os seus fins so, de novo duplamente, transcendentes: visam a 
satisfao, quer dos desejos individuais dos quais se sabe suficientemente 
que so dos menos respeitosos dentre as convenes sociais, quer das 
tendncias especficas que igualmente ultrapassam, posto que noutro sentido, 
os fins prprios da sociedade. Notemos, no entanto, que se a regulamentao 
das relaes entre os sexos constitui uma irrupo da cultura no seio da 
natureza, de um outro modo a vida sexual , no seio da natureza, um comeo 
da vida social.- porque, entre todos os instintos, o instinto sexual  o 
nico que, para se definir, tem necessidade da estimulao doutrem. Devemos 
retomar este ltimo ponto; ele no fornece uma passagem, ela prpria 
natural, entre a natureza e a cultura, o que seria inconcebvel, mas explica 
uma das razes pelas quais  no terreno da vida sexual, de preferncia a 
qualquer outro, que a passagem entre as duas ordens pode e deve 
necessariamente operar-se. Regra que constrange aquilo que, na sociedade, 
lhe  mais estranho,mas ao mesmo tempo regra social que retm, na natureza, 
o que  susceptvel de ultrapass-la - a proibio do incesto est, ao 
mesmo tempo, no limiar da cultura, na cultura, e, em certo sentido - 
tentaremos mostr-lo -,  a prpria cultura. 

Lvi-Strauss, Anthropologie Structurale, Pion, 1968

Em todas as pocas e em todas as sociedades surgem regras que regulamentam a 
relao entre os sexos, de que o casamento exogmico se torna exemplar. Ao 
criar a regra, o interdito, cria-se uma nova ordem que n o existia na 
natureza e surge a cultura. Cerimnia por excelncia no aspecto biolgico, 
ela torna-se tambm a primeira cerimnia do mundo social.

75

0 casamento (que implica a linguagem)  a primeira cerimnia 
verdadeiramente humana. Como muito bem diz Dvereux, ele tem por funo 
(biolgica) mascarar a hostilidade sob a aliana, afirmar o entendimento 
para evi .tar uma luta. Talvez porque seja uma questo de ter de trabalhar 
em conjunto. E por um novo abuso de linguagem que esta cerimnia fundadora, 
que representa permanentemente a comdia das origens,  qualificada de rito. 
Com efeito, os deuses raramente esto presentes neste acordo to tipicamente 
humano, que os cristos se obstinam em celebrar ao p do altar. 
Significativamente, o casamento  de todos os ritos ditos de passagem, 
aquele que menos merece este nome, pois os deuses evitam intrometer-se,- o 
que no poderia ser o caso do nascimento ou da morte. No  menos verdade 
que o casamento  a cerimnia por excelncia em sentido biolgico.- ela 
transforma profundamente a demonstrao cerimonial da potncia de um macho 
dominador em dominao de um sistema simblico igualitrio. 

Luc de Hensch, Poul- une anthropologie fondamentale

Desde o aparecimento da sociedade que o homem se organiza em grupos 
funcionais do ponto de vista produtivo e estritamente social, grupos de 
aliana e casamento, de parentesco, de linhagem, de idade. 0 ncleo das 
associaes de parentesco e linhagem  a famlia primitiva, me, filho e 
irmo da me. Numa linhagem que rene vrias geraes segundo laos de 
parentesco efectivo, distingue-se outro tipo de grupos: as asso-

ciaes de homens ou de mulheres e os grupos de idade.

11 4~

Associao masculina

Mantendo no seu interior grupos unidos pelos casamentos, com a unio das 
fratrias complementares - facto inevitvel com o alargamento das alianas - 
surge o cl, com tonalidade poltica, j que tm papel poltico predominante 
os anciaes representantes das famlias das duas fratrias; o cl, unindo 
tradies a maior parte das vezes antagnicas, aparece com uma realidade 
cultural. 0 conjunto de vrios cls, unidos para eventuais efeitos poltico-
militares, forma uma etnia,- porm, a caracterstica mais marcante duma 
etnia  a partilha da mesma lngua e dum panteo religioso com pontos 
comuns.

A noo de nao no sentido moderno s surge verdadeiramente no sculo XIX, 
herdando a vaga significa o que lhe era atribuda na Idade Mdia. Uma 
nao  um grupo alargado, um povo que tem lngua e tradies comuns que o 
distinguem dos outros povos, tradies essas habitualmente associadas a uma 
histria comum. 0 distintivo da nacao  e o nome e pode existir sem ter 
definido o seu territrio. Conta-se, em todo o m

undo  , um nmero superior a doze mil etnias e todas elas se reconhecem num 
passado histrico a partir dum fundador, real ou lendrio.

Se definirmos idealmente as sociedades segmentrias como sociedades sem 
poder poltico centralizado, como conjuntos compostos por subconjuntos que 
no so complementares nem esto hierarquizados do ponto de vista econmico 
ou poltico, mas apenas justapostos, e se nos lembrarmos que estes 
subconjuntos - tribos, cls, linhagens ou aldeias - se organizam e comunicam 
entre si por meio do modelo do parentesco, se definem como grupo de parentes 
e definem as suas relaes reciprocas como relaes

76

de parentesco (por filiao, assimilao, trocas matrimoniais), 
constataremos que o que caracteriza especificamente as sociedades de 
linhagem  menos a ausncia de tracos caractersticos de outros tipos de 
sociedade - centralizao, hierarquizao, especializao profissional, 
desenvolvimento de grupos, castas ou classes, definidos pela sua posiao num 
si .stema de relaes de produo, aparecimento de um aparelho poltico e 
administrativo especializado - que a presena espectacular, exclusiva, do 
parentesco.

Para alm do parentesco, no h nada,- alis, ele est em todo o lado. Por 
outras palavras: o que caracteriza estas sociedades ditas ---de linhagem- 
no  tanto a presena do parentesco como instituio, representao e 
racionalizao, como modelo aos trs nveis da organizao, da lgica e da 
ideologia - porque esta presena se encontra em todas as sociedades -, como 
o facto de o parentesco surgir imediatamente aqui como modelo exclusivo.

.................................................................

Para a Etnologia clssica, se o parentesco se manifesta a todos os nveis da 
realidade social, familiar, econmica, poltica, religiosa, ideolgica, como 
um conjunto de relaes efectivas e como esquema de organizao e 
inspirao; se, alm disso, aparece sempre como o nvel da realidade que 
explica os outros (vive-se em conjunto, trabalha-se em conjunto, come-se em 
conjunto, casam-se e no se casam entre si, faz-se parte da mesma unidade 
poltica, compartilham-se as mesmas crenas, etc., ---porque- se  parente 
elou aliado),  porque o parentesco  o denominador comum que permite 
explicar o funcionamento de cada um dos nveis e analisar a sua articulao.

Consequentemente, muito longe de ser apenas uma figura superstrutural, seria 
de facto a infraestrutura na qual se baseia todo o edifcio sociocultural, e 
o materialismo deveria depor as armas perante as sociedades ---primitivas -
.)@

Alain Mario, Relaes de parentesco e relaes de produo nas sociedades de 
linhagem, in A Antropologia

Econmica, dir. Francois Powilon, Edies 70, Perspectivas do Homem

A famlia

Para o estruturalismo, a famlia primitiva , portanto, constituda pelo 
tringulo me-filho-tio materno e caracteriza-se por ser o ncleo da 
estrutura de parentesco, origem da cultura e da sociedade humanas.  pois, 
acima de tudo, no um grupo biolgico, mas um grupo social.

A palav,-a famlia tem hoje dois sentidos.- o primeiro, que  um sentido 
fraco, designa o grupo de parentes mais ou menos prximos, que no coabitam, 
que podem estar dispersos no espao, mas que esto unidos por um sentimento 
mais ou menos forte de uma comunidade de sangue ou aliana. (    ... ).

Este sentido da palavra famlia no  apenas um resduo de um passado que 
tende a desaparecer.- a famlia extensa ou patriarcal das pocas antigas. 
Ele corresponde a uma


realidade do nosso tempo: uma rede de relaes e de entreajuda entre os 
casais recm-casados e os outros. Confiando nas observaes feitas em powos-
chave da Amrica do Norte podemos acreditar que estas redes eram 
sobrevivncias condenadas. Investigaes recentes (em Frana.- Agns Pitou, 
Louis Roussel; nos Estados Unidos: Tamara Haraven) mostraram que, pelo 
contrrio, elas correspondem a necessidades da sociedade contempornea, em 
particular ao enfraquecimento da sociabilidade, da vizinhana...

0 segundo sentido da palavra famlia , no entanto, mais forte, mais 
frequente e mais ingnuo.  o primeiro que nos vem espontaneamente  cabea. 
Designa a unidade muito fechada, formada pelo pai, a me (o casal) e os 
filhos. Subentende uma relao senti mental intensa entre estes elementos.

Tomada no segundo sentido, a palavra famlia toma-se invasora, e tende a 
substituir na linguagem comum as outras palavras vizinhas, por vezes 
sinnimas, o casal, a casa, a raa, linhagem, etc.  desta famlia que 
correntemente se diz, sem temer qualquer equ voco, que est ameaada, em 
crise, em mutao, etc.

Philippe Aris, La famille, Philosopher, Fayard, Paris, 1980

77

0 funcionalismo salienta as funes da famlia como a reproduo e a 
produo econmica. Dum modo geral,  unidade de reproduo e produo, mas 
este ltimo caso no  permanente, tal como se verifica nas sociedade 
primitivas.

Nas sociedades patrilineares o ncleo familiar mais restrito  a famlia 
conjugal, pai, me e filhos- a famlia alargada ou extensa corresponde, 
ento, a uma unidade de produo e inclui um ramo de avs e ainda os filhos 
e netos de todos os casais.

c

6

I@@5 -homem
0 -mu!her

-casamento -germanidade

ci) Famlia primitiva; b) famflia conjugal; c) famlia extensa

Na sociedade ps-industrial a famlia deixa de ser uma unidade de produo e 
torna-se, fundamentalmente, uma unidade de consumo e de reproduo 
biolgica.

A regra actualmente mais difundida no casamento  a do casamento monogmico 
- 2 cnjuges, um homem e uma mulher. Algumas religies e estados permitem, 
porm, o

casamento poligmico, que apresenta duas modalidades, sendo a primeira a 
mais comum: o casamento po11@Inico (um homem e vrias mulheres). Ao 
casamento de uma mulher com vrios homens chama-se polindrico.

ci) Tipo de casamento polignico; b) Tipo de casamento polindrico

Parentesco. Filiao e alianas matrimoniais, Sistemas de parentesco

Mais ainda do que a famlia, o parentesco  uma trama social que nunca 
corresponde a um comportamento biolgico: a explicao das mltiplas 
proibies que esto na base de todo o sistema de parentesco  marcadamente 
social. 0 ponto de partida para a organizao do parentesco  o interdito do 
incesto: ao renunciar aos direitos sexuais sobre a mae, irmas ou filhas, os 
homens de certa comunidade conferem~se direitos sobre as

mulheres de outras comunidades;  a troca de mulheres que passa a instaurar 
a troca social e econmica entre grupos exogmicos.

As primeiras formas de parentesco so matrilineares, organizam-se de acordo 
com a

famlia primitiva, privilegiando a famlia da me, e instaurando os direitos 
dos tios maternos. A forma patrilinear de parentesco - linha do pai -  
consequncia da adequao a

78

formas mais complexas das relaes sociais e da economia, com a criao de 
gado e a

agricultura; tal no obsta a que nas duas formas sejam sempre os homens a 
exercer o controlo de acesso s mulheres. Neste sistema a autoridade  
exercida pelo pai e pelo marido. H ainda sistemas de parentesco bilineares, 
repartindo-se a autoridade e certos direitos especficos, em funo dos bens 
distribudos, a representantes dos dois elementos do parentesco.

A filiao aparece ento como uma conveno social e os filhos no so 
necessariamente consanguneos - a prpria consanguinidade depende dos 
critrios sociais, pode ser atribuda a todos os parentes ou privilegiar 
alguns casos.

Nas sociedade arcaicas, as relaes de parentesco funcionam como relaes de 
produo, como relaes polticas, e determinam ainda uma configurao de 
tipo religioso, baseado nas genealogias.

0 parentesco  uma relao social; nunca coincide completamente com a 
consanguinidade, quer dizer, com o parentesco biolgico. Se o parentesco 
fosse considerado no seu sentido biolgico, cada indivduo teria, 
efectivamente, um nmero muito elevado de parentes; remontando ao passado, o 
nmero de parentes duplicaria em cada gerao (2 pais, 4 avs, 8 bisavs, 
etc.) e todos aqueles que descendessem de um ramo ou doutro de qualquer 
destes mltiplos pares de avs seriam, portanto, parentes em graus diversos. 
No fundo, e desde que se rebuscasse suficientemente longe, todos os membros 
duma dada sociedade (sobretudo quando pequenas) seriam, pois, parentes. 
Assim diludo, indiferenciado e generalizado, o parentesco no poderia ser 
uma base de classificao dos indivduos no seio de grupos de parentesco 
diferentes e at opostos e, consequentemente, no poderia ser um princpio 
de organizao social. (... ) Lvi-Strauss, especialmente, demonstrou que @ 
parentesco constitui um sistema organizado em redor de uma ---estrutura 
mnima- ou -tomo de parentesco-, de que as

alianas matrimoniais so, do mesmo modo que a filiao, um dado imediato. 
Com efeito, todas as sociedades conhecem a proibio do incesto. Esta 
proibio no  mai            .s do que o inverso negativo de uma exigncia 
positiva, de uma prescrI       .co uni.versal.-  preciso procurar mulheres 
fora do grupo dos parentes.

A obrigao de procurar o cnjuge fora do grupo de filiao (exogamia) toma, 
portanto, indispensvel o estabelecimento de relaes de parentesco atravs 
de alianas matrimoniais com outros grupos de diferente filia o. Como 
frisa CI. Lvi-Strauss (          ... ) a


proibio do incesto ---sipnifica que, na sociedade humana, um homem no 
pode obter uma mulher seno doutro homem que lhe cede uma filha ou uma irm-
--. 0 parentesco por alianas matrimoniais , portanto, um elemento exterior 
que se excerta no parentesco propriamente dito.  parte integrante do que se 
chama, geralmente, sistema de parentesco ou, se se quiser recorrer  
perspectiva estrutural delineada por CI. Lvi-Strauss, ---sistema de 
parentesco-alianas, entendendo-se que, sempre que se fala de parentesco- 
em geral, se incluem quer as relaes de filiao (relativas a um ascendente 
comum) quer as relaes de alianas matrimoniais (geradas pela necessidade 
de casamento fora do grupo de filiao). Por outras palavras, um grupo de 
filiao no pode existir e perpetuar-se a menos que entre em alianas 
matrimoniais com outros grupos de filaco que lhe forneam as reprodutoras 
(as esposas). Neste sentido, o parentesco, na acepo estrita do termo 
(laos de filiao),  funo do parentesco por alianas matri-

monlais. 

Marc Aug, Les domaines de Ia parent, Maspero, Paris, 1975

0 parentesco no  apenas uma organizao social,  tambm um cdigo 
ideolgico, chave para a interpretao de todas as sociedades, pois explica 
o funcionamento dos grupos sociais, os valores aceites e os comportamentos, 
mesmo que pouco explcitos.

0 parentesco s  transmitido por filiao unilinear (ou unilateral), ou 
seja, por um dos pais, com excluso do outro: se  o pai que transmite o 
parentesco, a filiao  patrilinear (ou agntica),- se  a me, a filiao 
 matrilinear ou uterina, e os filhos, no primeiro caso, pertencem ao 
parentesco do pai e, no segundo caso, ao parentesco da me. H tambm o tipo 
de filiao indiferenciada, a filiao cogntica, em que o parentesco tanto 
se transmite pelo pai como pela me, e a dupla filiao unilinear em que as 
filiaes unilaterais se justapem, regendo cada um dos parentes 
determinados direitos.

79

As estruturas de parentesco s perdem a sua posio dominante na vida social 
quando surgem as estruturas de classe.

Este estudo insere-se numa investigao levada a cabo sobre o sistema de 
parentesco existente em Chos, uma aldeia na regio da Beira Baixa, podendo, 
no entanto, os resultados apresentados serem considerados representativos 
para toda a regio. Ao longo deste trabalho proceder-se- a uma anlise do 
mecanismo social que, no quadro das relaes de parentesco, determina 
definitivamente a simetria ou a assimetria de relacionamento entre duas 
pessoas, atravs do tratamento por ---voc-oule do tratamento por tu _.

No contexto das relaes nterindvduas exteriores aos laos de 
parentesco, estes dois tipos de tratamento correspondem a dois tipos de 
comportamento determinantes no si .stema portugus de relacionamento: de 
deferncia, ou reserva, e de familiaridade. Tanto um como outro funcionam 
como formas de relao e de significao integradas em todos os nveis das 
relaes didicas. Assim que a crinca comea a aprendera falar, estabelece 
de imediato a distino entre o tratamento por ---voc- e o tratamento por
11 tu. A partir da, o emprego de uma ou de outra destas formas de 
tratamento decorrer sem que se verifique qualquer tipo de hesitao, se bem 
que, em determinadas situaes concretas, estas regras possam ser 
transgredidas intencionalmente.

Na Beira Baixa, a forma voclica de tratamento por ---voc -  feita atravs 
da utilizao do termo ---vossemec---. Trata-se de uma contraco de ---
Vossa Merc-, usada na ter~ ceira pessoa. 0 tratamento por ---tu-, como o 
nome indica,  feito atravs do termo ---tu-,
0 termo ---voc-, que  uma sequnda'con traco de ---vossemec-, utilizado 
como equivalente deste nos meios urbanos, representa, do ponto de vista 
regional, uma forma de tratamento descorts e depreciativo, que est 
inclusivamente mais prxima do tratamento por ---tu---.  atravs da 
utilizao do tratamento por ---voc- que se opera o desvio entre o 
tratamento por ---voc - e o tratamento por ---tu - em situaes de 
conflitos violentos, e no atravs do emprego do termo ---tu---. Temos assim 
que, face  especificidade deste tratamento e considerando no se tratar de 
uma forma operatria propriamente dita, no lhe ser feita qualquer refer 
ncia na enumerao dos diversos casos de desvio das regras de tratamento 
mencionados, no que diz respei        .to ao si.stema de relacionamento 
referente s relaes de parentesco.

Nas situaes de desvio das regras de tratamento, o desvio em relao ao 
contexto glohal do tratamento por ---voc- no se verifica pelas mesmas 
razoes que o desvio em relao ao tratamento por ---tu -. Com efeito, tratar 
por ---voc - algum que poderia normalmente ser tratado por ---tu ---pode 
significar o desejo de tomar mais evidente uma certa distncia social, no 
sentido de valorizar o interlocutor. Podemos assina,`ar, a ttulo 
exemplificativo, que o desvio relativamente ao tratamento por ---voc- 
(uti1i@Zado em vez do tratamento por ---tu-) remete, na maiorparte dos 
casos, para estratgias que tm mais a ver


com as caractersticas sociais do prprio interlocutor (estatuto, prestgio 
social, etc.) do que com as caractersticas individuais de ordem mais 
marcadamente psicolgica. Enquanto que tratar por ---tu- uma pessoa em 
relao  qual se deveria manifestar uma atitude de respeito - expresso pela 
utilizao do tratamento por ---voc- - exprime a vontade de marcar um 
distanciamento social de carcter negativo em relao  pessoa em questo. 0 
emprego do ---tu- em vez do ---voc-  feito de forma subtil e tende a e 
videnciar a subordinao do interlocutor, sem que isso implique 
necessariamente uma situao de conflito. Por outro lado, convm sublinhar 
que, contrariamente ao emprego do tratamento por   11 voc- no lugar do 
tratamento por ---tu- - que, conforme j vimos, surge frequentemente como 
consequncia da posio social do interlocutor - o

emprego do ---tu ---, em vez de ---voc ---, no caso j assinalado,  na 
maior parte das vezes mais individualizado, estando associado s 
caractersticas pessoais dos interlocutores e  sua histria 
interindividual.

Na Beira Baixa, a idade no constitui s por si um factor determinante capaz 
de conduzir sistematicamente ao tratamento por ---voc- ou por ---tu---. 
Esta situao tem a ver

com o pri.ncpio global, segundo o qual se deve exprimir um sentimento de 
deferncia em relao s pessoas mais velhas: ---no se falta ao respeito a 
quem  mais velho ---, e ainda como o facto de se considerar normal a 
adopo de uma relao de familiaridade face s pessoas mais jovens ou que 
se encontram na mesma faixa etria.- ---tratam-se por tu,,

80

quando se conhecem de garotos- ou ---no se tem o mesmo respeito com as 
pessoas mais novas como se tem com as pessoas mais velhas---. No entanto, 
este facto s em

parte se verifica. Porque, quer no contexto global social ou no quadro mais 
restrito das relaes de parentesco, podemos constatar que se, por um lado, 
a diferena de idades funciona em todos os aspectos como um factor que 
contribui para tratar por ---voc- as

pessoas mais idosas, nem sempre implica necessariamente o tratamento por ---
tu- em

relao aos mais novos.

No contexto social geral, exterior s relaes de parentesco, a atitude de 
respeito ou de reserva, que consiste em utilizar o tratamento por ---voc-, 
 obrigatria nos seguintes casos: em relao a pessoas estranhas  aldeia 
(excepo feita para as camadas mal       .s

jovens) ou a todos aqueles com os quais no existe qualquer lao familiar; 
e, ainda, de uma forma subjacente, em relao a todas as pessoas que possuam 
um estatuto social mais elevado, quer este esteja devidamente formalizado ou 
se] .a apenas de ordem moral ou de prestgio. Relativamente ao tratamento 
por ---tu-, esta forma est reservada a todas as pessoas que pertenceram a 
uma mesma gerao e que cresceram juntas, e s geraes seguintes.

No quadro das relaes de parentesco, o tratamento por ---voc-  
obrigatrio para om ospais (paie me) e os avs. Da mesma forma,  costume 
tratarpor ---voc- todos os restantes parentes consanguneos das geraes 
anteriores  do interlocutor, assim como os seus cnjuges, o padrasto e a 
madrasta, o sogro e a sogra. Neste ltimo caso, o

tratamento por ---voc-  recproco. No enquadramento da mesma gerao, 
tratam-se normalmente por ---tu- os parentes mais chegados, os primos e o 
respectivo cnjuge. Mas j se adopta o tratamento por ---voc- em relao 
aos cnjuges dos parentes mais prxi.mos e aos pri.mos, aos parentes mai.s 
chegados do cnjuge e aos prprios cnjuges, assim como ao pai e  me do 
genro ou da nora. Em todos estes exemplos, as frmulas referentes ao 
tratamento por ---voc- e por ---tu- so recprocas. No que diz respeito s 
geraes seguintes,  usual tratar por ---tu- todos os descendentes em linha 
directa, o enteado e a enteada, embora os respectivos cnjuges sejam 
normalmente tratados por
11 voc. Tambm se d o tratamento por ---tu- aos sobrinhos e s sobrinhas 
consanguneos e por afinidade, assim como aos respectivos filhos, 
utilizando-se o tratamento por
11 voc- em relao aos seus cnjuges. Ao longo dos exemplos apresentados, 
as formas de tratamento no so recprocas, com excepo para o caso dos 
cnjuges de sangue e

por afinidade. Todos os restantes familiares mai.s prxi.mos do cnjuge e os 
respectivos cnjuges se tratam reciprocamente por ---voc---. E isto 
independentemente de quaisquer critrios baseados na idade ou na gerao.

De modo geral, podemos afirmar que se tratam por ---tu- todas as pessoas que 
cresceram juntas e fazem parte de um mesmo grupo.


No seio da mesma gerao, as formas de tratamento so geralmente recprocas, 
excepto quando se verifica uma grande diferena de idades que d origem a um 
distanciamento que, por sua vez, se traduz no uso do ---voc---. Este caso 
pode dar-se inclusivamente com parentes muito chegados, como, por exemplo, 
com os primos direitos, fazendo com que os mais novos tratem os mais velhos 
por ---voc- e que os mais velhos tratem os mais novos por ---tu---. Mas 
tambm se pode dar o caso de se estabelecerem relaes mais reservadas entre 
adultos aparentados de uma mesma gerao - querpertenam ao mesmo grupo 
etrio ou tenham idades diferentes - o que se pode ficar a dever a razes de 
vria ordem: mudana de.estatuto social, falta de contactos, etc. Da 
resulta uma mudana nos comportamentos adoptados, que conduz geralmente ao 
uso

recproco do tratamento por ---voc---. Estas modificaes verificadas na 
forma de tratamento, que podem ocorrer ao longo da existncia dos indivduos 
parecem obedecer a

factores relacionados com um forte empenho em melhorar as relaes 
interindividuais.

Podemos assim constatar que  costume tratar por ---voc- todos os parentes 
(excepo feita para o cnjuge e para os filhos dos parentes mais chegados 
do cnjuge), quer sel.am parentes de sangue ou por afinidade - e, neste 
ltimo caso, independentemente da diferena de gerao ou de idades. 
Consequentemente, a gerao ou a diferena de idades nem sempre implicam o 
tratamento por ---tu-, funcionando sempre, no entanto, no caso do tratamento 
por ---voc---. Dito de outra maneira, podemos afirmar que a reci-

procidade de tratamento no se verifica em relao aos consangulneos das 
geraes se-

guintes ou aos respectivos cnjuges, nem em relao aos consanguineos das 
geraes anterlores.

81

Em contrapartida, verificamos que o tratamento  recproco: aquando do 
tratamento por ---tu- no seio de uma mesma gerao consangunea, atravs do 
tratamento por
11 voc- entre o ---ego - e os cnjuges dos respectivos consanguineos 
pertencentes a geraes anteriores, por um lado, e aos consanguneos do 
cnjuge e aos respectivos cnjuges, por outro (excepto, conforme j vimos, 
no caso dos filhos dos parentes mais prximos do cnjuge a que o ---ego - d 
o tratamento de ---tu-, ao contrrio do que acontece com os respectivos 
cnjuges). Assim, quando se trata de graus de parentesco por afinidade, o 
tratamento por ---voc-  recproco, independentemente do critrio de 
gerao, enquanto o tratamento por ---tu-  recproco apenas no espao de 
uma mesma gerao.

Podemos afirmar, em jeito de concluso, que o critrio da diferena de 
idades no  decisivo, em relao  forma de tratamento por ---voc- ou por 
---tu-, nos casos dos parentes consanguineos das geraes seguintes. Num 
certo nmero de casos, as pessoas de geraes e de idades diferentes tratam-
se por ---voc- umas s outras.  o que sucede com o cunh   ado ou cunhada e 
com o genro ou a nora. Ao passo que, no que diz respeito, por um lado, s 
relaes de parentesco consanguneo ascendente - incluindo os cnjuges - e, 
por outro, s relaes de parentesco consanguneo descendente -

com excluso dos cnjuges - se verifica a interveno do factor gerao 
dando origem a formas de tratamento no recprocas: tratamento por ---voc-
lpor ---tu---.

Mas se o critrio de gerao parece estar efectivamente na base da 
reciprocidade e da no reciprocidade das frmulas de tratamento adoptadas 
entre familiares, este factor de correlao s pode ser definitivamente 
determinado quando o momento em que se estabelece o lao de parentesco entre 
dois indivduos corresponde a uma das seguintes correlaes entre geraes: 
criana Icriana, adultolcriana, adultoladulto.

Com efeito,  no momento em que  forjado o grau de parentesco que se 
determina em definitivo a simetria ou a assimetra de relacionamento entre 
duas pessoas, atravs do uso de ---voc- oule do ---tu---. A relao inicial 
criancalcriana gera inequivocamente a reciprocidade do tratamento por ---
tu- e a relao inicial adultolcriana d origem, de forma decisiva,  no -
reciprocidade ---voc-l-tu- entre os indivduos em questo. 0 que acontece  
que o primeiro caso evocado reflecte a situao dos parentes prximos e dos 
primos da mesma gerao; o segundo reproduz a relao dos parentes de sangue 
pertencentes a geraes anteriores e dos respectivos cnjuges, relativamente 
aos parentes de sangue de geraes seguintes e aos filhos dos familiares 
mais chegados ao cnjuge. Mas, nos casos em que o grau de parentesco se 
estabelece inicialmente entre dois indivduos j em idade adulta - quer 
pertenam ou no  mesma gerao ou tenham idades aproximadas - o tratamento 
por ---voc   11 ser, ento, sem excepo, a forma adoptada por ambas as 
partes.


Entre outros casos, o dos sobrinhos e sobrinhas por afinidade, por um lado, 
e o dos respectivos cnjuges, por outro, ilustram claramente o facto de o 
tipo de relacionamento depender da relao de idades referente ao ciclo de 
vida crianaladulto, que corresponde  fase inici.al em que se estabeleceu o 
grau de parentesco entre dois indivduos. De facto, mesmo quando os 
sobrinhos e as sobrinhas (em primeiro grau e em segundo grau) pertencem  
mesma gerao dos respectivos cnjuges e esto igualmente distanciados em 
relao aos tios ou ti  .as, a forma de tratamento adoptado para com esses 
parentes da gerao seguinte no  a mesma.- os filhos dos parentes chegados 
e os filhos dos parentes mai  .s prximos do cnjuge tratam-se por ---tu- de 
um modo recproco, enquanto os respectivos cnjuges se tratam reciprocamente 
por ---voc---.  de assinalar que, nestes mesmos casos, os laos entre tio 
- ou tia - e sobrinho - ou sobrinha -

(em primeiro ou segundo grau) foram estabelecidos numa altura do ciclo de 
vida em que entre eles existia uma relao adultolcriana, enquanto na 
primeira categoria enunciada a relao de parentes com os cn]    .uges da 
segunda foi determinada pelo contexto de uma relao adultoladulto (ver 
diagrama). Pudemos, alis, constatar que esta mesma regra se aplicava aos 
casos, de resto absolutamente excepcionais, em que os laos que unem o tio - 
ou tia - aos sobrinhos e s sobrinhas respectivos, foram estabelecidos numa 
fase em que estes ltimos eram j adultos. Nos casos observados, os tios e 
as tias davam o tratamento por ---voc- aos sobrinhos e sobrinhas 
respectivos, os quais teriam, no entanto, sido tratados por ---tu- se fossem 
mais novos.

Por outro lado, a norma de relao de idade referente ao momento em que se 
estabeleceram os laos de parentesco torna-se ainda mais evidente se 
recorrermos  seguinte

82

constatao.- se bem que os padastros e as madrastas tratem por ---tu- os 
seus enteados sempre que a sua relao teve incio bastante cedo, verifica-
se que recorrem ao tratamento por ---voc- quando a definio das suas 
relaes de parentesco ocorre numa idade j adulta.

Quadro dos comportamentos relativos ao tratamento por voc e por tu

Grau de parentesco

Colateralidade

Nveis gerais

Voc

Tu

R

NR

Concluso

Parentes em

Linha de

1

1. grau de

descendncia

consanguneos

directa

Tratamento

1 .

-1

por ---voc-

2.-

-1

recproco

1 o

2

i + i

Consanguneos

Linha de

2.4.4. 0 CONTROLO SOCIAL

A organizao poltica e formas de poder poltico

Os animais podem ser sociveis e agressivos.  primeira vista, este facto 
parece difcil de harmonizar, pois se o congnere para alm dos impulsos de 
aproximao pode despertar ao mesmo tempo outros de rejeio, isto parece 
provocar um conflito irresolvel. Na realidade, todos os ani .mai.s que 
vi.vem em agrupamentos fechados tm de se con-

frontar com esta problemtica, e seria necessria uma srie de invenes 
para resolver este problema. Entre outras coisas teriam de ser inventados 
rituais de apaziguamento e de vinculao.      Observando os animais 
sociveis verificamos que a maioria dos seus n .tuai.s servem ao 
apaziguamento do mesmo modo que entre ns o sorriso. Eventuais situaes de 
tenso so despoletadas por meio de gestos amistosos. (        ... ) Ns, 
seres

humanos, temos ainda o hbito de suavizar o impacto de notcias 
desagradveis com

desculpas ou gestos amistosos. 0 apaziguamento da agressivdade  uma tarefa 
central dos rituais sociais. (...)

Na verdade h um forte impulso para a sociabilidade, que nos  inato. Todos 
estes mecanismos de vinculao ao grupo so filogeneticamente muito antigos 
e tudo parece confirmar que se desenvolveram mo em mo com os cuidados para 
com a prole. Com esta inveno as aves e os mamferos adquiriram, 
independentemente uns dos outros, a capacidade de prestar apoio mtuo e, 
assim, de formarem agrupamentos altrustas, que disputam em conjunto a luta 
pela sobrevivncia.

0 apoio mtuo adquire deste modo um papel cada vez mais significativo na 
evoluo dos organi .smos superiores. Dos agrupamentos familiares nasceram 
as grandes famlias, as hostes, e por fim os agrupamentos annimos fechados 
dos mamferos e dos seres humanos. Os meios de vinculao permaneceram, no 
fundo, sempre os mesmos e derivam quanto  sua origem essencialmente do 
reportrio dos tipos de comportamento que vi.nculam me-filho. A relao 
me-filho foi filogeneticamente, e  no desenvolvimento individual, o centro 
cristalizador de toda a vida social. (... ) Atravs da relao pessoal me-
filho desenvolvem os seres humanos a confiana original sobre a qual se 
desdobra a nossa atitude socivel fundamental e, assim, de um modo geral, a 
capacidade para o engagement social.

Resumindo, podemos verificar que h acima de tudo normas inatas para o nosso 
com~

portamento tico. Em toda a parte  considerado assassinato, por exemplo, 
quando se

mata uma pessoa com a qual se est relacionado. Aquilo que vincula as 
pessoas  que van.a de cultura para cultura.

lrenaus Eibl-Eibesfeidt, ob. cit.


As normas que orientam a sociedade, controlando o comportamento individual e 
colectivo - tal como os valores primeiros constitudos a partir da dualidade 
agressividade /sociabilidade - tm uma componente biolgica que evolui a 
partir do comportamento social dos mamferos superiores, mas surgem 
fundamentalmente como normas culturais, variando de cultura para cultura, de 
acordo com as condies histricas.

Na base, mantm-se a necessidade de controlar a agressividade dos elementos 
do grupo, que possam, eventualmente, pr em risco a sua manuteno. No 
entanto, a prpria sobrevivncia da comunidade obriga a que se canalize a 
agressividade dos seus membros para um objectivo comum e, na realidade, o 
estado quase permanente da comunidade primitiva  a guerra. Internamente 
permite-se qua a agressividade resida em

elementos escolhidos como o chefe, os guerreiros e, dum modo geral, nas 
instituies especializadas.

0 controlo social  o conjunto de meios ou processos pelos quais uma 
determinada comunidade impe aos seus membros um certo nmero de regras de 
conduta de acordo com os princpios e valores que esse grupo considera 
socialmente aceitveis.

As instituies que se responsabilizam pela produo e circulao de normas 
de controlo social so a Moral (normas de vida em comum, segundo a prtica 
do autodenominado Bem), o Direito, a Justia e o Estado.

84

Tendo como esprito orientador a Moral, o Direito define as normas que 
estabelecem o

enquadramento social de cada um, estabelecendo-lhes direitos e deveres. 
Moral, Justia, Direito e, posteriormente, o Estado derivam todos eles da 
dvida de sentido que a

comunidade sente em relao com o sobrenatural, pois todas as comunidades se 
sentiram sempre incapazes de admitir a criao das suas normas no interior 
do grupo, preferindo admitir a interveno sobrenatural dum demiurgo 
lendrio, dum deus ou esprito, para com o qual a sociedade se sente em 
dvida.

0 Estado

A ideia que gostaramos de desenvolver aqui, , com efeito, a de que a 
chave do problema do Estado se deve procurar do lado das raizes profundas do 
facto religioso. Compreender por que razo os homens se afirmaram 
universalmente devedores, porque  que as sociedades pensaram obstinadamente 
que as suas razes de ser dependiam de outra coisa que no deles prprios,  
compreender porque foi possvel o Estado num dado momento do devir humano-
social.

Marcel Gauchet, A divida do sentido e as razes do Estado, in Guerra, 
Religio e Poder Ed. 70

Nas sociedades arcaicas de tipo totmico, os homens tinham plena conscincia 
do perigo da centralizao do poder nas mos de um chefe. Para o evitar 
criaram prticas que, se por um lado instituam o poder num chefe, por outro 
o anulavam constantemente. A comunidade primitiva tem j definido o seu 
territrio, fixo ou mvel, isto , possui uma unidade poltica e o uso 
exclusivo desse espao - o que em contrapartida determina o espao poltico 
dos seus vizinhos.

Nesse espao reservado, a comunidade  independente e senhora de si prpria, 
 indivisa, pois todos os indivduos sabem fazer tudo, no h hierarquia de 
posse, quer material quer de saber,- poder-se-ia dizer que na sociedade 
totmica todos os elementos so iguais pois todos participam do poder e 
caractersticas do seu totem: so irmos, so uma fratria. A comunidade 
primitiva  simultaneamente totalidade e unidade e ope-se a que algum dos 
seus membros a represente e a controle, assumindo-se como unidade, 
representante do todo. Por isso, a filosofia dos primitivos atribui ao chefe 
quatro funes, das quais apenas uma delas lhe proporciona, eventualmente, 
um certo poder:

1. - 0 chefe  o fazedor da paz, rbitro que concilia e reconcilia os 
elementos do grupo usando da sua capacidade de oratria - motivo pelo qual 
foi elegido como chefe.

2. - 0 chefe  generoso, tem como obrigao distribuir todos os bens que 
produz ou recebe- sistematicamente submetido a pilhagem pelos membros do 
grupo  o que menos bens possui.

3. - 0 chefe tem o dom da palavra. Esta funo, que surge teoricamente como 
fundamental, resulta completamente intil na prtica pois, se o chefe tem 
necessariamente de perorar sobre todos os acontecimentos, o grupo no tem 
obrigao nem interesse em ouvi-]o - o que pratica ostensivamente. Assim -
lhe negada a possvel coercividade do discurso. De resto, no tendo qualquer 
outro poder a servir o poder do discurso, este no se materializa.


4. - 0 chefe tem o direito a quatro mulheres, polgamo; tendo mais mulheres 
que qualquer outro elemento do grupo,  o dono das mulheres. Esta nica 
concesso que a comunidade lhe oferece, tem como contrapartida o usufruto do 
trabalho suplementar efectuado pelas mulheres do chefe - o que significa 
para a comunidade um acrscimo colectivo de bens, pois os bens do chefe so 
redistribudos pela sociedade. 0 chefe, em

tempos de crise alimentar, torna-se o nico responsvel pelo grupo que 
praticamente deixa de trabalhar esperando ser mantido pelo trabalho do chefe 
e das suas mulheres.

Assim, na sociedade primitiva as mulheres so o preo que a comunidade paga 
por um exerccio, de resto no-coercivo, do poder; mas mesmo este facto 
surge como um inves-

timento de que o grupo tira dividendos.

As sociedades primitivas? 0 que so? So sociedades sem Estado. 
Forosamente falar de sociedades sem Estado  ao mesmo tempo enunciar as 
sociedades com

Estado... A ausncia de Estado nas sociedades primitivas no  uma falta, 
no acontece por elas estarem na infncia da humanidade e portanto, 
incompletas, ou por no serem

85

suficientemente grandes, adultas, maiores,  pura e simplesmente porque elas 
recusam o Estado em sentido amplo, Estado definido na sua figura minimal que 
 a relao de poder. Por isso, falar das sociedades sem Estado ou das 
sociedades contra o Estado,  falar das sociedades sem Estado, forosamente; 
a passagem propriamente no existe, ou ento   partida possvel; e a 
questo que se entronca nesta : donde sai o Estado, qual  a origem do 
Estado?       0 primeiro acto do homem de poder  exigir um tributo, um 
tributo daqueles sobre quem exerce o poder.                          1

Dir-me-eis ento.- Porque obedecem eles ? Porque pagam o tributo ? E esta 
 a questo da origem do Estado, precisamente. No sei muito bem mas h na 
relao de poder algo que no  apenas da ordem da violncia. Isto seria 
demasiado fcil porque resolveria imediatamente o problema! Porque  que h 
Estado? Porque num dado momento, num ou noutro lado, um tipo ou um grupo de 
tipos dizem.- Ns temos o poder e vocs vo obedecer. Mas aqui podem 
passar-se duas coisas: ou os que ouvem dizem sim,  ver-

dade, vocs tm o poder e ns vamos obedecer-vos, ou ento no, no, vocs 
no tm o poder e a prova  que no vamos obedecer e podero tomar os 
outros por malucos ou mat-los. Ou se obedece ou se no obedece,- e  
preciso que tenha havido este reconhecimento do poder para o Estado aparecer 
aqui    .e acol, nas diversas sociedades. De facto a questo da origem 
desta relao de poder, da origem do Estado, desdobra-se no

sentido em que existe uma questo a partir de cima e outra a partir de 
baixo.-

A questo de cima .- o que  que faz com que algures, num dado momento, um 
ti;0o diga sou eu o chefe e vocs vo obedecer?  a questo do topo da 
pirmide.

- A questo de baixo, da base da pirmide, : porque  que a gente aceita 
obedecer, se no  um tipo ou grupo de tipos que detm uma fora e 
capacidade de violncia suficiente para fazer reinar o terror no mundo. 
Portanto,  porque h outra coisa; esta aceitao da obedincia remete a 
outro lado. No sei muito bem a qu; sou pesquisador, por tanto pesquiso. 

Pierre Ciastres, Entrevisla, 1974

Determinar os factores que esto na origem do Estado  um dos problemas 
fundamentais das cincias do homem. A perspectiva biologista situa esse 
problema na disposio filogentica para a obedincia e lealdade.

A obedincia  autoridade foi e  em diversas culturas um valor tico. 
Ainda hoje as ordens espirituais exigem uma sujeio cega e a disposio de 
Abrao de matar o seu filho paira ainda sobre a nossa cultura ocidental como 
um smbolo de terror. Apesar de tudo a obedincia cega  autoridade  
recusada cada vez mais. (     ...)

Contudo, at nas culturas em que este ideal  defendido toma-se possvel, em 
condi-


is, que a disposio da obedincia se imponha  compaixo. Milgram comes 
especia provou-o atravs de uma srie de experincias notveis. Convidou 
pessoas de diferentes grupos profissionais a participarem numa experincia 
fictcia. Foi dito aos convidados que se pretendia examinar, atravs de 
determinadas experincias, a influncia de estmulos punitivos sobre o 
processo de aprendizagem. A seguir foi-lhes mostrada uma pessoa que, num 
quarto vizinho, se encontrava amarrada numa cadeira e em cujos braos 
estavam colocados elctrodos. A tarefa destas pessoas consistia em 
transmitir choques elctricos punitivos, atravs de um aparelho que se 
encontrava num quarto vizinho, sempre que o indivduo amarrado cometesse um 
erro, tendo-lhe sido dito que a intensidade do choque aumentava de erro para 
erro. Para este efeito, o aparelho dispunha de uma escala de trinta botes, 
marcados de quinze a quatrocentos e cinquenta volts. Os ltimos botes 
tinham ainda a marca de perigoso. Quando um grupo de pessoas foi 
interrogado sobre o desfecho desta experincia foram todas unnimes em dizer 
que quase nenhuma delas iria ao ponto de utilizar o ltimo grau da 
estimulao. Tinham a certeza que se oporiam a isso. Apenas 0, 1 por cento 
declarou que executariam obedientemente a expenencia at ao fim. A realidade 
divergiu assustadoramente desta previso de ndole cultural. Apesar do 
aumento da intensidade dos choques ser acompanhado por queixu~ mes 
transmitidos por um gravador do quarto contguo (est-me a doer, no 
aguento mais, etc.), 62,5 por cento das pessoas obedeceram s indicaes do 
orientador da experincia. Aquelas que obedeciam entravam claramente num 
conflito interno ( ... )acabando por propor ao orientador que terminasse a 
experincia. No entanto, quando este retorquiu que deviam prosseguir, 
faziam-no, rindo histericamente e acentuando que

86

no se responsabilizavam pelo que pudesse suceder.          A disposio 
para obedecer diminua com a ausncia da autoridade. (    .. ) As 
experincias de Milgram provam que muito provavelmente as disposies inatas 
se sobrepem s impregnaes culturas., A tendncia de obedecer revelado 
nestas experincias  uma inclinao perigosa do homem.

1. Eibi-Bibesfeidt, ob. cit.

De qualquer modo interessa saber o processo utilizado pelos chefes para 
assumirem a mediao entre o sobrenatural, que era pertena do grupo atravs 
da vivncia totmica, e a comunidade; saber como os chefes se tornaram 
mandatrios do sobrenatural, que passa a residir neles, quer como familiares 
do deus, quer como porta-vozes das suas decises e interesses. 0 Estado s 
pode surgir quando a comunidade deixa de ser indivisa, isto , quando a 
sociedade se divide entre os que executam o poder e aqueles que o sofrem. 0 
Estado surge, ento, como rgo separado do poder poltico, numa sociedade 
fragmentada.

A sociedade conservou-se indivisa num territrio rodeado por outras 
comunidades igualmente indivisas e todas de pequenas propores 
demogrficas; a sociedade totmica nunca pode crescer excessivamente pois 
arrisca perder a totalidade e a unidade e da a sua recusa a inovaes e ao 
Estado que ponham em risco o equilbrio entre os pequenos grupos indivisos 
continuamente em guerra.  a guerra - o facto da comunidade primitiva ser 
uma sociedade para a guerra (P. Clastres) que faz dela uma sociedade sem 
estado, pois este  contra a guerra, que leva sempre a uma constante 
disperso.

Mas, a comunidade primitiva contm em si a estrutura que determina o Estado: 
a religio. A religio e o estado so processos de ordenao e 
inteligibilidade sobre a sociedade, A sociedade no se concebe sem uma 
origem exterior - um exterior no-humano, necessariamente superior, pois 
nenhum homem admite um outro como capaz dessa criao. A religio tem como 
fundamento o sentido da criao da sociedade,- do mesmo modo o Estado. A 
exterioridade do fundamento social precede o Estado e a religio. Tornam-se 
fundamento da Lei que tambm se aceita como exterior. Esse exterior  o 
sobrenatural, a origem: a origem da lei, do saber, da unidade totmica; ser 
tambm a origem do poder absoluto. A sociedade est pois em dvida para com 
o sobrenatural que a criou. A religio surge para gerir essa dvida: o 
Estado insinuar-se- nessa gerncia, quando se torna o garante da Lei e do 
sagrado. No podendo apropriar-se do que  inaproprivel enquanto exterior, 
enquanto saber, o chefe e o Estado tornam-se o saber. 0 Estado defi- ne-se 
ento como uma instituio de controlo porque  o intrprete, o que sabe, 
numa sociedade que extravasou do territrio e que, crescendo numericamente, 
permitiu o seu aparecimento.

No Estado h um territrio que engloba uma sociedade e uma cultura e ainda, 
especificamente, uma ordem jurdica aceite e aplicvel aos habitantes desse 
territrio; com o Estado, o Direito define-se como controlo social de tipo 
progressivamente lai           co, enquanto  nele que passam a residir 
certos rituais sacralizantes que lhe permitem aparecer como o intrprete da 
dvida de sentido para com o sobrenatural.

A vontade, a responsabilidade, o poder,  algo de louco, de perigoso e, 
hoje, de irrsrio.  o que os deuses enviam  raa dos homens para os 
perder. As massas, desde a mais antiga mitologia e a mais antiga histria, 
deixaram sempre, atravs de uma ironia secreta que os heris se 
precipitassem como vtimas expatrias, saboreando o espect~ culo da sua 
morte.


Jean Braudiliard, La gauche divine, Grasset, 1985

As hierarquias e as categorias sociais

Logo que as relaes sociais ultrapassam as relaes de parentesco, 
intervm entre os indivduos e os grupos numa competio mai       .s ou 
menos aparente.- cada um visa orientar as decises da colectividade no 
sentido dos seus interesses particulares. 0 poder poltico surge, em 
consequncia, como um produto da competio e como meio de a conter.

87

0 poder - por muito difuso que seja - implica uma dissimetria no seio das 
relaes sociais. Se estas se estabelecessem na base de uma perfeita 
reciprocidade, o equilbrio social seria automtico e o poder estaria 
condenado a definhar. (       ...)

0 poder refora-se com a acentuao das desigualdades, que so condio da 
sua manifestao, tal como ele  condio da manuteno delas. Assim o 
exemplo das sociedades primitivas que j foram qualificadas de 
igualitrias revela, simultaneamente, a generalidade do facto e a sua forma 
mais atenuada. Segundo o sexo, a idade, a situao genealgica, a 
especializao e as qualidades pessoais, estabelecem-se nelas preemi 
.nnci.as e subo@dinaes.

G. Balandier, Antropologia Poltica

Outro factor que determina, em paralelo, o fortalecimento do poder do estado 
e as hierarquias sociais  a necessidade dos trabalhos colectivos, 
nomeadamente na construo e nos trabalhos agrcolas. De qualquer modo, as 
hierarquias sociais s se concebem dentro do binrio Estado /hierarquias 
sociais, aspecto que se refora com a conquista de territrios e a 
instaurao de classes ou castas dominantes sobre os povos vencidos, 
habitualmente povos agricultores. Todos estes factores permitem a 
progressiva dessacralizaco do poder, que deixa de necessitar do fundamento 
religioso.

As sociedades primitivas no concebem a ordem como obra de um poder nico, 
mas como uma reunio de diversidades. Com frequncia as suas cosmogonias 
ensinam que ao caos inicial se sucedeu a separao dos contrrios, luz e 
trevas, terra e gua, e apresentam a ordem como a fora que liga esses 
contrrios, mantendo-os a um mesmo tempo diferentes e complementares. No 
pensamento mtico parece tambm que a ordem teve necessidade de divises 
para reinar. A unidade  politnia, conjugao de vozes mltiplas. A 
autoridade pertence aos chefes que exercem o poder, mas tambm a conselhos, 
a sociedades ocultas, a associaes conhecidas, a orculos, a classes de 
idade, a linhagens rigorosamente disti   .ntas mas encadeadas umas nas 
outras por regras tradicionais. (...)

Nas sociedades compostas por linhagens para alm das quais no h chefe 
comum, e que por essa razo so chamadas acfalas, segmentadas ou 
atomsticas, esse equilbrio deve-se ao papel dos chefes de linhagem 
reunidos em conselho e resolvendo as even- @uais contestaes, ao dos 
responsveis pelas cerimnias e ritos da comunidade, as mscaras por 
exemplo, ao das classes de idade, etc., que se encadeiam indefinidamente. As 
autoridades equilibram-se entre si.


Nas sociedades submetidas a uma chefia, o poder do rei ou do chefe depara-se 
com inmeras autoridades, sem as quais no pode existir nem exercer. Uma vez 
designado, o rei no pode todavia exercer o poder sem ter em conta todas as 
autoridades que se exercem sobre a sociedade.- conselhos, autoridades 
religiosas, orculos, senhores da terra, chefes e grupos militares, 
assembleias populares, sociedades secretas, associaes conhecidas, classes 
de idade, linhagens, etc., de que as mltiplas vontades so outros tantos 
freios ao que doutra forma se arriscaria a ser o arbitrrio real. Nas 
sociedades primitivas em que existe um poder central, as autoridades fazem 
um contrapeso ao poder. ( J  nas sociedades em que a natureza do poder  
principalmente religiosa que a autoridade pode tender a concentrar-se nas 
mos do detentor do poder. 0 rei do Egipto, vigrio de Deus, ele prprio 
Deus, Agammnom, os reis cristos, esto investidos de uma autoridade 
demasiado ligada ao eterno para no tender a tornar-se no arbitrria, 
porque limitada pela lei religiosa que a funda. (... ) As sociedades 
modernas confundem facilmente unidade e uniformidade. 0 seu ideal  suprimir 
as diferenas,  a igualdade dos indivduos em direitos e deveres. 0 Direito 
visa estabelecer essa igualdade.

 diferente nas sociedades primitivas, como vimos, pois elas no concebem a 
ordem como uma uniformidade mas como uma reunio de diversidades. Acham-se 
compostas de tribos, de castas, aldeias, linhagens, rigorosamente distintas, 
mas encadeadas por interditos e por alianas.

Deste ponto de vista, e contrariamente ao que por vezes  ensinado, a 
indiferenciao no caracteriza as sociedades primitivas, ela  o ideal das 
sociedades modernas.

A aculturao jurdica faz passar as sociedades de um estado diferenciado, 
mas coerente, a um estado indiferenciado. (    ... )

Michei AiIo@, LAcculturation Juridique, Encyclopdie de Ia Piiade

As categorias sociais existem, pois, em todas as sociedades conforme as 
especializaes, as idades, o sexo e a funo. Porm, as hierarquias sociais 
implicam a existncia dum poder que as perpetue ou garanta. Na sociedade 
primitiva h categorias sociais, mas no hierarquias.

As hierarquias sociais surgem, j nos povos primitivos por conquista - do 
poder ou do territrio. Estas hierarquias primitivas apresentam-se quase 
sempre como castas e os mitos podem surgir para lhes garantir o domnio.

Lvi-Strauss estudou a partir de 1941 grupos brasileiros do Mato Grosso. Um 
desses grupos, os Caduveo so descendentes de um povo, os Mbayas, que se 
organizavam em

castas: no cume da escala social os nobres, divididos em nobres hereditrios 
e recentemente enobrecidos e, ainda, em ramos mais velhos e ramos mais 
novos. Seguiam-se os guerreiros, os escravos e os clientes. Os nobres faziam 
ostentao da sua qualidade atravs de requintadas pinturas do corpo que 
representavam brases, fundamentavam a sua importncia social e o seu 
parasitismo econmico sobre os clientes e os escravos no mito do povo a que 
pertenciam. Na realidade, o deus-criador tinha distrib udo pelos grupos as 
suas funes sobre a Terra e esquecera-se deles. Atribuira-lhes, ento, a 
funo de comandar e dominar a humanidade. 0 mito mantinha-se nos seus 
descendentes apesar da importncia social ter diminudo, mantendo ainda 
escravos para se manterem. A necessidade de limitar esta hierarquia 
obrigava-os a praticar vulgarmente o aborto e o infanticdio, recolhendo e 
adoptando crianas de outros povos que no acediam, naturalmente,  mesma 
casta dos pais adoptivos.

Em muitas espcies superiores existem hierarquias; no homem elas precisaro 
de um

enquadramento humano para subsistirem ou se desenvolverem, o poder 
simblico, pois a simples fora  insuficiente.

Um acto de violncia pode criar hierarquias sociais quando as sociedades 
totmicas deixam de ser indivisas, surgindo as castas em funo da 
conquista; porm,  o fundamento simblico do poder que permite a sua 
manuteno; um dos fundamentos das hierarquias sociais  o saber, porm o 
saber terico e no o saber tcnico que a civilizao subalterniza. 0 mito 
ou a ideologia encarrega-se de garantir a sobrevivncia das hierarquias, 
verdadeiras extenses do Estado no controlo das populaes.

89

A propriedade

Na base do conforto moral e fsico do homem encontra-se a percepo 
puramente animal do permetro de segurana, do refgio fechado (Leroi-
Gourhan); quando o homem se apropria do espao, f-lo, sempre que possvel, 
em termos de gratificao individual. A propriedade mal existe na sociedade 
totmica onde a distribuio dos bens  a regra;  colectiva nas sociedades 
de linhagens, pertencendo a famlias ou linhagens. , porm, um sinal do 
poder quando o controlo sobre a propriedade fsica se alarga para os homens 
que a cultivam. A civilizao traz consigo o regime de clientela que 
trabalha em condies variveis a terra que pertence a outros. A deteno da 
propriedade surge, assim, como um controlo social, pois determina o destino 
da mo-de-obra e permite a existncia de grupos sociais parasitrios de 
outros grupos a nvel de trabalho. Mais do que qualquer outro, o direito de 
propriedade  o ncleo de todo o Direito do homem.

Uma aldeia huambo, no Congo. Os huambo so agricultores; cultivam, 
temporariamente uma parcela de floresta abatida em conjunto e transformada 
em clareira; cada famlia, de acordo com as regras da linhagem, obtm uma 
parcela que cultiva;  sua enquanto permanecem na clareira. Mas,   
linhagem que compete a alimentao colectiva quando o rendimento individual 
falha. 0 dispositivo de controlo social - os velhos, representantes da 
linhagem - utilizam o sistema de propriedade para manterem o controlo 
social.

PO

Proucl'hon. Utpico francs que criou os fundamentos da contestao  
manuteno da propriedade, de acordo com a sua divulgada frase: A 
propriedade  um roubo. As grandes contestaes populares assentam sempre 
na negao do direito  propriedade, habitualmente, sob o slogan: A terra a 
quem a trabalha,

90

A educao

A educao permite a reproduo social da cultura e dos papis sociais. 
Desde o seu aparecimento que a sociedade tem de criar mecanismos de 
transmisso de cultura; nas sociedades primitivas esse papel era destinado 
aos mais velhos, homens e mulheres.

Quando se d a privatizao da propriedade e com ela a privatizao da 
famlia, a sociedade j organizada pelo Estado cria instituies de 
reproduo cultural que j sur-

gem como instituies de reproduo soial, j.que a cultura passa a ser 
distribuda em fatias, distribuindo paralelamente as funes sociais que 
iro corresponder a cada um, de acordo com a competncia.

Nas sociedades primitivas e ainda nas de linhagens, a educao social 
termina com o rito de passagem, a ltima prova ou provas que o adolescente 
ter de enfrentar para provar que merece ser adulto. Essas provas incluem 
provas de coragem e provas de conhecimento, so um verdadeiro exame terico 
e prtico que encerra todo o saber que pode circular no grupo. H saberes 
especializados que no so transmitidos a todos, mas apenas ao grupo dos 
feiticeiros. 0 feiticeiro  a primeira verdadeira profisso que surge na

sociedade primitiva.

Jovens no rito de passagem, Tanznia

Esta transmisso da cultura era essencialmente oral e prtica, pois no 
havia escrita. A transmisso utilizava fundamentalmente mitos que incluam 
todo o saber tcnico, social e sobrenatural da comunidade. 0 mito e todo o 
tipo de saber transmitido utilizava a repetio e, eventualmente, o ritmo 
musical para reter o conhecimento; palavra, canto, e

mesmo a dana, estavam geralmente unidos nas tradies orais.

A inveno da escrita e do clculo percorrem um caminho de dominao. Os 
transmissores do saber, os escribas, os professores, perderam o estatuto 
social dos feificeiros da tribo; so simples elementos de relao entre as 
hierarquias sociais, quase sempre com uma posio social ambgua, mas mais 
prxima das hierarquias inferiores do que das superiores. Os saberes 
tericos mais ligados  religio - e assim as cincias e as artes -

passam a ser ministrados nos templos, pois deter esses conhecimentos  
entrar no domnio do sagrado.

A escrita e o clculo so instrumentos de controlo, permitem definir e fixar 
os impostos e contribuies- os escribas so habitualmente os funcionrios 
do poder que levanIam as contribuies. Quanto mais cresce o nmero de 
contribuintes, quanto mais alargado se torna este sector do tercirio, tanto 
mais vulgarizada e oficializada surge a educao oficial.

As instituies destinadas  reproduo da sociedade multiplicam-se com a 
complexidade social, a educao maternal, ainda predominante at ao sculo 
XIX, desaparece

91

pouco a pouco. A sociedade organiza um sofisticado sistema de distribuio 
de cultura que, se bem que fundamental para a sua sobrevivncia,  visto 
acima de tudo como disciplinador das futuras seces sociais empenhadas no 
sistema de produo.. a educao  um mecanismo especializado na reproduo 
dos grupos sociais, impedindo que uns

cresam mais do que o indispensvel para as necessidades do sistema.

Me boximane (Caiaari, frica), transportando o seu filho consigo, na sua 
actividade de recolha de alimentos

0 que  actualmente a vida em famlia de uma crinca, com o pai e a me que 
trabalham ? Creche, escola, estudos, as jukeboxes, o ci    .nema: por todo o 
lado criancas da sua

idade e adultos que no so os seus pais, que entram em conflito com eles e 
entre si, que dizem e fazem outras coisas. Os heris encontram-se no cinema 
ou na televiso, nas bandas desenhadas e no em redor da mesa familiar. 
Investimento mais directo do que nunca nas figuras histricas. As figuras 
dos pais, professores primrios, professores, padres, tambm sofrem a eroso 
dos fluxos capitalistas. (     ... ) o capitalismo  de facto um

orfanato, um celibato, submetido  regra do equivaler. 0 que o suporta no  
a figura do grande castrador,  a figura da igualdade.- igualdade no sentido 
de comutatividade dos homens e das mulheres, dos objectos, dos lugares, dos 
rgos.

J F, Lyotard, Capitalismo Energmeno

Aula na cadeia, sculo XIX

92

A educao cria o habitus - um produto da interiorizao dos princpios 
de um arbitrrio cultural capaz de se perpetuar depois de cessar a Aco 
Pedaggica (que  uma imposio, por um poder arbitrrio, de um arbitrrio 
cultural) perpetuando assim nas vrias prticas os princpios do arbitrrio 
interiorizado. (Bourdieu e Passeron, La Reprocluction). Os mtodos podem 
evoluir atravs dos tempos, mais ou menos permissivos, porm a educao tem 
de cumprir sempre o seu papel de controlo social, disciplinando os alunos e 
criando-lhes quadros de docilidade que se mantm ao longo da vida, pois 
foram interiorizados no momento prprio na Escola. As,estratgias actuais 
resultam num efeito de ressonncia (o aluno  apenas um eco da palavra do 
professor) e numjogo de espelhos, uma normalizao geral do contedo a 
partir da homogeneizao da leitura, da palavra e da escuta.

Perpetuadora das hierarquias sociais, a educao surge como inculcadora de 
um saber que  o da cultura dominante e do seu valor. 0 prprio exame que 
nunca  excludo na disciplina social, surge com o seu duplo papel de 
controlo cultural e social: 0 exame -

diz Foucault - combina as tcnicas da hierarquia que vigia e as da sano 
que normaliza.

A sexualidade

As relaes, reais e simblicas, conscientes e inconscientes, entre homens 
e mulheres nas sociedades primitivas constituem para o etnolgo um campo de 
reflexo verdadeiramente apaixonante. Porqu? Porque a vida social interna 
da comunidade, repousa, no essencial, no tanto sobre as relaes entre os 
homens e as mulheres (truismo sem interesse) mas sobre o modo muito 
particular por que essas culturas apreendem e pensam a diferenca dos sexos 
nos seus mitos e mais ainda, nos seus ritos. Explicando mais claramente.- 
nas sociedades primitivas, por vezes marcadas, sob certos aspectos de 
masculinidade, at de culto de virilidade os homens encontram-se, no 
entanto, em posio defensiva face s mulheres, visto que reconhecem - 
mitos, ritos e vida quotidiana o atestam suficientemente - a superioridade 
das mulheres. Determinar a natureza desta superioridade, medir o seu 
alcance, discemir os meios utilizados pelos homens para se protegerem das 
mulheres, examinar a eficcia desses meios.- tudo isto re@ueren um

longo e srio estudo.

Lmitar-se~ de momento, a indicar como a relao estrutural que une a 
guerra e a sociedade primitiva determina, ao menos em parte, a relao entre 
os sexos. Esta soci  .edade , na essncia, guerreira. 0 mesmo  dizer que 
qualquer homem  a um guerreiro e

que a diviso sexual das tarefas faz da actividade guerreira uma funo 
masculina. 0 homem deve estar, pois constantemente disponvel para a guerra; 
de tempos a tempos f-la efectivamente.  sabido que, em gerai a guerra 
primitiva  pouco mortfera, salvo,  claro, no caso especial das sociedades 
guerreiras. Nem por isso  menos verdade que, dada a eventualidade 
constantemente presente da guerra, a possibilidade de risco, dos ferimentos 
ou da morte, est previamente inscrita no destino masculino. 0 homem da 
sociedade primitiva encontra-se, pois, por definio, marcado pela sua 
condio.- em maior ou menor grau, ele existe para a morte. Durante o 
combate, aquela no ati      .nge seno um nmero reduzido de indivduos; 
mas antes da batalha,  igualmente ameaadora para todos. Pela medio da 
morte, existe, pois, uma relao ntima, uma vi       .zi.-


nhana essencial entre masculnidade e morte.

Em contrapartida, que se passa com as mulheres? Recordemos a ideia, to 
sumria quanto tradicional, da mulher como bem precioso que os homens 
passariam o tempo a trocar, a fazer circular. (..)

A propriedade essencial das mulheres, que lhe define integralmente a 
natureza,  a de assegurar a reproduo biolgica e, alm disso, social, da 
comunidade.- as mulheres trazem ao mundo os filhos.

Longe de existirem como objecto de consumo ou como sujeito explorado, elas 
so, ao

contrrio, produtoras daqueles de que a sociedade no pode prescindir sob 
pena de desaparacer.- isto , dos filhos, como futuro imediato da tribo, 
como seu destino longnquo. (... ) A feminilidade  a maternidade, primeiro 
com funo biolgica, mas principalmente como domnio sociolgico exercido 
sobre a produo de filhos.- depende exclusivamente das mulheres quer haja 
ou no haja descendncia. E  isso que assegura o

domnio das mulheres sobre a sociedade.

93

Noutros termos desenvolve-se aqui uma proximidade imediata entre vida e 
feminilidade, de acordo com o que a mulher  na essncia ser-para-a -vida. 
Desde logo se evdencia, na sociedade primitiva a diferenca entre o homem e 
a mulher: como guerreiro, o homem  um-ser-para-a-morte,- como me a mulher 
 um-ser-para-a- vida. (        ...)

No inconsciente colectivo da tribo (a cultura), o inconsciente masculino 
aprende e reconhece a diferena dos sexos como superioridade irreversivel 
das mulheres sobre os homens. Escravos da morte, os homens invejam e temem 
as mulheres, senhoras da vida. Tal  a primitiva e primordial verdade que 
uma anlise sria de certos mitos e ritos revelaria. A mitologia tenta 
reflectir, subvertendo a ordem real, o destino da sociedade como destino 
masculino; os rituais, encenao em que os homens representam a sua vitria, 
empenham-se em conjurar, em compensar, a evidente verdade de que esse 
destino  feminino. Fraqueza, desamparo, inferioridade dos homens em relao 
s mulheres?  o

que revelam, um pouco por toda a parte, os mitos que fantasiam a idade do 
ouro perdida ou o paraso a atingir como um mundo assexuado, como um mundo 
sem mulheres.

Pierre Clastres, Infortnio do guerreiro Selvagem, in  Guerra, Religio e 
Poder, ob. cit.

De diferente, de temida, a mulher acabar por ser dominada, nomeadamente a 
partir da imposio do direito patriarcal, de origem pastoril, onde cabe ao 
pai e posteriormente ao marido, o direito de seu proprietrio. De facto, o 
aparecimento de povos criadores de gado, povos pastores que circulavam em 
regime de nomadismo com os seus rebanhos e habitualmente sem mulheres, faz 
surgir a repetida observao do valor do gado-procriador (carneiro, touro-
de-criao), ou seja, um nico ou poucos exemplares suficientes para um 
grande rebanho ou manada. 0 desprestgio da mulher acompanha a prtica dos 
pastores que habitualmente matam os filhos femininos mantendo apenas os 
masculinos, elementos funcionais no grupo.

Ao fixarem-se, sobrepondo-se s grandes civilizaes agrcolas pela 
conquista,  o direito dos povos pastores que acabar por impor-se desde o 
2.1 milnio a.C. 0 condicionamento da religio de tipo agrrio e da 
sexualidade ser um dos fundamentos do domnio do homem que, concretamente, 
se efectiva com o direito patriiinear que se mantm no Ocidente sempre que 
predomina o Direito Romano. Um dispositivo de condicionamento da sexualidade 
vai-se criando ao longo dos tempos, com a moral crist, o Direito romano-
germano e as prticas quotidianas.

Stando eu  minha porta, - a a raa de sol Bira bir um cabalheiro - ci 
cabalho corredor.

(Esta era um pai que casou ia filha e ela no gostava dele.

Mas para fazer buntades...)

Preguntou-me se era casada - casadinha sou senhor, Foi o ladro do meu pai - 
que me casou c pastor... Tinha as costelas cobradas de mudar os canceles. 
E tinha as pernas mji tortas - de passar os barrances, E tinha os beios 
mt7i grossos de comer os recostres     ... E a maior falta que tinha - n 
tinha pixa nem culhes      ...

Folclore mirands, in Trabalhos de Antropologia e Etnologia, vol. XX1, 
Porto, 1969

Os patins, sapatos elevados e estreitos que a moda impe s venezianas desde 
a Idade Mdia, resultam do objecto de lhes dificultar a sada, a s s,  
rua, dada a ausncia sistemtica dos donos de casa.

94

0 dispositivo de sexualidade tem como razo de ser no reproduzir-se, mas 
proliferar, inovar, anexar, inventar, penetrar os corpos de forma cada vez 
mais minuciosa e controlar as populaes de maneira cada vez mais global. 
Portanto, h que admitir trs ou quatro teses contrrias  que supe o tema 
de uma sexualidade reprimida pelas formas modernas da sociedade.- a 
sexualidade est ligada a dispositivos recentes de poder; esteve em expanso 
crescente desde o sculo XV11; o dispositivo que a apoiou desde a no est 
ordenado  reproduo; foi ligado desde a origem a uma intensificao do 
corpo -  sua valorizao como objecto de saber e como elemento nas relaes 
de poder.

Dizer que o dispositivo de sexualidade se substitui ao dispositivo de 
aliana no seria exacto. Podemos imaginar que talvez um dia ele venha a 
substitu-lo. Mas, de facto, hoje em dia, embora tenda a encobri-lo, no o 
apagou nem o tomou intil. De resto, historicamente, foi em tomo e a partir 
do dispositivo de aliana que o de sexualidade se estabeleceu. A prtica da 
penitncia, e depois do exame de conscincia e da direco espiritual, foi o 
seu ncleo formador: ora, ( .. )o que em primeiro lugar esteve em J.ogo no 
tribunal da penitncia foi o sexo, enquanto suporte de rela es; a pergunta 
feita era a do comrcio permitido ou proibido (adultrio, relao fora do 
casamento, relao com uma pessoa proibida pelo sangue ou pelo estatuto, 
carcter legtimo ou no do acto de conjuno); depois, a pouco e pouco, com 
a nova pastoral - e a sua aplicao nos seminrios, nos colgios e nos 
conventos - passou~se de uma problemtica da relao para uma problemtica 
da came, isto , do corpo, da sensao, da natureza, do prazer, dos 
movimentos mais secretos da concupiscncia, das formas subtis da deleitao 
e do consentimento. A sexualidade estava a nascer, a nascer de uma tcnica 
de poder que estivera, na origem, centrada na aliana. Depois, funcionou 
constantemente relativamente a um sistema de aliana, e apoiando-se nele. A 
clula familiar tal como foi valorizada no decurso do sculo X VIII, 
permitiu que nas suas duas dimenses principais - o eixo marido-mulher e o 
eixo pais-filho - se desenvolvessem os elementos principais do dispositivo 
de sexualidade (o corpo feminino, a precocidade infantil, a regulao dos 
nascimentos e, sem dvida, em medida menor, a especificao dos perversos). 
No se deve entender a famlia sob a sua forma contempornea como uma 
estrutura social, econmica e poltica de aliana, que exclui a sexualidade 
ou pelo menos a refreia, a atenua tanto quanto possvel e dela no retm 
seno as funes teis. Ela tem por papel pelo contrrio, fix-la e 
constitu-Ia como suporte permanente. Ela garante a produo de uma 
sexualidade que no  homognea com os privilgios da aliana, permitindo ao 
mesmo tempo que os sistemas da aliana sejam atravessados por toda uma nova 
tcti         .ca de poder que at a ignoravam. A famlia  o cambista da 
sexualidade e da aliana.- ela transporta a lei e a dimenso do jurdico 
para o dispositivo de sexualidade; e tranporta a economia do prazer e a 
intensidade das sensaes para o regime da aliana.

Michei Foucault, Histoire de Ia Sexualit, 1, Gallimard, 1976

A mulher-objecto

95

A conscincia de represso  sexualidade comea a sentir-se com as anlises 
de Freud e a libido(*) reprimida ser o objecto de estudo terico e prtico 
de toda a psicanlise que lhe segue. Da era vitorana at aos anos 
cinquenta, o sexo mantinha-se como um recalcamento, que se iniciava na 
prpria palavra. As obras de Wilheim Reich e as teorias pan-sexualistas 
iriam abalar um pouco a tradio repressiva da sexualidade que Foucault 
analisa, E, porm, a subcultura juvenil que se desenvolve a partir dos anos 
cinquenta que se torna responsve( pela crtica sistemtica ao 
condicionamento da sexualidade.

Antes da literatura se apossar da desmontagem dos mecanismos de represso, 
os jovens reconhecem nos seus dolos os heris, - desmistificadores da 
hipocrisia social no tocante  sexualidade.

Depois de Elvis Presley, que introduz a libertao da expresso corporal, o 
grupo dos Rolling Stones representa a nova era da sexualidade, onde o corpo 
e a voz afirmam o direito  sexualidade libertada e, ainda, o direito  
diferena no sexo,

2.4.5. AS REPRESENTAOES COLECTIVAS

Mundividncia ou concepo do Mundo

0 homem no pode escapar do seu prprio engano         no lhe resta outro 
remdio seno o de adoptar as condies da sua prpria vida; j no vive 
apenas num puro universo fsico mas sim num uni  .verso simblico. A 
linguagem, o mito, a arte e a religio constituem partes deste universo: 
formam os diversos fios que tecem a rede simblica, a textura complexa da 
experincia humana. Todo o progresso em pensamento e em experincia afina e 
refora esta rede. 0 homem j no se pode en, rentar com a realidade de um 
modo imediato, no pode v-Ia, digamos assim, face a face. A realidade 
fsica parece retroceder na mesma proporo em que avana a sua actividade 
simblica. Em lugar de lidar com as pr prias coi .sas, num certo sentido, 
conversa constantemente consigo

mesmo. 

Ernes@ Cassirer, Ensaio sobre o homem, Guimares, Lisboa, 1969

0 homem imaginante e simblico cria e transmite uma concepo do mundo 
fsico e

social; cada cultura, cada poca, forja os seus prprios modelos, os seus 
paradigmas, em funo da experincia que se lhes depara - pois desde o homo 
sapiens que qualquer homem  conceptualmente capaz de conceber modelos 
interpretativos que apenas variam de acordo com a imaginao, os paradigmas 
herdados pelo grupo e mundo exterior.

96

Os paradigmas de posicionamento em relao ao mundo - as concepes do mundo 
do grupo que retratam o real no como ele , mas como  concebido - agindo 
dentro dum mundo humanizado como se este fosse a realidade vivida, criam as 
mundividncias da comunidade. A mundividncia  a actualizao da concepo 
do mundo, a prtica social que decorre do paradigma interpretativo da 
natureza fsica e social.

A histria pode reduzir-se a um conjunto de concepes do mundo e a 
sociologia a um conjunto de mundividncias. As snteses tericas das 
concepes do mundo so recuperadas no presente, tentando explicar 
mundividncias passadas.

Qualquer concepo religiosa do mundo implica a distino do sagrado e do 
profano, ope ao mundo em que o fiel se entrega livremente s suas ocupaes 
e exerce uma actividade sem consequncias para a sua salvao, um domnio 
onde o temor e a esperana o paralisam altemadamente, onde, como  beira de 
um precipcio, o mnimo desvio no mnimo gesto pode perd-lo 
irremediavelmente. Com toda a certeza, tal distino nem sempre basta para 
definir o fenmeno religioso, mas pelo menos fornece a pedra-de-toque que 
permi    .te reconhec-lo com a maior segurana. De facto, seja qual for a 
definio que se proponha da religio,  notvel que ela envolva esta 
oposio do sagrado e do profano, quando no coincide pura e simplesmente 
com a mesma oposi                .-

co. A maior ou menor prazo, atravs de medies lgicas ou de verificaes 
directas, todos ns somos levados a admitir que o homem religioso  antes de 
mais aquele para quem existem dois meios complementares.- um onde ele pode 
agir sem angstia nem tremor, mas onde a sua aco no compromete seno a 
sua pessoa superficial, outro onde um sentimento de dependncia ntima 
retm, contm e dirige cada um dos seus impulsos e onde ele se v empenhado 
sem reserva. Estes dois mundos, o do sagrado e o do profano, apenas se 
definem rigorosamente um pelo outro. Excluem-se e supe-se. (              
..)

0 sagrado aparece (   .. ) como uma categoria da sensibilidade. Na verdade, 
 a categoria sobre a qual assenta a atitude religiosa, aquela que lhe d o 
seu carcter especfio, aquela que impe ao fiel um sentimento de respeito 
particular, que presume a sua f contra o esprito de exame, a subtrai  
discusso, a coloca fora e para alm da razo.

- a ideia-me da religio ---, escreve H. Hubert. -Os mitos e os dogmas 
analisam-lhe o contedo a seu modo, os ritos utilizam-lhe as propriedades, a 
moralidade religiosa deriva dela, os sacerdcios incorporam-na, os 
santurios, lugares sagrados e monumentos religiosos fixam-na ao solo e 
enrazam-na. A religio  a administrao do sagrado.

Roger Caillois, 0 Homem e o Sagrado, Ed. 70

Mitos e Mitologia


As primeiras interpretaes do mundo fsico e social apontam sempre para a 
sua origem,- as primeiras snteses interpretativas respondem no apenas  
criao do mundo fsico, como do mundo social, da sociedade que as produz. 
Essas narrativas que remontam aos tempos do caos, exprimem uma dvida em 
relao aos demiurgos criadores,- so verdadeiras fbulas, pois o homem 
ainda no existia, mas as personagens, animais, objectos ou deuses, so 
humanizadas e actualizadas em funo da compreenso do grupo, surgem como 
necessariamente familiares  comunidade. Os mitos que encerram um modelo 
interpretativo do mundo a partir duma criao que se desenrola nopassado, 
so narrados e usados no presente, projectam e caucionam o futuro pois 
recriam a estabilidade do cosmos frente ao caos; do  comunidade, com o 
exerccio mgico da sua representao e invocao, a garantia de recriar no 
espao profano da sociedade dos homens, um espao sagrado onde os deuses ou 
as foras da natureza invocadas pelo rito tero de intervir favoravelmente 
como o fizeram no acto primordial.

A narrativa mtica explica como a sociedade, a cultura, o homem, surgiram; 
como surgiu o mundo e o conhecimento.  uma origem que tem uma explicao 
dual, pois o mito unifica crenas e homens, rompendo com o antagonismo de 
antigas fratrias que se uniram na prtica e na memria.

Os mitos implicam, o antropomorfismo; so ---fbulas- nas quais animais, 
plantas e coisas tm sentimentos humanos, se comportam como humanos e 
exprimem desejos humanos. Interpretam o mundo como produto de uma criao de 
dramas e aventuras quase humanas. E tornam-no familiar. Explicar o raio pela 
clera de um esprito ou de deus,  uma forma de se familiarizar com o raio, 
de o compreender, de o domesticar j que se pode implorar, convencer e 
comover o deus. Sabe-se que aquilo que  a clera do deus  a nossa prpria. 
Portanto, por intermdio do mito h um movimento de apropriao do mundo, de 
reduo do universo a dados inteligveis pelo homem. (            .. )

Edgar Morin, 0 Homem e a Morte

C. e C-5                                                                    
                  97

A Criao do Mundo

Antes de todas as coisas era o Caos, depois veio a Terra, slido e eterno 
assento de quanto existe. E Eros, o mais belo dos deuses imortais, o que 
anula os membros,
* que, no peito dos deuses e dos homens, incentiva
* esprito e a sabedoria. Do Caos nasceram rebro e a escura Noite e, da 
Noite, se geraram o ter e a Luz do Dia. Da Terra se gerou, no princpio, um 
ser a ela semelhante Capaz de a cobrir por inteiro, o Cu estelar, 
oferecendo aos deuses um assento de nunca antes imaginada felicidade.

Dela nasceram ainda as altas montanhas, paradisacos esconderijos das 
deusas, das Ninfas, que moram nos vales das serras. Dela nasceu ainda o 
infecundo Oceano, de vagas furiosas - o Rio Imenso, sem a interven o de 
Eros.

Hesodo, Teogonia

Criao do Homem

0 senhor (Enffi) decidiu produzir o que era til,
0 senhor cujas decises so imutveis, Enfil que faz germinar da terra as 
sementes da regio, Imaginou separar o Cu da Terra, Imaginou separar a 
Terra do Cu... Quando o Cu ficou separado da Terra, Quando a Terra ficou 
separada do Cu, Quando o nome do Homem foi determinado Quando An levou o 
Cu Quando EnN levou a Terra...

Quando o Cu se afastou da Terra, Quando a Terra foi separada do Cu, Quando 
a humanidade foi semeada ... 

Poemas da Criao, Sumria

(No poema grego, de Hesodo, no h repetio, pois a tradio escrita era 
j muito longa; o mesmo no se d no poema sumrio, herdando as 
caractersticas de repetio tpicas duma tradio oral.)

Em vsperas da criao, Visnu, o demiurgo da mitologia do hindusmo, flutua 
com a sua companheira Laksmi, sentados sobre a cobra de mil cabeas, no meio 
do mar de leite, Do umbigo de Visnu sai uma flor de Itus que leva o deus 
Brama at ao cu - o criador, que recita, com as 4 bocas, os quatro livros 
sagrados, os Vedas. Bramam  o Absoluto, o nico; o seu nome  o mesmo do 
mar de leite e tambm significa a Verdade. Tudo o resto  iluso. Da as 
criaes do mundo serem mltiplas, processando-se por cicios, do mesmo modo 
que o seu desaparecimento. S quando o Absoluto se manifesta existe o mundo; 
pois ele manifesta-se tornando-se mltiplo e todas as criaturas passam a 
existir, no h nem natureza nem alma, nem deuses, nem o prprio deus. 0 
Absoluto esttico  Visnu, um dos rostos do Deus pessoal, como conservador e 
protector dos mundos, que existem em potncia. 0 oceano de leite, imvel  o 
infinito, a totalidade, o uniforme, o no-movimento absoluto. A serpente  a 
Eternidade, a ausncia de tempo. Quando o Uno se quer tornar mltiplo emana 
de si o Poder, que surge como a deusa companheira, a abundncia e a 
Harmonia.  a primeira dualidade necessria  existncia. Brama que sai do 
seu umbigo, surge ento como o seu primeiro aspecto divino, que tem um papel 
concreto a fazer, o Antepassado primordial. Nas mos - 4 braos - tem as 
leis eternas (Os Vedas) e a boca recita cada um desses livros. A palavra, o 
conceito, a lei, surge no mito como anterior ao homem. Brama, antes de 
iniciar a criao pe questes: Quem sou eu; sentado neste ltus? 0 mito 
indica que a criao contm j em si o fim, e a criao passa pela meditao 
interior.

0 mito explica-se pelo discurso (a linguagem, a lei, a ordem surgem antes do 
homem, no mito hindustnico) e pela recriao ritualizada faz reviver o 
passado, abrindo um ---crculo mgico na comunidade que o ouve (no mito da 
criao de Visnu, todos os mundos potenciais). Dentro do crculo da 
teatralidade do mito, o tempo e o espao so mticos: a

realidade deixa de ser o mundo actual, recriando-se o espao e tempo da 
criao. Assim, o mito  tambm emotivo, apela  sensibilidade da 
comunidade, abre um espao e tempo sagrados, pois tem funo ideolgica, 
surge para explicar o lugar de cada um

nessa sociedade, para evitar os conflitos, unindo-os e justificando a 
sociedade tal como ela se apresenta. Este aspecto emotivo que aparentemente 
predomina no mito, permitiu que etnlogos como Lvy-Bruhl considerassem o 
pensamento mtico como pr-lgico. Hoje reala-se o aspecto racional, a 
complexidade e sofisticao desse outro esquema lgico que o mito 
representa.

A maneira de pensar dos povos a que normalmente, e erradamente, chamamos --
-primitivos - - chamemos-lhes antes ---povos sem escrita-, porque segundo 
penso, este  que  o factor discriminatrio entre eles e ns - tem sido 
interpretada de dois modos diferentes, ambos errados na minha opinio. 0 
primeiro considera que tal pensamento  de qualidade mais grosseirado que o 
nosso, e na Antropologia contempornea o exem-

plo que nos vem imediatamente  ideia  Malinowski. Afirmo, desde j, que 
tenho a

maior admirao por ele, que o considero um dos maiores antroplogos e que 
no pretendo com esta observao diminuir-lhe a contribuio para o campo da 
cincia. Contudo, Malinowski tinha a sensao de que o pensamento do povo 
que estava a estudar
- e, de uma maneira geral, o pensamento de todas as populaes sem escrita 
que eram


o objecto de estudo da Antropologia - era ou  determinado inteiramente 
pelas necessidades bsicas da vida. Se se souber que um povo, seja ele qual 
for,  determinado pelas necessidades mais simples da vida - encontrar 
subsistncias, satisfazer as pulses sexuais e assim por diante -, ento 
est-se apto a explicar as suas instituies sociais, as suas crenas, a sua 
mitologia e todo o resto.

Esta concepo que se encontra muito difundida, tem geralmente, na 
Antropologia, a

designao de funcionalismo.

0 outro modo de encarar o pensamento primitivo - em lugar de sublinhar que  
um

tipo de pensamento inferior, como o faz a primeira interpretao - afirma 
que  um tpo de pensamento fundamentalmente diferente do nosso. Esta 
abordagem  questo concretiza-se na obra de Lvy-Bruhl, que considerou que 
a diferena bsica entre o pensamento ---primitivo - - ponho sempre a 
palavra ---primitivo - entre aspas - e o pensamento moderno reside em que o 
primeiro  completamente determinado pelas representaes msticas e 
emocionais.

99

Enquanto a concepo de Malinowsk  utilitria, a de Lvy-Bruhl  uma 
concepo emocional ou afectiva. Ora o que eu tenho tentado mostrar  que de 
facto o pensamento dos povos sem escrita  (ou pode ser, em muitas 
circunstncias), por um lado, um pensamento desinteressado - e isto 
representa uma diferena relativamente a Malinowski -e, por outro,  um 
pensamento intelectual -o que  uma diferena em relao a Lvy-Bruh1.

0 que tentei mostrar, por exemplo, em ---Totmisme ---ou ---La Pense 
Sauvage ---,  que esses povos que consideramos estarem totalmente dominados 
pela necessidade de no morrerem de fome, de se manterem num nvel mnimo de 
subsistncia, em condies materiais muito duras, so perfeitamente capazes 
de pensamento desinteressado         - ou

seja, so movidos por uma necessidade ou um desejo de compreender o mundo 
que os envolve, a sua natureza e a sociedade em que vivem. Por outro lado, 
para atingirem este objectivo, agem por meios intelectuais, exactamente como 
faz um filsofo ou at, em

certa medida, como pode fazer e far um cientista.

Vamos agora considerar um mito do Canad Ocidental sobre uma raia que tentou 
controlar ou dominar o Vento Sul e que teve xito na empresa.

Trata-se de uma histria de uma poca anterior  existncia do Homem na 
Terra, ou seja, de um tempo em que os homens no se diferenciavam de facto 
dos animais,- os seres eram meio humanos e meio animais. Todos se sentiam 
muito incomodados com o vento, porque os ventos, especialmente os ventos 
maus, sopravam durante todo o tempo, impedindo que eles pescassem ou que 
procurassem conchas com moluscos na praia.

Portanto decidiram que tinham de lutar contra os ventos, obrigando-os a 
portarem-se mais decentemente.

Houve uma expedio em que participaram vrios animais humanizados ou 
humanos animalizados, incluindo a raia, que desempenhou um importante papel 
na captura do Vento Sul. Este s foi libertado depois de prometer que no 
voltaria a soprar constantemente, mas s de vez em quando, ou s em 
determinados perodos. Desde ento o Vento Sul s sopra em certos perodos 
do ano, ou ento uma nica vez, em cada dois dias; durante o resto do tempo 
a Humanidade pode dedicar-se s suas actividades.

Quando se estuda minuciosamente o material mitolgico na forma exacta em que 
 narrado, verifica-se que a raia actua com base em determinadas 
caractersticas, que so de duas espcies. A primeira  que a raia  um 
peixe, como todos os seus congneres espalmados, escorregadio por baixo e 
duro por cima. E a outra caracterstica que permite

 rai.a escapar com sucesso quando tem de enfrentar outros animais,  que 
parece mui      .to grande vista de baixo ou de cima e extremamente delgada 
vista de lado. Um adversrio poderia pensar que seria muito fcil disparar 
uma seta e matar uma raia, por ela ser to grande   mas enquanto a seta se 
dirige para o alvo, a raia pode virar-se ou deslizar rapidamente, oferecendo 
apenas o perfil, que, evidentemente,  impossvel de atingir; e  assim que 
pode escapar.


Portanto a razo por que se escolheu a raia  que ela  um animal que, 
considerado de um ou outro ponto de vista,  capaz de responder - empregando 
a linguagem da ciberntica - em termos de sim ou no.  capaz de dois 
estados que so descontnuos, um positivo e outro negativo. A funo que a 
raia desempenha no mito  - ainda que, evidentemente, eu no queira levar as 
semelhanas to longe - parecida com a dos elementos que se introduzem nos 
computadores modernos e que se podem utilizar para resolver grandes 
problemas adicionando uma srie de respostas de sim e no.

Apesar de ser obviamente errado e impossvel (dum ponto de vista emprico) 
que um peixe possa lutar contra o vento, dum ponto de vista lgico pode-se 
compreender por que razo se utilizam imagens tiradas da experincia.

Esta  a originalidade do pensamento mitolgico - desempenhar o papel do 
pensamento conceptual.- um animal susceptvel de ser usado como, diria eu, 
um operador binrio, pode ter, dum ponto de vista lgico, uma relao com um 
problema que tam-

100

concepo ensamento

3, um penWalinowski

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bm  um problema binrio, Se o vento sul sopra todos os dias do ano, a vida 
toma -se impossvel para a Humanidade. Mas, se apenas soprar um em cada dois 
dias - sim um dia, no um outro, e assim por diante - toma-se ento 
possvel uma espcie de compromisso entre as necessidades da Humanidade e as 
condies predominantes no mundo natural,

Assim, dum ponto de vista lgico, h uma afinidade entre um animal como a 
raia e o tpo de problema que o mito tenta resolver. Dum ponto de vista 
cientfico, a histria no  verdadeira, mas ns somente pudemos entender 
esta propriedade do mito num tempo em que a ciberntica e os computadores 
apareceram no mundo cientifico, dando-nos o conhecimento das operaes 
binrias, que j tinham sido postas em prtica de uma maneira bastante 
diferente, com objectos ou seres concretos, pelo pensamento mtico.


Assim, na realidade no existe uma espcie de divrcio entre a mitologia e a 
cincia. S o estdo contemporneo do pensamento cientfico  que nos 
habilita a compreender o que h neste mito, perante o qual permaneciamos 
completamente cegos antes de a ideia das operaes binrias se tornar um 
conceito familiar para todos.

Lvi-Strauss, Mito e Significado, Ed. 70

Os elementos que compem o mito so estruturais, pois o mito  uma estrutura 
lgica de combinao binria; esses elementos funcionam em razo de 
bipolaridade, quer da concepo lgica quer do lugar, do tempo, das 
geraes, dos valores, pois o mito alterna sempre dois princpios que vo 
construindo a narrativa, que  anti-histrica, precisamente porque  
estrutural. Uma primeira explicao surge com a narrativa fantstica, uma 
outra, mais profunda e no desvelada,  a explicao esotrica, implcita no 
mito.

Caos/Cosmos Desordem/Ordem Destruio/ Criao Violncia/ Apaziguamento, 
conciliao Velho/Novo (conflito de idades, de geraes, de tempos) 
Morte/Vida Baixo/Alto Estreito/ Comprido Terra/Cu Anti-heri, causador de 
catstrofes/ Heri, demiurgo Todas estas antinomias surgem sempre como um 
todo no mito, fazem parte da estrutura mtica, so os elementos estruturais, 
os mitemas, que permitem a explicao e a

leitura da narrativa.

Como o mito  uma narrativa sempre actualizada, devido ao seu papel 
ideolgico de identificao sociocultural, os mitemas so constantemente 
materializados em imagens actuais levantadas da experincia do dia-a-dia e 
do imaginrio colectivo da comunidade. S a compreenso das imagens permite 
que a explicao seja eficaz e o reconhecimento se efectue. Assim, as 
imagens, o contedo concreto da narrativa so constantemente actualizados, 
incluindo os elementos familiares  comunidade, de acordo com o tempo 
histrico e o espao social, de acordo com as novas interiorizaes e 
representaes colectivas. E nesta perspectiva que o mito tem de recorrer 
predominantemente ao emprico, em sociedades que desconhecem a escrita, 
tanto para a sua funo ideolgica de coeso social e disciplina dos grupos 
e famlias, como para a explicao racional que tem de advir, 
necessariamente, do concreto.

 s com o advento da escrita que os conceitos comeam a ultrapassar as 
imagens e os smbolos ligados ao concreto: o discurso torna-se conceptual 
(racional) e perde a fora da emotividade, A diferena entre o pensamento 
mtico e pensamento racional est no peso dos conceitos neste ltimo, que 
lhe permitem uma maior abstraco e universalidade.

101

Esquema do pensamento mitico(a) e racional(b)

Na realidade, em qualquer situao humana onde predomine a emotividade, 
reaparece o pensamento mtico que no  exclusivo dos povos sem escrita. 0 
mito ressurge, criando o seu espao e tempo prprios, isolando da realidade 
histrica, em todos os tempos e em todos os lugares, em pleno palco da 
racionalidade. Elementos mticos circulam na nossa civilizao industrial e 
detectam-se em todos os campos.

0 bifterck faz parte da mesma mitologia sangunea que o vinho.  o corao 
da carne, a carne em estado puro, e qualquer que dele coma assimila a si a 
fora taurina. 0 prestl~ gio do bifteck resulta, de toda a evidncia, da sua 
natureza de carne quase crua: o sangue  nele visvel, natural, denso, 
compacto e coagulado ao mesmo tempo; pode perfetamente imaginar-se a 
ambrsia antiga sob esta espcie de matria pesada, que vai dimnuindo ao 
ser mastigada, de forma a tomar simultaneamente bem sensvel a sua fora 
originria e a sua plasticidade de transfuso para o prprio sangue do 
homem. 0 sangui   ,-

neo  a razo de ser do bifteck: os graus de intensidade do seu preparo so 
expressos, no em unidades calricas, mas em imagens oriundas do sangue: o 
bifteck  a sangrar (fazendo ento lembrar o fluxo arterial do animal 
esfolado) ou azul ( o sangue pesado, o

sangue pletrico das veias, que  aqui sugerido pelo violeta, estado 
superlativo do ver melho).

L.) Comer o bifteck a sangrar representa, pois, tanto uma natureza como uma 
moral.

Rand Barthes, 0 Bife e as Batatas Fritas, Mitologias, Signos, ed. 70

Uma recriao mtica, uma narrativa total, encontra-se na obscuridade de 
qualquer sala de cinema, na caixa mgica onde se constitui uma comunidade 
mtica - os espectadores - reunida em frente de um cran iluminado, 
totalmente sintonizada com o irreal que se desenrola no filme e 
completamente alheada do tempo e dos espaos reais do mundo onde se situam 
fisicamente. Os espectadores colam-se  narrativa com sentimentos, emoes e 
racionalidade. Quebrando o espao mgico da projeco recuperam o real, tal 
como os seus antepassados que participavam de cerimnias idnticas na estru-

tura, embora diversas no contedo.

Concerto dos Rolling Stones Para a juventude que acorre aos seus concertos, 
os dolos do rock representam os demiurgos dum espao e tempos sagrados, 
que desliga do real - que  contestado - o seu pblico de fs. A fora do 
esteretipo herico dos rockistas, a sua imagem de for a, a msica violenta 
e criadora, a contestao das letras, o recriar da violncia dos elementos e 
do imaginrio do criao do mundo pelo jogo de luzes constituem todo um 
universo de mitemas clssicos. A vivncia mtica  to intensa que os 
concertos por vezes atingem a violncia da destruio total.

102

A mitologia  o conjunto de mitos que se constituem num universo coerente de 
explicao para a comunidade. As snteses mitolgicas surgem quando h 
assimilao de outras culturas, por aliana, conquista ou emigra o dos 
homens: a unio das tradies mticas, a prpria natureza ideolgica do mito 
impe uma unidade ou explicao global, que a sntese tenta estabelecer, 
criando-se um fio condutor. As mitologias organizam-se ou tendem a 
organizar-se em famlias de deuses que recriam os momentos histricos da 
comunidade, se bem que sem historicidade temporal, pois  caracterstico do 
mito o seu

tempo estrutural.

Religio e Magia

0 modo de estar no mundo do homem define-se num espao e tempo que  
simultaneamente profano (o do trabalho e da tcnica) e sagrado (o simblico 
de relaes com o sobrenatural).

Todas as mitologias, teogonias e cosmologias implicam uma ambgua distino 
entre o

profano e o sagrado, o real-natural e o sobrenatural, pois so todas 
humanizadas- apesar de serem de ordens diferentes, com o espao e tempo 
prprios, a relao entre eles terna-se possvel pela religio e magia, mais 
propriamente pelo ritual elaborado pelos intrpretes dos sinais do sagrado 
no mundo profano.

0 totem assinala -de resto como qualquer templo religioso-uma brecha do 
sagrado no espao profano

Os rituais - srie de gestos e palavras propiciatrias - realizam e recriam 
o tempo sagrado, introduzindo no real um tempo e um espace sobrenatural, por 
aco do rito.

A estrutura onde se inserem os rituais de criao dum sagrado primordial  a 
festa. A festa , acima de tudo, a passagem do tempo e espao profanos para 
o sagrado, durante o tempo da celebrao. A festa reconstitui o tempo do 
caos, carregado do sagrado, antes da criao da ordem, e com esta, dos 
valores, dos interditos. Com a festa multiplicam-se os excessos em todos os 
campos: excesso de rudo, movimento, comida e bebida, excessos sexuais,- 
invertem-se os valores pois imperam os antivalores do caos, e o que era 
proibido passa a ser a regra, e o permitido  proibido: esquecem-se os 
interditos religiosos, o sagrado investe-se de profano e o profano de 
sagrado.

A festa  social, resulta dum imaginrio colectivo e mtico, contm uma 
explicao mtica, mas prolonga no social um fundamento biolgico que leva 
os animais colectivos a

libertarem as energias acumuladas pelo trabalho de grupo e a associao de 
indivduos em nome do grupo.

Tal como as formigas se embriagam com os pulges aprisionados em rebanhos 
nos seus formigueiros, sempre que h mudana de cicio, a sociedade humana 
sente necessidade de compensar os seus conflitos e frustraes impostas pela 
disciplina colectiva no momento da festa.

A festa dura vrias semanas, vrios meses, entrecortados por perodos de 
repouso de quatro ou cinco dias. Muitas vezes so necessrios vrios anos 
para reunir a quantidade

103

de vveres e de riquezas que asero no s consumidos ou despendidos com 
ostentao mas ainda destruidos e esbanjados pura e simplesmente, pois o 
esbanjamento e a destruio, formas do excesso, inserem-se por direito na 
essncia da festa.

Esta termina naturalmente de modo frentico e orgaco, num desregramento 
nocturno de rudo e de movimento que os instrumentos mais rudimentares, 
percutidos a compasso, transformam em ritmo e em danca.

Compreende-se que a festa, representando um tal paroxismo de vida e rompendo 
de um modo to violento com as pequenas preocupaes da existncia 
quotidiana, surja ao

indivduo como um outro mundo, onde ele se sente amparado e transformado por 
foras que o ultrapassam. A sua actividade diria, colheita, caa, pesca ou 
criao de gado, limita-se a preencher o seu tempo e a prover s suas 
necessidades imediatas.  certo que ele lhe dedica ateno, pacincia, 
habilidade, mas, mais profundamente, vive na recordao de uma festa e na 
expectativa de uma outra, pois a festa figura para ele, para a

sua memria e para o seu desejo, o tempo das emoes intensas e da 
metamorfose do

seu ser. (..)

Na realidade, a festa  frequentemente tida pelo prprio reino do sagrado. 0 
dia de festa, o simples domingo,  antes de mais um tempo consagrado ao 
divino, em que o trabalho  interdito, em que se deve repousar, gozar e 
louvar a Deus. Nas sociedades em que as festas no esto disseminadas pelo 
conjunto da vida laboriosa, mas agrupadas numa verdadeira estao das 
festas, v-se ainda melhor at que ponto esta constitui realmente o perodo 
da proeminncia do sagrado. (   ...)

0 sagrado, na vida corrente, manifesta-se quase exclusivamente por 
interditos. Define-se como o reservado, o separado;  colocado fora do 
uso comum, protegido por proibies destinadas a evitar qualquer dano  
ordem do mundo, qualquer risco de a desarranjar e de nela introduzir um 
fermento de perturbao. Ele aparece assim essencialmente como negativo. (  
...)

Ora o perodo sagrado da vida social  precisamente aquele em que as regras 
so suspensas e a licena como que recomendada.

0 excesso no se limita ento a acompanhara festa de forma constante. Ele 
no  um simples epifenmeno da agitao que ela desenvolve.  necessrio ao 
sucesso das cerimnias celebradas, participa da sua virtude santa e 
contribui como elas para renovar a natureza ou a sociedade. Realmente parece 
no haver dvida de que esta  a finalidade das festas. 0 tempo esgota, 
extenua. Ele  aquilo que faz envelhecer, o que caminha para a morte, o que 
desgasta:  o prprio sentido da raiz donde so extradas em grego e em 
iraniano as palavras que o designam. Todos os anos a vegetao se renova e a 
vida social, do mesmo modo que a natureza, inaugura um novo ciclo. Tudo o 
que existe deve ento ser rejuvenescido.  preciso recomear a criao do 
mundo.

Roger Caillois, 0 Sagrado e o Profano


A festa foi perdendo pouco a pouco a sua sacralidade; a partir do sculo 
XVIII, com o fim do Antigo Regime e tambm da importncia da Igreja como 
poder ideolgico, a festa institucionaliza-se como profana ou sagrada, 
perdendo no s essa ambivalncia como a fora das suas representaes. Com 
a difuso da ideologia liberal e o crescimento do capitalismo, os mesmos 
lazeres e tempos livres so capilalizados e segregadas as tradies 
populares. A festa hoje mantm caractersticas de excesso em vrios campos, 
nomeadamente no consumo de objectos, comida e bebida e do que se tornou o 
artigo mais significativo da vida contempornea, o dinheiro.

S. Joo no Porto.
0 rudo prolonga-se para alm das horas de trabalho, noite fora, os 
interditos sociais so ultrapassados, h excesso de comida e bebida, em nome 
dum santo casamenteiro que substituiu o antigo deus do gro; no ar o forte 
cheiro a alho porro mantm a sua tradicional funo de excitante sexual e 
protector dos maus espritos,

104

A festa surge nas fratrias como a sada para a troca das mulheres; 
habitualmente inimi    -

gas, as fratrias alimentam essa hostilidade pelo antagonismo das crenas 
religiosas: cada fratria tem como totem um animal ou objecto de sinal 
contrrio ao da outra fratria. A aliana e a troca de mulheres s se efectua 
em perodo de festa, quando os interditos so levantados, incluindo os 
religiosos que afastavam os dois grupos- s nessa ocasio os

casamentos e as alianas se tornam possveis. Findo o tempo da festa, cada 
grupo regressa aos seus interditos e as mulheres  sua nova morada, perdendo 
as suas crenas e adaptando-se a novas - situao que s a mulher consegue 
pois est acima do interdito.

Actualmente, s um fenmeno universal pode ser identificado como verdadeira 
festa: a guerra, talvez por que fosse j essa a essncia do homem primitivo, 
o ser-pa ra-a -morte. A guerra permite os maiores excessos da civilizao: 
gastos em armas, homens, edificios- todas as indstrias se orientam para a 
produo blica, para a alimentao do exrcito, violncia, rudo, 
desperdcio, destruio e morte,- inverso dos valores mais significativos 
da humanidade:  obrigatrio matar e proibido no matar - a desero, a fuga 
 actividade blica  punida com a morte.  um facto que todas as perverses 
e corrupes surgem durante a guerra, pois a inverso de valores  a prpria 
lei da festa.

A turbulncia geralj no  possvel. Ela deixa de se produzir em datas 
fixas ou numa vasta escala. Dir-se-ia que se diluiu no calendrio, como que 
reabsorvida na monotonia, na regularidade necessrias. As frias sucedem-se 
ento  festa.  certo que continua a

tratar-se de um tempo de dispndio de livre actividade, de interrupo do 
trabalho regulado, mas  uma fase de repouso e no de paroxismo. Os valores 
encontram-se completamente invertidos.- num caso, cada qual parte para seu 
lado; no outro, todos se renem no mesmo ponto. As frias aparecem como um 
vazio, pelo menos como um abrandamento da actividade social. Elas so, 
simultaneamente, impotentes para satisfazer o indivduo. So desprovidas de 
qualquer carcter positivo.

A felicidade que eles proporcionam  feita em primeiro lugar do afastamento 
dos aborrecimentos de que elas distraem, das obrigaes de que elas 
libertam. Partir de frias  antes de mais fugir s suas preocupaes, 
desfrutar de um descanso bem ganho.  isolar-se mais do grupo em vez de 
comunicar com ele no instante da exuberncia de cada um, na hora do regozijo 
de cada um. Por isso as frias no constituem, ao contrrio da festa, a 
enchente da existncia colectiva, mas a sua estiagem.

Importa ento perguntar que agitao de igual amplido liberta os instintos 
do indivduo, recalcados pelas necessidades da existncia organizada, e 
desemboca ao mesmo tempo numa efervescncia colectiva de to vasta 
envergadura. Parece assim que, desde o aparecimento dos Estados fortemente 
constitudos, e cada vez mais nitidamente  medida que a sua estrutura se 
afirma, a antiga altemncia do regabofe e do labor, do xtase e do domnio 
de si, que fazia renascer periodicamente a ordem do caos, a riqueza da 
prodigalidade, a estabilidade do arrebatamento, se viu substituda por uma 
altemncia de ordem completamente diferente, mas que  a nica no mundo 
moderno a apresentar um volume e caractersticas correspondentes.- a da paz 
e da guerra, a da prosperidade e da destruio dos resultados da 
prosperidade, a da tranquilidade regulada e da violncia obriga tri. 

Roger Caillois, ob. cit.

Ritos e rituais

Vrias estratgias simblicas permitem abrir esta brecha do sagrado no 
espao profano; o rito corresponde a essas estratgias e  codificado pelo 
mgico, pelo feiticeiro ou pelo padre - pelo intrprete que certos sinais 
permitiram que fosse escolhido - oficializado pela comunidade.

105

Feiticeiro (frica), ostentando os seus smbolos de intriorete do sagrado

Dum modo geral o rito  o mito em aco (impor no presente um passado que 
propicia o futuro) - o rito age sobre o sagrado e movimenta no mundo profano 
a aco das foras propcias, da caa, das colheitas, da guerra, ou fornece 
a fora animica que se instala nos homens, caso dos ritos de passagem.

Procisso de diabos em Oruro, na Bolvia, para afugentar o mal

0 rito renova, no presente, parte da criao.  A religio organiza-se a 
partir da noo de dvida do sentido, que a sociedade sente em relao aos 
demiurgos do seu espao territorial e da sua sociedade.

Os deuses que criaram e deram sentido  sociedade podem e devem intervir 
para manter essa sociedade; h no sentido religioso a crena de que as 
foras naturais ou divinas so susceptveis de serem sensibilizadas aos 
pedidos e necessidades humanas atravs de rituais de splica e subordinao, 
que as levam a interceder pela sociedade.

Procisso catlica

106

0 ritual mgico difere do ritual religioso, se bem que religio e magia 
apresentem conotaces de sentido e ritual, o que permite uma certa 
ambiguidade de interpretao, principalmente nos tempos mais recuados, sem 
que haja acesso directo a documentos pelo historiador ou antroplogo. 0 
ritual mgico pretende introduzir o sagrado no profano de forma violenta, 
coagindo o sagrado a manifestar-se a favor ou contra, conforme a inteno. 0 
mgico atravs do ritual controla foras favorveis que por sua vez 
controlam foras desfavorveis, coagindo-as a agir.  o fundamento de toda a 
mitologia de gnios bons e maus, de contos de fadas e duendes.

0 mgico pretende subjugar as foras da natureza desencandeando antiforas 
que ele descobre estudando os sinais do sagrado. Esta forma de conhecimento 
estabelece-se predominantemente em termos sensveis - sobre um mundo 
sensvel, catico, a forma de interveno  igualmente sensvel, se bem que 
simblica - e n o racionalizada como o ser a interveno cientifca, que, 
tal como a magia, intervm sobre a natureza. 0 signo  visto como um 
indicador, um sinal emitido pela natureza e no, como na cincia,k um modelo 
conceptual. Os intrpretes dos signos da natureza que permitem constituir um 
aparelho de domnio sobre ela, os mgicos e feiticeiros, seguem uma 
preparao intensa que inclui toda a cultura sagrada do grupo. 0 papel do 
feiticeiro  apaziguar tenses e anseios da comunidade, controlar a sua 
coeso e descobrir sinais propcios a qualquer tipo de aco da comunidade.

Estabelece, como o padre religioso, a relao entre o natural e o 
sobrenatural, o

sagrado e o profano - nesta perspectiva no h distino de fundo entre a 
magia e a

religio, o mgico e o padre.

Figura social, com seu estatuto especfico aceite pelo grupo, o feiticeiro 
no se integra na sociedade; imbudo do sagrado, rodeado dos seus espritos 
protectores, ele  um homem perigoso, pois o sagrado destri e mata. Vive 
separado do grupo, que receia ser contaminado. Atitudes que ainda marcam a 
mentalidade, de modo inconsciente, como o

receio de que um olhar dum agente do sagrado possa ferir ou matar. Os chefes 
religiosos e polticos imbudos do sagrado recusavam-se olhar de frente os 
seus sbditos, pois iriam contamin-los - atitude que se levanta em quase 
todas as teocracias, e que a jornalista Oriana Falacci detectou na sua 
entrevista com o x da Prsia

Sobrevivncia de mentalidade mgica em prticas actuais

107

Arte, Folclore, Msica e Teatro

Atitudes e linguagem de relao situam-se nos limites do domnio 
figurativo. Ritmos e espaos sociais, atitudes e insignias, conduzem os 
membros do grupo  representaco permanente do seu prprio drama tnico. A 
vida tnica  toda ela uma figurao, na medida em que o indivduo s se 
pode considerar incorporado no grupo quando assume a uniformidade dos 
gestos, de frmulas e traos vestimentares que permitem a assimilao da sua 
natureza de homo sapiens a uma determinada cultura. Das prticas elementares 
maqui .nai.s, s prticas excepcionais, e da vida tcnica  vida scio -
religiosa, a cons-

cincia do carcter figurativo aumenta progressivamente para terminar em 
operaes cerimoniais relativamente s quais o limite entre o acto social e 
o acto figurativo  j bastante impreciso.

Seria bastante delicado tentar formular com demasiada preciso uma hiptese 
sobre o

momento em que as sociedades passam do cerimonial vvido para a 
representao teatral ou a figurao, considerada como essencial, para a 
decorao pura e simples. (        ...) Ser que bastaria, ento, seguir o 
fluir do tempo e a escala das hierarquias tecno-econmicas para descobrir o 
momento em que o religioso social e teatral se separam ? Trata-se porm de 
uma fico, j que, em todas as sociedades, estas diversas formas coexistem, 
denotando gradaes insensveis. Quer se trate de um sacrifcio, de um 
discuro poltico ou de uma comdia, a relao entre os indivduos figurantes 
e a matria figurada no  to importante como os valores comuns existentes 
entre figurantes e espectadores, os quais permitem inscrever um aparelho 
esttico, em consonncia com as convenientes emooes, numa cadeia operatria 
de carcter religioso ou social.

A. Leroi-Gourhan, 0 Gesto e a Palavra, 2

A arte, a msica e o teatro existem em qualquer sociedade, a partir do homo 
sapiens, inseridos num universo social onde predomina o sentido do sagrado. 
Se a prpria funo do adorno e do vesturio , acima de tudo, um cdigo 
simblico de identificao e relao social, a tatuagem e os gestos, com a 
mesma funo, vo abrir um campo simblico e figurativo que designam o 
caminho da arte e do teatro.

0 homem representa, como actor social, num espao onde os seus gestos e 
palavras tm um sentido social - na representao mtica no faz mais do que 
representar uma

histria com os smbolos onde se reconhece. 0 teatro segue a via do ritual 
religioso, mas

 prprio do homem simblico, que aplica as sries de gestos tcnicos a 
outras funes e actividades, recriando na arte e na msica os mesmos 
movimentos da tcnica. Os primeiros instrumentos de msica so os tubos de 
osso do Paleoltico Superior, podendo imaginar-se o uso de flautas apitos e 
harpas talhadas em madeira, cana ou crina de mamute.

A repetio constante dos movimentos de produo de utenslios, teria 
permitido a


descoberta destes instrumentos que se baseiam no mesmo princpio - a flauta 
e o tambor. A msica, a poesia e o teatro do homem pr-histrico continuam a 
ser desconhecidos ao antroplogo, embora toda a estrutura tcnica e 
simblica admitam a sua existncia,- porm a arte deixou testemunhos 
marcantes a partir do Paleoltico Mdio. Para Leroi-Gourhan a arte parietal 
do Paleoltico Superior narra mitos que o homem actual no sabe interpretar, 
mas cuja disposio mitolgica  inegvel, identificando-a como uma

arte de narrativa simblica, e no de tipo mgico como  habitualmente 
admitido.

108

Arte do Paleoltico e Arte africana; a interpretao da arte s se torna 
possvel quando inserida no universo mtico dos produtores artsticos

0 folclore estuda todos os aspectos da cultura popular, contos, poesias, 
crenas, romarias, utenslios, danas e canes, sobrevivncias de ritos, 
etc.  portanto o campo especfico da sobrevivncia das culturas 
tradicionais que canalizaram as prticas duma sociedade em extino ou mesmo 
extinta.

Decorao arte popular e romnica

109

Tal como nas sociedades tradicionais, a arte popular combina a tradio 
musical com a dana - herana das narrativas rituais, onde a msica e a 
dana permitiam a passagem para o sagrado atravs do transe. Os instrumentos 
populares tradicionais so habitualmente de sopro como a flauta de 
percusso, com cordas, e os tambores - equivalendo s operaes tcnicas 
primitivas do martelar e do serrar.

Em quase todas as culturas surgiu um instrumento musical tradicional, o 
rombo, que em quase todos os locais se apresenta com duas calotes ovais, 
presas por um cordo.

Do folclore de Lavra, Matosinhos: as Deixas

A questo das deixas  um negcio muito complicado. Logo que os filhos 
esto casadoiros e os pais se acham demasiado velhos e fatigados para 
continuar a dirigir o amanho das terras, trata-se de fazer a deixa, que 
consiste numa doao. Para maior clareza, ponhamos como exemplo o caso de 
uma propriedade abaloada (avaliada) em quatrocentos contos. Em determinada 
altura doam tudo quanto possuem a um nico filho, Tal contrato faz-se 
mediante vrias clusulas sine qua nom):

1) Ao filho a quem  doada a casa, com todas as suas dependncias e campos, 
-lhe concedido, ipso facto, a quarta parte do valor total - parte esta de 
que no tem contas a prestar aos irmos.  sua, e tem por nome a  cota 
disponible. No caso suposto, o rapaz seria beneficiado com cem contos.

2) No prprio acto da doao, o mesmo filho  obrigado a entregar aos pais, 
em

dinheiro, metade do valor de toda a propriedade, excluda j a cota 
disponible. Como o no o tem, arranja noiva que lho traga em dote. Aqui 
est, finalmente, toda a razo dos wasamentos falados. Continuando a nossa 
suposio de uma propriedade avaliada em quatrocentos contos, o rapaz 
entregaria 150.

3) Esse filho fica com o encargo de cuidar dos pais, na sade ou na doena 
at  morte deles. Os outros irmos no tero de pensar nisso.

4) Os pais ficam a gozar de metade do usufruto das terras, e diz-se que so 
reservatrios, ou que tm reserva. Na realidade, so scios do filho, 
pois metade pertence-lhes ainda, e a outra metade  do mesmo filho - que a 
comprou (clusula segunda).

0 benefcio da cota disponible reveste o aspecto de uma recompensa - pois 
 aquele irmo que assumir, da em diante, a direco e a responsabilidade 
de tudo. A reserva , para os pais, uma verdadeira reforma.

5)  morte de um dos velhos, a metade que lhes pertencia  dividida em dois: 
uma, para o sobrevivente, outra repartida por todos os filhos sem excepo.

6)  morte de um segundo cnjuge, o valor que este possua  novamente 
repartido por todos.

As raparigas recebem o que lhes cabe, de preferncia em dinheiro, para 
formarem o seu dote. Costuma dizer-se que os irmos  que casam as irms, 
recebendo, eles, o valor em terras - elas, em dinheiro - sendo este mesmo 
proveniente, como vimos, do prprio dote das cunhadas (clusula segunda).


7) As raparigas solteiras tm, enquanto o forem, direito a reserva, isto 
, direito a

viver em casa do irmo a quem coube a propriedade dos pais, quer durante a 
vida destes, quer aps a sua morte. Os outros irmos conjugam o que 
receberam em herana, com o que lhes trazem as noivas. Instalam-se em casa 
de renda, e depois, num esforo lento, vo trabalhando at poderem comprar 
propriedade a seu gosto.

Em consequncia destas disposies, os pai   .s vivem uma velhice tranquila, 
e a mesma casa, com todas as suas dependncias, mais ou menos,  transmitida 
fielmente de pais a filhos, sem correr o risco de ser dividida, ou de vir a 
pertencer a outra famlia.

Maria Alves Lima, in Matosinhos, Coimbra, 1963

110

Cura do Bicho, feridas e borbulhas malignas no corpo. Talha-se com as 
seguintes palavras, em Perafita, Matosinhos:

Eu que talho?
- Bicho, bicho, aranha, aranho, Eu talho o bicho de toda a nao Pelo 
poder de Deus do milagroso S. Silvrestre Tudo o que fao, preste. (Idem) 
Mulheres fumadoras Nos concelhos de Mrtola, Alcoutim, Almodvar e Lagoa, 
as mulheres, geralmente depois dos 50 anos, entregam-se ao vcio do tabaco.

Observamos o costume em Mrtola, e nas aldeias de Vicenes, Lombardos, 
Bicada, Esprito Santo, lamo, Fornoa, Marrocos e Ronco, do mesmo concelho; 
em P-de-Boi concelho de Almodvar; em Vaqueiros e Martim Longo, no concelho 
de Alcoutim, e em Ferragudo, no concelho de Lagoa.

Enquanto nos concelhos de Almodvar, Mrtola e Alcoutim o costume se mantm 
muito recatado e  quase geral, nestes dois ltimos, o uso de uma 
cachimbeta para absoro do fumo do tabaco, em Ferragudo notamos que a 
mulher se expe um pouco confiadamente e utiliza o cigarro enrolado em papel 
fino e por suas prprias mos, sendo hbito fum-lo  tarde, sentada  porta 
de casa.

Em Vaqueiros, as mulheres idosas, vivas ou no, recolhem-se para tomar o 
fumo, fazendo-o geralmente  noite, na cama, quando se deitam. 

Extracto de Mulheres Fumadoras, Margarida Ribeiro, in Trabalhos de 
Antropologia e Etnologia, vol. XX1,

Porto, 1969, Faculdade de Cincias

A lngua como feni5meno e sistema sociocultural mais significativo

A linguagem  um produto da cultura mas a sua situao excepcional de 
receptculo e de veculo de transmisso foi particularmente retida por uma 
escola que se reclama de E. Sapir e de B. Whorf. A partir daqui ela  ao 
mesmo tempo um produto e um factor. Partilhar em comum uma lngua  
partilhar representaes e atitudes fundamentais que, a um nivel mais 
profundo que o conhecimento explcito   , definem uma personalidade; a 
linguagem  portanto o lugar privilegiado graas ao qual se definem as 
relaes que ligam a linguagem  cultura. Importa ento perguntar em que 
planos da linguagem penetramos verdadeiramente na matriz da sociedade como 
comunidade lingustica.

L.) Povos falando lnguas diferentes vivem de facto em mundos de realidades 
diferentes, no sentido em que as Anguas afectam de uma certa maneira as 
percepes sensoriais e os hbitos de pensamento. Dependemos da nossa lngua 
pois ela  a maneira de exprimir tudo o que conceme  nossa sociedade.  uma 
iluso crer que o pensamento quadra com a realidade independentemente do uso 
da lngua, e que a lngua seja apenas um meio acidental de resolver 
problemas de comunicao. 0 mundo reah)  em grande parte inconscientemente 
construdo a partir de hbitos lingusticos do grupo. No h duas lnguas 
suficientemente semelhantes para representar a mesma realidade social. Os 
mundos em que vivem as diferentes sociedades no so simplesmente o mesmo 
mundo com etiquetas diferentes. Os hbitos lingusticos da nossa comunidade 
predispem-nos a

certas escolhas de interpretao, manifestadas no comportamento e nas 
representaes.


0 estruturalismo tem um incontestvel valor explicatvo, mas  uma atitude 
complementar de uma outra atitude. Isto verifica-se nas duas acepes que se 
d  linguagem. Uma  a acepo restrita. Trata-se ento de sistemas de 
signos, manifestos por diversos meios tcnicos; a lngua  de entre eles o 
mais diferenciado, mas  preciso acrescentar, por exemplo, os gestos, os 
comportamentos, os ritos, as sinalizaes. Estes sistemas permitem 
estabelecer uma relao dinmica entre o indivduo e o seu prxi   .mo, no 
quadro de um acordo tcito, convenci  .onal e historicamente particular.

Segundo a acepo ampla, a que Lvi-Strauss prope, a linguagem torna-se 
sinnmo de comunicao. Ela  a propriedade da maioria dos sistemas sociais 
na medida em que eles se fundam no princpio da recIprocidade. So ento 
encarados como constitu dos por tecidos complexos e subjacentes atravs dos 
quais se operam transmisses e crculaes (mulheres, mensagens, bens e 
servios).

A acepo ampla, tal como  formulada, implica o postulado estruturalista; a 
realidade social est organizada de acordo com padres a partir dos quais se 
elaboram os dados observveis, mas que se no podem explicitar seno por uma 
reduo e uma abstraco operadas pelo espinto reflexivo sobre esses dados. 
0 sentido amplo postula que uma

explicao  possvel.

Maurice Houis, Langue et Culture, in Encyclopdie de Ia Piiade, Gallimard, 
1968

A lngua  determinante de um universo de comportamentos que permite 
identificar o

grupo que a utiliza. Existe apenas para o grupo que a compreende,  um 
fenmeno social, mas no sentido em que  o fenmeno mais amplo de toda a 
etnia surge como ver-

dadeiro sistema sociocultural, pois canalisa e subentende subtilezas de 
linguagem e comportamento que s so acessveis aos seus receptores  
tnicos.

A lngua surge como um instrumento de coeso, coerncia, relao e 
transmisso cultural e social e, ao mesmo tempo, de segregao dos grupos 
sociais:  no que compreende de esttico e dinmico, institucional e 
marginalizado, que permite defini-Ia como sistema sociocuilural.

At ao sculo XIX a linguagem dos povos permite, a partir duma anlise do 
exterior, determinar as suas vivncias e concepes do mundo. Hoje a 
linguagem est demasiado determinada pelo contexto cultural e ideolgico e  
na literatura que se pode fazer esse levantamento, no que ela tem de factor 
inconsciente e interiorizado.

A importncia da lngua: arte africana

2.5. 0 dinamismo cultural

2.5.1. ASPECTOS ESTTICOS E DINMICOS DA CULTURA

Tericos do sculo XIX apresentam j modelos da dinmica social e cultural 
das sociedades humanas,- Augusto Cornte criara a Teoria dos trs estados, 
teolgico, metafsico e

positivo e Karl Marx na Misria da Filosofia definira a dinmica 
sociocultural a partir do

112

crescimento das foras produtivas e da luta de classes. 0 motor da dinmica 
seria o crescimento das foras de produo que, alterando-se, arrastaria 
inevitavelmente a modificao do sistema social; sobre estas duas alteraes 
elaboravam-se as superstruturas polticas, do que resultava a segregao das 
classes econmicas.

Na segunda metade do sculo XIX e na primeira metade do sculo XX, os 
antroplogos e os socilogos que faziam o levantamento e estudo das terras 
colonizadas em frica, na sia, Amrica e Insulindia verificaram a 
existncia, nas comunidades tradicionais, de fenmenos de dinamizao 
cultural que provavam definitivamente que nenhuma estrutura sociocultural  
esttica. Porm, o tempo e o tipo de alterao variavam de sistema para 
sistema, de cultura para cultura. Essa observao permitiu o aparecimento de 
conceitos de dinmica sociocultural como aculturao, contacto cultural, 
desfasamento, acelerao cultural, flutuaes e pseudomorfose.

No s as culturas no evoluem ao mesmo ritmo, como cada cultura manifesta 
tendncia para aceitao ou rejeio de apports culturais estranhos ou em 
contradico com os seus padres culturais. Essa tendncia  aceitao ou 
rejeio de apports exteriores,  quase sempre concomitante com uma idntica 
atitude em relao a modificaes produzidas no seu interior.

Entretanto, em todas as culturas, no h uma verdadeira unidade de 
tendncias, de progressismo ou conservadorismo; no interior da cultura so 
segregados antagonismos e

contradies, no interior ou no exterior das instituies, resultantes das 
prprias contradies e antagonismos econmicos, sociais, religiosos e mesmo 
tnicos.

Contra uma corrente muito divulgada que admita a existncia de culturas e 
sociedades sem histria, Lvi-Strauss prope a designao de sociedades 
quentes e sociedades frias.

Sugerimos, algures, que a infeliz distino entre povos sem histria e os 
outros

poderia ser vantajosamente substituda por uma distino entre o que 
chamaramos, por necessidade de causa, as sociedades frias e as sociedades 
quentes, umas procurando, graas s instituies que se constituram, 
anular de modo quase automtico o efeito que os factores histricos poderiam 
ter sobre o seu equilbrio e a sua continuidade,- as outras interonzando 
resolutamente o evoluir histrico para fazer dele o motor do seu 
desenvolvimento.

Lvi Strauss, La Pense Sauvage, ed. Pion, 1962

Outra verificao permitiu o aparecimento do conceito de pseudomorfose. Esta 
verifica-se nas sociedades colonizadas que tentam libertar-se da cultura do 
colonizador, mas que inconscientemente recorrem a elementos retirados do 
universo que rejeitam, nomea-

damente no campo poltico, militar e jurdico. Nas sociedades colonizadas  
vulgar o


fenmeno de aculturao, que  a habituao a uma cultura estranha, 
habitualmente imposta. A acomodao a nova cultura no significa 
necessariamente progresso, produzindo-se um desfasamento cultural entre 
cultura-me e cultura assimilada. Dum modo geral a aculturao implica a 
destruio de todos aqueles aspectos que contrariam a

aco de domnio da cultura mais forte, ou ento a cultura colonizada surge 
desvirtuada pelo universo cultural do colonizador.  o caso da produo de 
esculturas e mscaras dos povos africanos, orientadas para um crescente 
mercado e completamente desviadas da sua funo cultural.

Conservantismo e modernizao

As respostas culturais de uma dada sociedade provm sempre duma relao 
dialctica entre os homens e o seu meio geogrfico. So estas respostas 
culturais que determinam as instituies mais fortes e mais conservadoras da 
sociedade, quando a comunidade pde sobreviver com o aparelho tcnico que 
produziu.  este sentimento de segurana, veiculado pela tradio que 
permite que a resposta a influncias do exterior surjam numa perspectiva 
idiossincrtica(,,).

113

Ao contrrio das culturas superadaptadas ao meio, as outras culturas so 
mais susceptveis de se tornarem abertas a influncias estranhas. Como as 
influncias do exterior entram habitualmente atravs das instituies 
ideolgicas e polticas, estas sociedades mais desadaptadas ao aparelho 
econmico e tcnico, constituiram igualmente instituies mais flexveis.

Num sistema sociocultural a base estrutural que assenta nas relaes da 
tcnica com o meio natural, (economia e tcnica),  a infraestrutura- esta 
infraestrutura implica a existncia de instituies sociais, polticas, 
religiosas, cientficas, ideolgicas - a superstrutura.

Modelo sociocultural (A. Mesquitela Lima, A Cultura Portuguesa, a Cincia e 
a Tecnologia)

Infraestruturas que souberam encontrar respostas culturais extremamente 
adaptadas ao meio ambiente, possuindo um aparelho tcnico eficaz, produzem 
uma superstrutura adequada divulgadora dum modo de estar no mundo que 
gratifica as populaes. A cultura esquim surge como eminentemente 
esttica, pois conseguiu produzir estas condies; do mesmo modo o aparente 
eslatismo do Egipto Antigo, prolongando-se com um ar familiar durante quase 
trs milnios, representa o conservadorismo duma civilizao satisfeita com 
as suas respostas culturais e simblicas. Os povos comerciais, que no 
dispem de produtos bsicos de subsistncia e procuram tcnicas de 
circulao e venda de produtos de outras culturas e outros povos, esto 
sujeitas a constantes alteraes no sistema econmico, -lhes indispensvel 
uma tendncia  modernizao. H povos que se especializam mesmo em tarefas 
de circulao de produtos, como  o caso de Portugal.

2.5.2. MECANISMOS DE MUDANAS CULTURAIS.

MECANISMOS INTERNOS E EXTERNOS

As culturas crescem e evoluem em funo do contacto cultural, se bem que 
seja indispensvel que contenham em si apetncia de mudana, ou seja,  
indispensvel que haja dinamismo interno, a partir de pulses 
adaptativas(e).

Estes rnecanismos internos so a descoberta e a inveno, o que implica no 
apenas a

consciencia do envelhecimento das instituies como a capacidade para fazer 
uma ruptura epistemolgica aos paradigmas que circulam com a ideologia. H 
tambm os meca~ nismos psicolgicos de dinamizao interna, que determinam a 
adaptao s influncias culturais. A adaptao pode dar-se em funo duma 
consciente necessidade de mudana da estrutura tcnica e econmica ou 
simplesmente como uma atitude de imitao do que pases considerados 
superiores fazem circular.

A situao de contacto cultural pode ser atravs de simples informao; a 
difuso cientfica, tcnica e artstica pode resultar em invenes 
convergentes para problemas idnticos, pois a mesma situao, havendo 
informao terica idntica, pode levar ao

paralelisrno ou convergncia de invenes. 0 arado parece ter sido uma 
inveno convergente em vrios locais do globo.

114

0 contacto cultural - e portanto a dinmica cultural - est muito dependente 
desta ocorrer por vontade prpria da sociedade, do seu dinamismo interno, ou 
por imposio externa. Nos casos de difuso cultural, h assimilao de 
apports externos, em termos de mudana da infraestrutura e, alterando-se 
esta, tambm se altera a superstrutura. Nos casos de contacto cultural 
forado, como da aculturao, pode surgir o fenmeno do pseudomorfismo ou a 
simples destruio da infraestrutura e da superestrutura, sem que outras, de 
acordo com o ambiente geogrfico-natural e o imaginrio tradicional, os

venha substituir. Surge ento o fenmeno de procura de identidade cultural.

A situao dum sistema sociocultural em relao a informaes culturais de 
difuso, pode apresentar dois aspectos: no sistema onde domina o. 
conservantismo as informaes que atingem a superstrutura (que domina os 
meios de controlo e difuso interna) so recolhidos e impedidos de circular 
na sociedade; este bloqueio cultural pode corresponder a um entrave  
cultura exterior - barreira de ignorncia e etnocentrismo -

caracterstico da sociedade, ou resultar apenas de uma poltica de 
sobrevivncia da superstrutura, que controla todas as informaes que possam 
pr em perigo a ideologia oficial, o sistema econmico-social e o regime 
poltico.

No caso dum sistema sociocultural aberto  modernizao, as informaes so 
fornecidas pela superstrutura  sociedade, atravs do sistema de 
comunicao, da permisso de circulao ou mesmo da assimilao das 
novidades s instituies educativas, politicas e sociais. A circulao das 
informaes pode impelir a mudanas- se as mudanas atingem apenas a 
superstrutura - as instituies polticas, ensino, cincia e tcnica -

sem modificao da relao econmica com o meio ambiente, a sociedade pode 
sofrer reformas; quando as mudanas atingem o sistema de produo e com ele 
as relaes sociais, a nova infraestrutura implica toda uma nova 
superstrutura, uma nova concepao do mundo, um novo sistema sociocultural. 
Uma nova estrutura sociocultural pode surgir na sequncia de uma revoluo.

Contacto cultural por difuso

Num instante os ciganos transformaram a aldeia. Os habitantes de Macondo 
encontraram-se de repente perdidos nas suas prprias ruas, aturdidos pela 
feira multitudinria. (... ) Os meninos teimavam para que o pai os levasse 
para conhecer a portentosa novidade dos sbios de Mnfis, anunciada  
entrada de uma tenda que, segundo diziam, tinha pertencido ao rei Salomo. 
Tanto insistiram, que Jos Arcdio Suendia pagou os

trinta reais e os conduziu at ao centro da barraca, onde havia um gigante 
de torso peludo e cabea rapada, com um anel de cobre no nariz e uma pesada 
corrente de cobre no tornoselo, vigiando um cofre de pirata. Ao ser 
destapado pelo gigante o cofre deixou escapar um hlito glacial. Dentro 
havia apenas um enorme bloco transparente, com infinitas agulhas internas 
nas quais se despedecava em estrelas de cores a claridade do crespsculo. 
Desconcertado, sabendo que os meni    .nos esperavam uma explicao 
imediata, Jos Arcdio Buenda atreveu-se a murmurar.-


 o maior diamante do mundo. No - corrigiu o cigano. -  gelo. Jos Arcdio 
Buendia, sem entender estendeu a mo para o bloco, mas o gigante afastou-a. 
---Para pegar, mais cinco reais-, disse. Jos Arcdio Buendia pagou, e ento 
ps a mo sobre o gelo, e menteve-a posta por vrios minutos, enquanto o 
corao crescia de medo e de jbilo ao contacto do mistrio. Sem saber que 
dizer, pagou outros dez reais para que os seus filhos vivessem o prodgio da 
experincia. A ureliano deu um passo para diante e ps a mo, mas retirou-a 
logo, ---Est a ferver-, exclamou assustado. Mas o

pai no lhe prestou ateno. Embriagado pela evidncia do prestgio, 
esqueceu-se da frustrao das suas empresas delirantes (... ) Pagou outros 
cinco reais e com a mo posta no bloco, como prestando um juramento sobre o 
texto sagrado, exclamou.-

-Este  o grande invento do nosso tempo.

Gabriel Garcia Marquez, Cem Anos de Solido

115

0 crescimento cultural. As orientaes da cultura

0 crescimento cultural  lido em funo de critrio de produtividade e bem-
estar, no mundo de hoje. 0 critrio tecnicista  o critrio imposto pela 
civilizao ocidental ao resto do mundo, mas outros critrios imperaram ao 
longo dos tempos em culturas diversas. Durante a expanso europeia dos 
sculos XV e XVI, tal como sucedera com a colonizao da Europa aps a queda 
do imprio romano, o critrio de crescimento cultural era o da 
cristianizao- s se consideravam civilizados os povos com conhecimento da 
verdadeira religio. 0 sentido da civilizao do Egipto Antigo era a 
manuteno da civilizao tal como se admitia ter sido criado nas origens, o 
que explica a sua relutncia a entrar na civilizao do bronze e do ferro.

Em todo o caso, o crescimento cultural tem sempre de contar com a 
alternncia da ordem e da desordem, no sentido de alterao das instituies 
que j no se enquadram nos novos esquemas de vida da sociedade.  este o 
sentido habitual do conflito das gera- es. De qualquer modo  atravs de 
todos os inconformistas com as instituies socioculturais, os marginais ou 
marginalizados pela sociedade, que a sociedade pode evoluir culturalmente. 
Incluem-se neste caso os cientistas e tcnicos inovadores capazes de 
ultrapassar os paradigmas de explicao poltico-social, cientfico-tcnico 
e artsticos da cultura oficial, criando alteraes com as suas invenes 
tericas e prticas. So os elementos que, interiorizando o mpeto de 
mudana social, se tom@m capazes de negar as

instituies vigentes, podem alter-la ou reform-la.

Os elementos mais vocacionados para assumirem esta posio de contestao ao 
sistema so precisamente aqueles que conhecem o sistema por dentro, que 
conhecendo-o o podem desmontar, ou seja, os elementos sados da 
superstrutura, ideollogos, cientistas, tcnicos, professores,- quando esta 
contestao se organiza em torno de um novo

modelo social, pretendendo substituir todo o sistema sociocultural vigente, 
est-se em presena duma Contracultura.

A Contracultura hippy dos anos cinquenta e sessenta foi uma reaco  guerra 
do Vietnam e  recusa da burocracia crescente dos colarinhos brancos da 
sociedade americana. H sempre uma recusa  uniformizao,  massificao, 
que se manifesta dentro dos grupos sociais e tnicos.

Nos arredores das cidades, as resistncias  integrao cultural so mais 
sensveis e

ainda h laos que unem os citadnos recentes ao universo que abandonaram ou 
que os atrai. Prova disso  este inqurito realizado por uma equipa de 
prospeco nas zonas das pequenas casas individuais das grandes 
concentraes urbanas. Habitantes annimos criam um universo simblico com a 
---decorao de vedaes, a ornamentao de fachadas, as paisagens que 
incluem as escadas, o jardim, a cerca... miniaturizaes que, a partir de 
pequenos jardins, sugerem espaos imaginrios---. 

Daniei Lecombe, Le Monde Diplomatique, 1976


As sociedades permissivas actuais, as democracias em particular, conhecem 
uma verdadeira obsesso contra a diferena, utilizando vrios processos para 
impedir a difuso da contracultura ou simples posies de contestao. Com 
um aparelho de controlo de massas extremamente organizado, como  o caso do 
concurso dos meios de comunicao de massas, as democracias podem facilmente 
destruir um movimento de contestao utilizando a arma de sua vulgarizao, 
desvirtuando-lhe o sentido con@estatrio.  conhecido o significado da 
utilizao das calas de ganga como esforo de contestao contra a 
discriminao social atravs do vesturio e do cabelo comprido contra as 
prticas dos burocratas. Cadeias de produo divulgaram a utilizao das 
calas de ganga, que passaram a ser produzidas para todos os grupos etrios 
e sociais - e no compradas, velhas, na Marinha Mercante - fazendo-lhe 
perder a fora simblica. Todos os simbolos do movimento hippy sofreram a 
mesma capitalizao econmica e este movimento acabou por ser dominado por 
uma via considerada no violenta.

116

Os socilogos actuais duvidam da eficcia duma Contracultura nas sociedades 
industrializadas nos tempos de hoje,- os casos histricos da Concracultura 
crist no mundo romano, impondo-se como cultura oficial com a queda daquele, 
 hoje verdadeiramente apenas um caso histrico.

Na realidade, os sistemas ao divulgarem elementos contraculturais, de 
cultura marginalizada, mesmo da cultura popular, tiram dividendos desse 
facto, no s econmicos, mas igualmente de crescimento.  um facto inegvel 
que a utilizao das calas de ganga por todos os jovens, e a moda dos 
cabelos compridos contriburam para uma indiscriminao social e uma 
libertao dos costumes, se bem que muito aqum do esquema cultural proposto 
pelo movimento hippy.

Agrupamento hippy nos anos sessenta

A cultura hoje tende portanto  mundializaco, devido ao sistema de 
comunicaes, aos audiovisuais e  inegvel comunicaao entre os vrios 
pases do mundo, mesmo entre aqueles que por motivos poltico-ideolgicos 
aparentam um bloqueio  circulao de informaes. A tendncia geral  a da 
industrializao, verificando-se plenamente, a nvel de todo o planeta, o 
desaparecimento das minorias tnicas ainda ciosas das suas culturas 
tradicionais. Segregadas e artificialmente isoladas no mundo industrial 
tendem a perder a sua verdadeira identidade. A sociedade industrial 
planetria surge como a maior sociedade etnocntrica da histria, 
dificultando a aco de pesquisa das diferenas culturais, nas quais a 
Antropologia procura encontrar ainda, resposta para problemas negativos do 
crescimento cultural do mundo de hoje, especialmente o problema da crescente 
dependncia da cultura.

Minorias tnicas segregadas pela civilizao industrial

117

Designou-se por democracia de ---Massas- o trao fundamental que determina 
as formaes polticas contemporneas. (.. J Pretendemos esboar aqui os 
seus elementos

pn .ncipai.s,. na democracia de massas j no so os indivduos, nem os 
grupos individuais identificveis, que constituem os verdadeiros elementos 
da poltica, mas ---totalidades unificadas e uniformizadas---. Estas surgem 
sob a forma de duas unidades determinantes: primeiramente, o enorme aparelho 
de produo e distribuio da indstria moderna,- e

em segundo lugar a massa que serve esse aparelho.

0 facto de se dispor de*sse aparelho, ou mesmo das suas posies-chave, 
significa que se dispe das massas,- esta posio de fora resulta automati 
 .camente da diviso do trabalho - a resultante tni .ca como 
racionalidade do funcionamento do aparelho que englo@a e mantm o conjunto 
da sociedade. 

Herberi Marcuse, Teoria das pulses e liberdade

Que salda?

118

(3. A ANTROPOLQGIA CULTURAL PORTUGUES,@
01

Jos Leite de Vasconcelos i@W

3. 1. Alguns aspectos hstricos

A Antropologia cientfica portuguesa s se constitui no sculo XIX, quando a 
maioria das cincias humanas se definem cientificamente dentro dos quadros 
do Positivismo.

Entretanto podem considerar-se muitos trabalhos de observao e descrio 
dentro do mbito antropolgico, muito antes desta disciplina se ter definido 
com objecto e mtodo prprios.

Podem sistematizar-se dois grupos de documentos e estudos que tratam de 
povos e culturas.- o perodo da literatura de viagens, historiografia e 
cincia nutica, desde meados do sculo XV a meados do sculo XVII e o 
perodo do liberalismo.

A expanso martima portuguesa pe em contacto civilizaes desconhecidas ou 
apenas vagamente apreendidas, como as orientais, africanas e americanas. E 
precisamente no sculo XVI que surge a palavra civilizar e civilizado, em 
resultado da situao de contacto provocado pelas descobertas, e do 
consequente etnocentrisnio Cluk5 13 assumido pelos descobridores europeus. 
Os portugueses, a partir da prtica da Cincia Nutica desenvolveram todo um 
universo tcnico e de observao cientfica, que est intimamente 
relacionado com o seu tipo de expanso: comercial e martima. Surge um 
conjunto de cincias de observao como a Geografia, Climatologia, Zoologia 
e Botnica Ultramarinas e, espalhadas em Roteiros, Mapas e Cartas, em obras 
de historiografia ultramarina e em relatos de viagens, todo um conjunto de 
informaes sobre observaes antroplgicas e etnogrficas. Trs obras 
tornaram-se clssicas pela informao antropolgica sobre culturas e povos 
ultramarinos: A Carta ao Rei Manuel (1500) de Pro Vaz de Caminha, escrita 
do Brasil ao rei D. Manuel 1; o Esmeraldo de situ orbis de Duarte Pacheco 
Pereira (1505-1508) e a Peregrinao de Ferno Mendes Pinto (1570-80).

Porm, tanto capites de navios, marinheiros cultos e os religiosos que 
acompanhavam as descobertas ou viagens comerciais, nomeadamente franciscanos 
e jesutas, deixaram um notvel conjunto de obras onde a observao, o 
esprito crtico e a iseno duns e a mincia de outros ajudam a um estudo 
sempre renovado de duas culturas em

paralelo: a dos observadores e a dos observados.

Obras com referncias antropolgicas so ainda, e entre muitas, a  Crnica 
do Descobrimento e da Conquista da Guin, de Zurara, a Relao sobre o 
Congo, de Rui de

120

Pina, o Jornal da Primeira Viagem de Vasco da Garna, de Alvaro Velho, 0 
Livro d(.., Duarte Barbosa, A verdadeira informao das Terras de Preste 
Joo das indias do Padre Francisco Alvares, a  Informao de algumas 
causas dos costumes e leis do Reino da China, annimo, o Itinerrio, de 
Antnio Tenreiro, As lendas da india, de Gaspar Correia, 0 Tratado sobre 
a China do Sul, de Galeote Pereira, o Tratado em que se

contam muito por extenso as cousas da China, com suas particularidades e 
assim do Reino de Ormuz, de Gaspar Cruz e ainda alguns episdios da  
Histria Trgico-martima.

0 sculo XVII, nomeadamente a partir da Restaurao, preocupa-se em criar 
uma histria de Portugal justificativa da sua autonomia. Se bem que 
contestada essa histria, nomeadamente com Alexandre Herculano, promoveu um 
estudo e levantamento das coisas portuguesas, que iriam incluir aspectos 
antropolgicos, especificamente da Pr-histria portuguesa, efectuados a 
partir do sculo XVIII com as Luzes. 0 Liberalismo, nomeadamente o 
liberalismo romntico de Almeida Garrett e Alexandre Herculano, iria criar 
um novo perodo de documentao com caractersticas antropolgicas, no nosso

pas. 0 liberalismo pretende fundamentar-se e legitimar-se com o perodo que 
antecede o Estado Absoluto que acabara de destruir. A Idade Mdia, a origem 
das nacionalidades, a origem dos povos, das naes e do sistema jurdico 
passam a ser o tema mais procurado pelos historiadores. A cultura popular, 
remetida a tradi es originais,  tratada por Almeida Garrett, numa linha 
de levantamento etnolgico que j vinha do Iluminismo. Alexandre Herculano 
inicia tambm um tema que far escola no pensamento portugus contemporneo: 
o tema da decadncia nacional,- dele falaro Antero de Quental, nas

Conferncias do Casino, Oliveira Martins e Antnio Srgio.

A Gerao Socialista de 1852, ao fazer a crtica do regime regenerador, 
considera tambm aspectos sociolgicos portugueses, nomeadamente, Pedro de 
Amorim Viana.

0 Romantismo debrua-se tambm sobre as tradies populares, nomeadamente a

poesia e danas dos. cancioneiros regionais. , porm, com o Realismo que 
este tema ganha maior interesse e  incorporado na literatura e nas belas-
artes.

 com a introduo da prtica do mtodo experimental que surge a cincia 
antropolgica. A Antropologia surge no universo do positivismo, tentando 
afirmar-se como cincia, porm aparece marcadamente ideologizada pelo 
nacionalismo. Ao contrrio das congneres europeias que se afirmam 
gravitando em torno do domnio colonial das grandes potncias, a 
Antropologia portuguesa s muito tarde se debrua sobre os povos e culturas 
das colnias. 0 seu centro de interesse ir ser a definio do homem 
primitivo portugus, pretendendo encontrar no apenas uma diferena tnica 
como uma anterioridade temporal. No admira, pois, que os antroplogos 
portugueses sejam muitas das vezes pr-historiadores e mesmo mdicos. A 
Antropologia Portuguesa ir mesmo definir-se estritamente dentro do campo da 
Antropologia Fsica, como o determinou Mendes Corra.

Estudo dos caracteres fsicos e psquicos sobre os trs aspectos:
1. - da posio do homem na escala zoolgica,
2. - da origem do homem e conhecimento dos primeiros homindeos,
3. - da classificao das raas, povos e tipos humanos.

Os trabalhos que mais especificamente entram no campo da Antropologia 
Cultural ou da Etnologia surgem ligados  pesquisa lingustica,  recolha 
folclrica de costumes, contos populares, cancioneiros e, dentro do mbito 
da Geografia Humana e da Historiografia, costumes e crenas tradicionais.

A verdadeira Antropologia Ultramarina s se destaca a partir de finais de 
cinquenta com o Centro de Estudos de Etnologia do Ultramar.

 s a partir do 25 de Abril que se voltam a criar cadeiras de Antropologia 
em vrios cursos universitrios; a Antropologia Cultural hoje dedica-se 
especialmente ao levantamento de comunidades tradicionais, de acordo com o 
novo objecto antropolgico e, presentemente, para l das Universiacides, 
concentra-se nos Museus antropolgicos que pretendem tornar-se verdadeiros 
centros de estudo e interveno, e em revistas da especialidade como  o 
caso da muito recente Meridies, que inclui trabalhos dos antroplogos 
activos como Veiga de Oliveira, Mesquitela Lima e Armindo Santos.

C. eC.-6

121

3.2. Nomes da Antropologia Portuguesa

0 primeiro Museu Antropolgico  criado por Carlos Ribeiro, que levantaria o 
problema do homem portugus do Tercirio, a partir de slices levantados no 
vale do Tejo e

do Sado; se bem que o homem tercirio - o  Homo simius Ribeiroi - no 
tenha tido comprovao, a Antropologia Portuguesa criara um pblico e um 
interesse no s nacional como internacional. Surgem ento comisses de 
Antropologia na Sociedade de Cincias Mdicas e na Sociedade de Geografia em 
1879, e em 1880 rene-se em Lisboa o IX Congresso Internacional de 
Antropologia e Arqueologia Pr~histrica. Em 1893, existindo j a cadeira de 
Antropologia e Arqueologia Pr-histrica na Universidade de Coimbra, 
forma~se o Museu Etnogrfico Portugus, que vir a chamar-se mais tarde 
Museu Etnogrfico Dr. Leite de Vasconcelos, e ainda a Sociedade de 
Antropologia de Coimbra.

Na cidade do Porto, um grupo de antroplogos rene-se em volta da Revista 
Portugiia, que ser o grmen da Sociedade Carios Ribeiro. Antroplogos 
como Ricardo Severo, Rocha Peixoto, Fonseca Cardoso e Jos Fortes, da 
Revista Portugilia, dariam origem  Sociedade Portuguesa de Antropologia, 
que ser fundada pelo Professor Mendes Corra. Todos estes antroplogos so 
simultaneamente Pr-historiadores e procuram caracterizar as culturas e os 
povos da Pr-histria Portuguesa, nomeadamente a cultura megaltica. 0 
ncleo de antroplogos da Sociedade Portuguesa de Antropologia era 
constitudo alm de Mendes Corra, por Aaro de Lacerda, Lus Viegas e Bento 
Carqueja.

A este ncleo inicial juntaram-se praticamente todos os antroplogos 
portugueses que desenvolveram esta cincia na primeira metade do sculo XX, 
como Jos Leite de Vasconcelos, Verglio Correia, Eusbio Tamagnini, 
Baltazar Osrio e Jos Ribeiro Fortes.

Os levantamentos regionais so estabelecidos na perspectiva do estudo das 
origens nacionais, nomeadamente da civilizao castreja: Martins Sarmento, 
Francisco Alves e o Abade de Baal recolhem material no Noroeste e no 
Nordeste; Rocha Peixoto, na Pvoa, e Estcio da Veiga, no Algarve. Ricardo 
Severo procura as origens das comunidades do Porto primitivo e da 
nacionalidade.

Com a criao do Centro de Estudos Ultramarinos iria abrir-se a Antropologia 
do Ultramar, que estuda nomeadamente as culturas e etnias angolanas. Tambm 
na revista criada no Porto por Mendes Corra, Trabalhos de Antropologia e 
Etnologia, se levantam culturas ultramarinas.

Nos anos cinquenta, a Antropologia comea a centrar-se em Coimbra em volta 
da aco de investigao e, pela primeira vez, numa tentativa de organizao 
terica de Jorge Dias. Oriando Ribeiro, atravs de estudos do mbito da 
Geografia Humana, contribui com importantes trabalhos etnolgicos sobre a 
sociedade portuguesa, desde o Neoltico.

Mantm-se, porm, certa indeterminao nos estudos antropolgicos.

Esperemos que, com o desenvolvimento actual dos estudos de antropologia na 
Universidade de Lisboa, tal trabalho (relao entre o sistema de 
propriedade, famlia e valores, em Portugal) venha um dia a ser feito. At 
l teremos apenas como em tantos outros sectores da sociologia e da histria 
contempornea portuguesas, sugestes, palpites e quando muito hipteses no 
provadas.


Esta situao  particularmente grave. Se se tratasse de cincias naturais, 
de botnica ou astronomi  .a, por exemplo, tal fase de conhecimento faria de 
ns apenas um pas ignorante. Tratando-se de cincias histricas e sociais, 
faz de ns um pas enganado e presumido, Na falta de evidncia produzida por 
profissionais, o campo est entregue aos leigos e aos amadores, pois podem-
se escrever asneiras sobre histria e sociedade com muito mais impunidade (e 
alarmante sucesso) que sobre pteridfitas ou galxias. Os ficcionistas, os 
jornalistas e os polticos arvoram-se em historiadores e em socilogos e tm 
os seus pblicos. ( ... ) E enquanto na Universidade ou fora dela, centros 
de investigao adequados no produzam trabalhos que possam concorrer, no 
mercado das ideias, com os exerccios dos amadores, a situao tender 
apenas a piorar. (    ...)

Tal  o caso de alguns profissionais portugueses que, tendo conseguido 
sobreviver s estruturas, vo publicando os seus trabalhos. Mas enquanto as 
estruturas no permitirem que muita mais gente estude muito mais o muito 
que, em matrias de histria e sociedade, est por estudar em Portugal, os 
esforos desses poucos profissionais no

icientes para podermos ter uma viso correcta de quem fomos e de quem somos. 
 sero suf

Jos Cutileiro, Prefcio a Honra e Vergonha, ob. cit., 1971

122

.. ... .....

Moo

RABALHOS PRTICOS

4. 1. Leitura de textos

UMA INSTITUIO

0 NAMORO EM 1815

Em 1815podia-se namorar honestamente de umajanela para a outra, na Rua das 
Flores, sem que uma patrulha insolente parasse debaixo para testemunhar a 
vida ntima dos que lhe pagam. Podia cochichar delcias a donzela recatada 
da trapeira para a rua, sem que o amador exttico ao som maviosssmo 
daquela voz, receasse o retire-se! brutal do janizaro. Podia, finalmente, 
segurar-se o gancho de uma escada de corda no terceiro andar, subir 
impavidamente, conversar duas horas sobre vrios assuntos honestos, e

descer, sem o receio de encontrar cortada a rectaguarda por um selvagem 
armado  nossa custa, que nos conduz ao corpo da guarda a digerir a 
substncia da deliciosa entrevista.

Bem-aventurados, pois, os que namoraram em 1815. U J

- Quem  aquele peralvilho que bate  porta da D. Rosa? Temos namoro, se 
dermos ouvidos  tia Bemarda Estanqueira, que mora na viela do Bonjardim, e 
que tem um olho na balana do simonte, e o outro, que por sinal  vesgo, na 
porta da filha do arcediago.

- Que berzabum de escanelado ser aquele, que parece que traz espartilhos! 
Valha-o a breca que to teso est! Aquilo no me parece homem c do Porto! 
Parece mesmo um comediante daqueles que berram umas cantigas na casa das 
peras da Batalha...  tia Joaquina! (a tia Joaquina era uma vizinha, que 
estava dobando ao sol) vossemec no v acol aquele ingarilho que j puxou 
duas vezes a sineta?

- J vi.
- Conhece aquela avantesma que me parece mesmo o pecado?
- Conheo... ora se conheo!... Aquele  o sobrinho do senhor Antnio da Rua 
das Flores, que me tem dado muito pozinho. Quando eu ia dantes levar-lhe os 
novelos do algodo, aquele menino era cai@(eirinho na casa; mas pelos modos 
ele agora estuda para doutor.

- Sim? pois olhe que daquele magricelas no pode sair grande doutor! Acho 
que um

homem assim no tem boas as memrias, nem sustncias para saber l aquelas 
cousas da justia. .. Ele l entrou... Quer vossemec ver que a delambida da 
rapariga anda de namoro com ele!...

- Agora!... Se fosse isso, ele no entrava assim ao pino do meio-dia... acho 
eu!

- Boa vai ela!... Pois vossemec pensa que as raparigas de agora so comoas 
do nosso tempo? Diz o frei Manuel do Santo Lenho, dos Carmelitas, quej no 
h vergonha nem temor das penas do inferno!... E quer que lhe diga, tia 
Joaquina? Quanto mais fidalgas, mais desavergonhadas!... Inda ontem a minha 
Eusbia, que est em casa de uma certa fidalga que vossemec sabe to bem 
como eu, me contou que a sua ama estava com um ingls  janela a dar-lhe 
beijos, e que ele lhe dava belisces nas pernas. A minha Eusbia deu f 
desta pouca-vergonha, sem querer; e a fidalga tambm viu que a rapariga deu 
f,- e disse-lhe depois: Eusbia, ns c as fidalgas podemos fazer isto que 
viste; e

vs outras plebeias, no, porque no tendes nada seno a vossa honrazinha. 
Ora que lhe parece isto? D mesmo vontade de lhe responder:  V-se da, sua 
porca; se Vossa Excelncia tivesso o miolo no seu lugar no consentia que 
lhe estivesse um herege l do fim do mundo a beliscar as pernas, e a pr-lhe 
os beios no cachao! Fora com as libertinas!

- Tem razo, tia Bernarda    ... a religio  c s para os pobres. As ricas 
o que querem  ir  igreja mostrar os asseios ... Disse outro dia um 
pregador na Vitria, que a casa de Deus estava sendo uma feira, e que Nosso 
Senhorpusera as pelicanas fora do templo. . .

124

A pelicanas so as fidalgas... Olhe l... aquela sumeiga, que ali mora, ser 
fidalga?
- Acho que sim. 0 pai era o senhor arcebispo de Barroso, e a me ouvi rosnar 
que era uma das tais pelicanas...

- Consta que tem muito de seu.
- Muitos bragais, muita prata, no sei quantas moradas de casas, e uma 
quinta em Paranhos... Que comer no lhe falta; mas acho que a respeito disto 
(pondo o dedo na testa) no regula /a grande cousa... Veio aqui h dias  
minha loja uma mulher de mantilha, ainda frescalhona, e perguntou-me muitas 
cousas a respeito da tal rapariga. Quem entrava, quem sa&, se ela andava 
pela rua, se tinha muitos asseios, enfim, eu fiquei com a pedra no sapato, e 
c de mim para mim entendi que aquilo era uma refinada alcaiota. Tambm hei-
de saber quem tu s - disse c com os meus botes - e mandei, assim que ela 
saiu, o meu galeguto atrs dela. Veio dizer-me que morava num baixo da Rua 
Direita, e que se chamava Ana do Carmo...

- Eu sou da sua ideia... isso era volta de alcofeira, que vinha saber se lhe 
poderia entregar alguma cartinha daquele fidalgo que mora  Vitria, e que 
tem o nariz apurado para  as moas como gato para bofes. H-de ser isso...

-  E olhe que no era outra cousa!...
-  E eu at me parece que j o vi aqui passar uma noite.
-  E eu tambm... Que sinais tem ele?

 um pacabote baixo, com a carinha cor de cereja...  o mesmo, que eu vi, 
tem carinha cor de cereja, e os olhos a modos de... So azuis...  verdade, 
os olhos so azuis... Era o mesmo em carne e osso... E vossemec vIu-o 
entrar para l?

- No o juro. mas acho que entrou...
- Eu tambm no juro, mas parece-me que o vi      .entrar...
- Ento  que entrou... Que horas eram? -- Meia-noite, mais quarto, menos 
quarto. Era ele... foi h-de haver quinze dias... tia Bernarda...
- H quinze dias...  isso mesmo... por sinal. ..
- Que estava vossemec no hospital, tia Joaquina, e no podia ver o que se 
passava

na rua - interrompeu uma terceira, que estava fiando a um posti     .go.

Quem a chama c? - disse a velha desmentida. No posso ouvir murmurar com 
mentira... nem me parece catlica! Ora meta /a a sua religio no pcaro e 
coma dela, ouviu, sua Intrometida? Quem no quer ouvir no mente 
descaradamente. E que lhe importa a vizinhana?
-  E vossemec que lhe importa aquela senhora que est muda e queda em sua 
casa?
-  Se come por ela, ganhe a sua vida l como puder, e deixe conversar quem 
conversa! Que lhe parece, tia Bernarda! Sempre h cada estafermo neste 
mundo!...

- Isso h!... - disse a tia Bernarda, retirando-se para o estanco a pesar 
dez ris de simonte.

Estafermo ser ela! - replicou a honesta fiandeira, Cale-se a, sua 
trapalhona! E voc... sua lngua de trapos! Desavergonhadal Estupor! Bbeda! 
Pangaia! Feiticeira! Ladra! Ladra  voc! E voc come pela filha! E voc 
quando casou j comia pelas suas, e tem quatro que no conhecem os pais! 
Ladra, ladra, ladra! Bbeda, bbeda, bbeda!

125

A tia Joaquina rematou a apstrofe, erguendo-se, e curvando-se um pouco com 
as costas para a vizinha, e assentando trs palmadas que provocaram esta 
resposta do postigo:

- Fora porca! regateira! vai vender sardinhas, grandssima beberrona!

Camilo Casielo Branco

CASAMENTO EM VILA NOVA DE GAIA

0 cortejo noutros tempos fazia-se a p, com ritual prprio. Poucos 
casamentos se faziam de carruagem, mas hoje, at nos mais modestos, existe a 
preocupao de fazer figurar muitos automveis, pois pelo nmero destes  
que fixa a sua mai      .or ou menor valia.

0 prstito entrava pela porta principal, e no pelas laterais, como 
actualmente tambm se faz.

Durante o acto cannico o proco realiza a cerimnia religiosa unindo as 
mos dos noivos com a sua estola e fazendo troca das alianas, que so 
levadas numa salva de prata por uma criana vestida de branco.

0 anel do casamento (ou aliana, como  vulgarmente conhecido) tem idade 
anteriora Cristo.  smbolo de unio dos esposos, significando amor 
recproco.

- Esse anel  de ouro, de bordos arredondados, por vezes repartido em duas 
metades que encaixam uma na outra, tendo no inteior o nome do nubente e a 
data do casrio.

A aliana usa-se no dedo anular da mo esquerda, como faziam os Romanos, por 
entenderem que neste dedo existia uma veia ligada ao corao.

Se um deles for a vivo, passar a usar no mesmo dedo a aliana (com o seu 
nome) que o consorte trazia.

Se completam 25 anos de casados, passam a usar sobre a aliana um anel de 
prata em

comemorao de tais bodas.

Muitas vezes o proco faz aos noivos uma prdica para lhes lembrar os seus 
deveres, lavrando depois na sacristia o respectivo assento, sendo as 
despesas pagas pelos padrinhos.

No final, depois de dado o n, forma-se de novo o corteio para o regresso a 
casa da noiva, onde quase sempre se realiza a boda.

 salda da -igreja os amigos e curiosos lanam sobre os nubentes confeitos, 
arroz e missanga, que as crianas disputam em grandes combates, lanando-se 
entre os convidados e originando cenas alegres e de riso.

0 regresso, sendo possvel, deve ser feito por caminho diferente daquele que 
foi utilizado para a ida (para no voltar atrs, desfazendo o que est 
feito).

Hoje j usam lanar papelinhos s cores, como fazem noutras hipteses, o que 
representa uma adulterao das costumeiras tradicionais.

0 arroz e os confeitos auguram abundncia e progenitura numerosa.
0 costume de lanar arroz deve resultar de uma tradio oriental para 
pressagiar uma despensa fartamente fornecida.

Nalgumas freguesias do concelho de Gaia, h j muitos anos, faziam 
homenagens aos

noi.vos mais ricos adornando as ruas com arcos de madeira, que cobriam com 
papis coloridos e flores, pendurando neles lenos de seda, cordes, 
brincos, fios de ouro e

outros adornos.

Junto dos arcos colocavam duas cadeiras e uma mesa, cobrindo esta com toalha 
branca e, a, em duas salvas de prata, dispunham doces numa e noutra dois 
clices, um

de vinho e outro de gua, ficando uma terceira salva vazia.

Para cumprir e dar satisfao queles que promoviam a homenagem (que h 
muito tempo j no se faz) os recm-casados passavam sob o arco e iam 
sentar-se  mesa, comendo doces. Se o no fizessem conquistavam a antipatia 
geral.

0 noivo dava depois  noiva o copinho de vinho, que ela bebia, tomando ele o 
de gua.

126

Os convidados, por sua vez, para ajudarem s despesas da homenagem, lanavam 
dinheiro na salva vazia,  medida que passavam.

0 cortejo prosseguia depois at  casa dos pais da noiva, onde se realizava 
a boda do casamento.

A certa hora, sem o anunciarem e de certo modo s escondidas, aproveitando a 
distraco dos convidados, os noivos com mais posses saam em viagem de 
npcias, para a

chamada lua-de-mel (diz-se que uma antiga tradio inglesa determinava que 
os noi      .vos tomassem uma bebida feita com mel, bebendo-a at que a luz 
desaparecesse no cu). Actualmente ainda se cumprem estas pragmticas.

- Para dar felicidade,  bom para a noiva que ela, no seu dia grande, leve 
vestida uma pea de roupa usada e leve escondida em qualquer bolso uma 
cabea de arruda com cinco dentes.

- Mas  de mau gosto que o enxoval dos noivos tenha cores azuis ou a noiva 
se apresente com vestidos pretos.

Em certos lugares, porm, entendem que a noiva que vaipara o casamento deve 
levar vestida uma pea azul, costume que se julga ter origem num costume de 
Israel, onde as noivas usavam uma faixa azul na borda da saia, para 
significar pureza, amor e fidelidade.

- 0 povo cr que o casamento ser feliz se no dia da boda estiver a chover 
mas, em certas freguesias, a felicidade s advm se chover depois de ter 
feito sol.

- A mulher grvida no pode ser madrinha de baptizado, pois, se o for, a 
criana morrer.

- As crenas supersticiosas do povo entendem que no se pode casar em certos 
dias da semana, que so aziagos (teras, quartas e sextas-feiras), nem em 
certos meses (Agosto e Novembro), nem em anos bissextos.

L diz o povo:  tera no cases a filha, nem urdas a teia.
- As roupas da noiva e seus adornos esto sujeitos tambm a certas 
prescries tradi-

ci onai s.

A noiva veste-se de branco, com um pequeno vu sobre o rosto, levando na 
cabea um diadema de flor de laranjeira, preso no cabelo, smbolo de pureza 
e virgindade, costume que se diz remontar ao tempo dos Mouros.

A flor de laranjeira tambm se usa no peito em jeito de adereco. A noiva, se 
no est virgem, no pode levar a flor de laranj    eira, pois de contrrio 
engana a Deus. E tambm no deve deixar no altar o ramo de flores que 
costumam oferecer a N.  Senhora.

- Na boda, as raparigas e rapazes solteiros colocam-se debaixo do vu a 
comer bolo de noiva, para casarem, bolo que  partido pelos noivos e por ela 
oferecido.

Mas os namoros arranjados na boda no so felizes.
- A noiva no deve fazer a cama para a noite de npcias.

- A mulher, quando est para lhe nascer um filho, pretende saber com 
antecedncia qual o sexo, a fim de lhe fazer ou mandar executar as roupas, 
pois, se for menina, tero a cor rosa e, se for rapaz, a cor ser azul, 
forrando-se o bero com as mesmas tonalidades.

Para desvendar o segredo o povo usa uma prtica supersticiosa, utilizando 
uma peneira, onde se coloca uma tesoura aberta no rebordo.

Suspendem depois a peneira, colocando na parte interior do fundo um carrinho 
de linhas e um vintm.

Na tesoura dependuram um tero, ficando a cruz cada sobre a peneira. Dos 
lados da peneira colocam-se duas pessoas e cada uma delas segurar com o 
indicador da mo direita um arco da tesoura.

Marcam depois a posio de rapaz ou rapariga, num ou noutro lado, e 
perguntam:

Peneira de Deus e de todo o mundo Fala-me verdade Pelas trs pessoas da 
SS.ma Trindade!

A peneira voltar-se- sozinha para um dos lados, assinalando o sexo. A 
prtica repete-se por trs vezes.

127

Esta superstio da peneira tambm  utilizada para outras adivinhaes; por 
exemplo, para saber do xito de um namoro,

- Entende o povo que quem casa, quer casa e, por isso, os recm-casados 
devem ter casa prpria.

Entre marido e mulher no metas a colher,  ditado que serve para mostrar 
que ningum deve intrometer-se nos seus problemas - entre casados, ningum 
se meta.

- Durante a cerimnia do casamento acendem-se duas velas no altar. A vela 
que estiver mais frouxa prev que morre primeiro o nubente que est colocado 
desse lado.

Casqmento em V N Gii -- Tradices de casamento, Car@os Vale, JLjnla de 
Invesiigaco do Uliramar, Lisboa, 1965

ENDOCULTURAO

CARTA AO MEU FILHO

Quendo Stefano, aproxima~se o Natal e em breve as lojas do centro se 
encontraro apinhadas de pais excitadssmos que desempenharo a comdia da 
generosidade anual - eles, que esperaram com hipcrita alegria o momento de 
poderem comprarpara siprprios, contrabandeando-os por filhos interpostos, 
os comboios de miniatura favoritos, os teatros de fantoches, as flechas de 
tiro ao alvo e os pingue pongues domsticos. Eu ficarei a olhai, porque este 
ano no  ainda a minha vez, tu s pequeno de mais por enquanto, e os brin 
quedos Montessori no me divertem muito, talvez porque no gosto de os meter 
na

boca, e de resto as recomendaes afirmam que no servem para comer. No, 
tenho de esperar: dois, trs, talvez quatro anos. Depois chegar a minha 
vez, passar a fase o,) educao maternal, cair a poca do ursinho e ser o 
momento de comear eu, com @@ suave violncia sacrossanta do ptrio poder, a 
moldar a tua conscincia de civilizado. E ento, Stefano...


Ento ofereo-te espingardas. De dois canos. De repetio. Com mira 
telescpica. Canhes. Bazucas. Sabres. Exrcitos de soldadinhos em formao 
de batalha. Castelos com pontes levadias. Fortes para cercos. Casamatas, 
paiis, couraados, reactores. Metralhadoras, punhais, rev lveres de 
tambor. Colts, Winchesters, rifles, Chassepots, noventa e uns, Garands, 
obuzes, colubrinas, arcos, /undas, bestas, bolas de chumbo, catapultas, 
falricas, granadas, balzios, espadas, chucos, lanas, alabardas e ganchos 
de abordagem; e canhoneiras de calibre oito, as do capito Flint (em memria 
de Long John Silver e de Ben Gun). Adagas, como as que agradavam a Don 
Barrejo, e lminas de Toledo, daquelas com que se faz o golpe das trs 
pistolas - o estiro enxuto do marqus de Monflimar -, ou a massa do 
Napolitano, com que o baro de Sigognac fulminava o primeiro valento que 
tentasse raptar-lhe a sua Isabella; e depois as achas, as partigiane, as 
facas de golpe de misericrdia, o driss, as garrochas, as cimitarras e 
verretoni, e bastes de fogo, como aquele que fazia morrer fulminado John 
Carradine, e quem no se lembra disso pior para ele. Sabres de abordagem 
capazes de fazerem empalidecer Carmoux e Van Stiller, pistolas enfeitadas 
com arabescos como Sir James Brook nunca teve (seno, no se teria dado por 
vencido frente ao ensimo cigarro sardnico do portugus), e estiletes de 
lmina triangular, como aqueles com que, enquanto o dia morria com razovel 
suavidade em Clignancourt, o discpulo de Sir Williams deu a morte ao 
sicrio Zampa, uma vez consumado o matricdio na pessoa da velha e srdida 
Fipart, e peros de ferro, como o introduzido na boca do carcereiro [a 
Rame enquanto o duque de Beaufort, com os plos remanescentes da barba 
tomados mais sedutores pelos longos cuidados de um pente de chumbo, se 
afastava a cavalo antecipando o sabor da ira de Mazarino; e bocas de fogo 
carregadas de pregos, disparando com os dentes vermelhos de btel, e 
espingardas de coronha de madreprola, empunhadas em cima de corcis rabes 
de plo brilhante e pescoo nervoso; arcos rapidissimos, capazes de porem 
verde o xerife de Nottingham, e facas de escalpe, como as possua Minnehaha 
ou ffima vez que s bilingue) Winnetou. Pistolas pequenas e achatadas, 
transportadas na casaca,

128

para os tiros do ladr,@o-fidalgo, ou Lugers pesadissimas, inchando o bolso 
ou pesando nas axilas,  Michael Shaynne. E mais espingardas. Espingardas, 
espingardas de Ringo, de Wild Bill Hitchcock, ou de Samblgliong, at  
sobrecarga final. Armas, em resumo, rneu filho, muitas armas, s armas. So 
o que te dar o teu Natal.

Surpreende-me, senhor ho-de dizer-me, 0 senhor que milita num comit 
para o desari-narnento nuclear e fllrta com os conselhos da paz, que anda 
nas rnarchas e cultiva o pacifismo; Contradigo-me? Pois bem, contradigo-me 
(Walt Withman).

Numa certa manh, eu prometera uma prenda ao filho de uni amigo, e en Irei 
no arma zm de Frankfurt  procura de um revlver de tambor. Olharam-i-ne 
escandalizados. No ternos brinquedos de guerra, senhor. Era de uma pessoa 
se sentir gelada. Sa mortIficW() e ia partindo o nariz em cima de dois 
homens da Bundeswehr que seguiam pelo passeio. Voltei  realidade. No 
voltaria a enganar-me, da em diante basear-me-ia apenas na expen .ncia 
pessoal e desconfiaria dos pedagogos.

Tive uma infncia forteinente, exclusivamente blica. escondlH-i7ie Ir/@@s 
(bs coisdS, eroboscado, para fazer fogo com a minha espingarda de repetio, 
conduzia assaltos corri armas brancas, perdia-me em batalhas ultra-
sangrentas. Em casa, soldadinhos. Exrcitos Inteiros, aplicados em 
estratgias enervantes, operaes que duravam senia-

rias, ciclos prolongadssimos em que eram mobilizados at os restos do urso 
de pelcia e as bonecas da minha irm. Organizava bandos de aventureiros, 
fazia-me tratar, Por um

punhado de facnoras fidelissimos, por w terror da Piazza Genova @agora 
Piazza Matteotti); rompi com uma formao de Lees Negros para rrie reunir 
a outro grupo mai           s forte, em cujo interior organizei  .depois um 
pronunciarnento de consequenci        .as brutais, isolado ern Monferrato 
fui alistado  fora pelo Bando do Stradino e sofri unia cerimnia de 
iniciao que consI  .sti.a em cern pontaps no traseiro e na priso por 
trs horas num galinheiro,- combatemos contra o grupo do Rio Nizza, eles 
eram uns porcos negros e terri,vei.s, da primeira vez tive medo e fugi, da 
segunda apanhei com uma pedrada nuin dos lbios e fiquei com uma salincia 
nodosa nele que ainda hoje se sente com a lngua. i`Depois veio a guerra 
autntica, os resistentes emprestavam-nos a Stem por dois segundos e vimos 
alguns amigos rnortos com um tiro na testa, mas ento estava a tomar-me 
adulto e andava ao longo das margens do Belbo para surpreender os jovens  
volta dos dezoito anos a fazer amor, excepto durante os momentos das 
primeiras cris@es msticas.)

Desta orgia de jogos de guerra saiu um homem que conseguiu fazer dezoito 
meses de servio militar sem tocar numa espingarda e que dedicava as longas 
horas da caserna a severos estudos de filosofia medieval, um homem 
acabrunhado por numerosas iniquidades, mas sempre inocente do monstruoso 
delito que consiste em amar as armas e acredrtar na santidade e eficcia da 
coragem blica.

Um homeni que s compreende o valor do exerci        1to quando o v ria 
/an/ ds Ir7u@dH ues de Vaiont, recuperando assim uma serena e nobre 
vocao civil, Oire no tem /


miouna f ern guerrasjustas, e aceita apends as guerras civis, nas qual    
.s quern corufiate o /az contra vornade, puxado pelos cabelos, por sua conta 
e risco, esperando que a gueira ical)e depressa, e s porque est a honra 
eni causa e no  possvel compoi as coisas por inenos. E creio dever este 
meu profundo, sisteru(ico, cultivado e documentado hor ror da guerra aos 
desabafos saudveis e inocentes, platonicaniente sanguiri rios, que me

foram concedidos ria infncia, do tuesino inodo que se sai de um westem 
@aps urna rixa M)lene, daquelas que fazem desmoronar os muros do saloon, 
onde se partem mesas e t?spelhos enormes e estllhacai77 as vidraas) mais 
educado, bom e descontreido, disposto a sorrir ao transeunte que nos empurra 
COM OS Ombros, a socorrer os iodssariws cados do moinho - corno Austteles 
bem sabia, quando pedia  tragdia que agitasse diant(, dos nossos olhos 
roupas vermelhas de sangue para nos purificar mais a fundo, inediarm, os 
divinos sais ingleses da catarse final.

E IrI7agino, pelo contrrio, a nfncia de Eichmann. Debruado, com o olhar 
de contabilista da morte, sobre o quebra-cabeas do meccario, seguindo as 
instrues do folheto, vido de compreender tudo da caixinha multicor do 
pequeno qui         1ml .co, sdico ao dispor os seus utenslios de 
carpinteiro de brinquedo num cepilho com a largura de tini palmo e uma serra 
de vinte centmetros na madeira aplainada. Temei os jovens que constroem 
guindastes em ponto pequeno! Nas suas cabecinhas frias e distorcdas de 
ruatemticos de bibe cornioni-nem-se, entretanto, os complexos atrozes que 
ho-de trHns-

129

tornar-lhes a idade madura. Em cada monstrozinho que acciona os agulheiros 
do seu caminho -de~ ferro em miniatura, vejo o futuro director do campo da 
morte! Ai dos que gostam das coleces de automoveizinhos, que a indstria 
dos brinquedos lhes prope, horrendos, em rplicas perfeitas, com o porta-
bagagens que abre e os vidros que deslizam para cima e para baixo - 
tertificante, terrificantejogo para futuros sargentos de um exrcito 
electrnico, que ho-de premir sem paixo o boto vermelho de uma guerra 
nuclear!

E possvel identific-los hoje. Os grandes especuladores da construo, os 
autores de despe]os em pleno Inverno, que formaram a sua personalidade 
atravs do infame Monoplio, habituando-se  ideia da compra e venda de 
propriedades imobilirias e  mani     .pulao desenvolta de ma os de 
aces. Os velhos Grandet de hoje em dia, que formaram o gosto pela 
acumulao e pela vitria na bolsa nos cartes do jogo. Os burocratas da 
morte educados pelo meccano, os moribundos da burocracia que deram incio  
sua prpria morte espl.ri.tual nos carimbos e selos do correio de 
brinquedo...

E amanh? 0 que ser uma infncia a quem o Natal industrial traz bonecas 
americanas que falam, cantam e se movem sozinhas; autmatos japoneses que 
saltam e danam sem que a pilha se gaste jamais, automveis radiocomandados, 
cujo mecanismo permanecer para sempre ignorado...

Stefano, meu filho, hei-de oferecer-te espingardas. Porque uma espingarda 
no  um jogo. E s o elemento potencial de um jogo. A partir da tem sempre 
de se inventar uma situao, um cony  .unto de relaes, uma dialctica de 
acontecimentos, Ters de fazer pum! com a boca, e descobri     .rs que o 
j.ogo vale pelo que nele conseguimos meter, e

no pelo que encontramos j dado. Imaginars destruir inimigos, e satisfars 
um impulso ancestral que nenhuma camada de civilizao consegui        r 
jamais anular, a menos que faca de ti um neurtico pronto para o exame 
administrativo atravs do Rorschach. Mas ao mesmo tempo aprenders que 
destruir os inimigos  uma conveno ldica, um jogo entre os jogos, e 
fixars assim que se trata de uma prtica estranha  realidade, da qual, 
atravs do jogo, conhecers bem os limites. Ficars purgado de raiva e 
tenso, e estars pronto para receber outras mensagens, que no corntemplem 
a morte nem as destruices, ser importante, assim, que morte e destruio 
te surjam sempre como dados (1, fntasia, como o lobo do capuchinho 
vermelho, que cada um de ns odiou, sem que d,, ienha nascido qualquer dio 
insensato pelos ces-lobos.

Mas talvez isto no seja tudo, e no ser realmente tudo. No te permitirei 
que dispares o teu Coft s a ttulo de descarga nervosa, de purifica o 
ldica dos instintos primor diais, ficando para depois a depurao do 
acontecido, a pars construens, a comunicao dos valores. Procurarei dar-te 
algumas ideias, desde o momento em que comeces a disparar escondido atrs de 
um sof.


Sobretudo, no te ensinarei a disparares sobre os ndios. Ensinar-te-ei a 
atirar sobre os traficantes de armas e de lcool que esto a destruir as 
reservas ndias. E sobre os esclavagistas do Sul, e contra esses atirars 
como se fosses um dos homens de Lnco/n. No te ensinarei a disparar sobre 
os canibais congoleses, mas sobre os comerciantes de marfim, e num momento 
de fraqueza talvez te ensine a cozer numa panela o doutor Livingstone, 1 
suppose. Jogaremos do lado dos rabes contra Lavvrence, que alm do mais 
nunca me pareceu um belo modelo de virilidade para rapazitos decentes, e se 
jogarmos aos Romanos estaremos ao lado dos Gauleses, que eram Ceitas como 
ns, Piemoweses, e mais educados que esse Jlio Csar, que ters de aprender 
em breve a olhar com desconfiana, porque no se tiram as liberdades a uma 
comunidade democrtica, em troca, depois de a matar, de alguns jardins de 
passeio. Estaremos do lado do Touro Sentado contra esse indivduo repugnante 
que foi o general Custer. Do lado dos boxers, naturalmente. Mais do lado de 
Fantomas que de Juve, demasiado apegado ao dever, para no se recusar, na 
circunstncia, a bater num argelino. Mas estou a gracejar: ensinar-te-ei,  
claro, que Fantomas era mau, mas no te vou contar, cmplice da corruptora 
baronesa Orczy, que Pimpinela Escarlate era um heri. Era um sujeito 
vendeiano que dava aborrecimentos ao bondoso Danton e ao purssimo 
Robespierre, e se a brincadeira for para esses lados, hs-de tomar parte na 
tornada da Bastilha.

Serojogos formidveis, imagina, e brincaremos juntos/ Ali, querias que 
comssemos croissants? Para a frente, senhor Santerre, faam-se tocar os 
tambores, tricoteuses de

130

todo o mundo, trabalhai alegremente! Hoje vamos brincar  decapitao de 
Maria Antonieta! Pedagogia perversa? Quem o diz? Os que fazem um filme 
acerca do heri Fra Diavolo, lacaio como outro no houve a soldo dos 
agrrios e dos Bourbons? Alguma vez

ensinou o seu filho a fazer de Carlo Pisacane, ou no permitiu que a 
instruo primria e

o poetastro Mercantini o fizessem passar aos olhos dos nossos midos por um 
louro idiota e amav1 que se tem que aprender de cor?

E o senhor, o senhor que  antfascista, por assim dizer, desde o 
nascimento, brincou alguma vez  Resistncia com o seu filho? Alguma vez se 
escondeu atrs da cama, fingindo estar nas Lunghe e gritando ateno, da 
direita vem a a Brigada Negra, s armas, s armas, dispara, fogo sobre os 
nazis? No, mas oferece ao seu filho peas de construo e manda-o com a 
criada ver filmes racistas, que exaltam a destruio das naes ndias.

Por isso, querido Stefano, hei-de oferecer-te espingardas. E ensinar-te-ei a 
jogar a guerras muito complicadas, nas quais a verdade nunca se'encontre de 
um s lado, ao longo das quais tenham de se organizar dias 8 de Setembro: 
Vai ser_ esgotan te, para os

teus anos mais jovens, vou confundir-te um tanto as ideias, mas hs-de 
chegar lentamente s tuas prprias convices. Depois, em adulto, pensars 
que era tudo uma fbula, captichinho vermelho, gata borralheira, as 
espingardas, os canhes, o homem contra o homem, a bruxa contra os sete 
anes, os exrcitos contra os exrcitos. Mas se por acaso, quando fores 
grande, tiveres ainda por dentro as figuras monstruosas dos teus sonhos 
infantis, as bruxas, os cow-boys, os exrcitos, as bombas, as mobilizaes 
foradas, talvez no tenhas assumido, nesse caso, a devida conscincia 
crtica perante as fbulas nem aprendido a mover-te criticamente no interior 
da realidade. 

Umberio Eco, Dirio Mnimo, 1964

4.2. Vsitas

OS CASTROS DA IDADE DO FERRO PORTUGUESA

Na margem direita do Tejo, a cultura dos castros manifesta-se mais tpica 
(1), e,  medida que se avana para o norte do pas e Galiza, vo-se 
aumentando essas estaes cuja arquitectura se tem reconstitudo com mais ou 
menos exactido.

Os castros (ests. X VI, X VIII e XIX) eram, em geral, limitados por fossos, 
muralhas ou

aterros, dispostos num entrincheiramento simples, duplo, triplo, ou mesmo 
qudruplo. Esse entrincheiramento era contnuo ou apenas interrompido nos 
lugares tornados de mais difcil acesso pelas condies naturais. Contornava 
montes e outeiros, na sua encosta ou coroando os seus cumes. Delimitava um 
espao mai      .s ou menos amplo onde se erguiam as habitaes, cuja planta 
era de forma circular ou quadrangular.


Nos castros a Sul do Douro, predominam estas ltimas,- nos do Norte aparecem 
com mais frequncia as habitaes arredondadas, como nas Citnias de 
Briteiros e Sabroso (Taipas). A Cidade Velha de Santa Luzia (Viana do 
Castelo - ests. XVI e XVII), o castro de Cendute (Arcos de Valdevez), o 
Castelo de Alfenim (Bragana), etc, tinham umas e outras, como talvez o de 
Guites (Matosinhos; est. XIA. Alguns, como o de Vilar de Viande (Trs-os-
Montes), tm as casas com a forma de quadrilteros cujos vrtices so, 
porm, arqueados, dando ao todo um aspecto grosseiramente arredondado.

Na Citnia de Briteiros as paredes das habitaes eram construdas com as 
pedras dispostas em fiadas helicoidais. Tanto a construo das muralhas, 
como a das paredes das casas, nos castros,  feita geralmente com pedra 
solta, sem o aparelho e o cuidado arquitectnico que existia nas casas 
romanas. V-se que eram obra de construtores indgenas. Em Conmbriga 
(Condeixa-a- Velha) a poderosa muralha  de pedras e argamassa.

(1) Como vimos, h tambm castres a S. do Tejo, So, porm, talvez menos 
frequentes e as Suas exploraes menos frutuosas, salvo em poucos. Alm 
disso, a cultura reconstituda sobre os do N.  mais tipsea, Dos casrros de 
alm do Tejo mencionaremos, alm dos de Chibanes, Rolura, e dos

das vizinhanas de Alccer, Grndola e S. Trago de Cacem, j citados, o de 
Castro Verde (perpetuado na toponimia), algumas estaes da serra de Ossa e 
Alandroal, etc.

131

Em alguns castros, como no de Sabroso, havia no centro das habitaes urna 
pedra sobre a qual provavelmente se fixava lima haste para suporte da 
cobertura da casa. Esta cobertura era talvez de colmo, ou argila e madeira 
e, s nos romanizados, seria, multas vezes, de telhas. Tambm, em alguns, a 
porta da habitao se abriria nur77 alpendre ou vestbulo (Sabroso, Santa 
Oleia, etc.). Os pavimentos seri    .em o solo natural, barro sern cozedura, 
ti@*o1o ou at - apenas nos mais ricos e romanizados - mosaicos, sendo 
notveis os de Conmbriga.

Das muralhas, como das paredes das habitaes, raro restam pores intactas, 
quase sempre existem apenas pedras dispersas e entulho. Em Conimbriga, 
porm, a muralha est em grande parte conservada.

A topografia natural e os entrincheiramentos artificiais tornavam os castros 
de difcil acesso a assaltantes. A falta de paz e segurana que os textos 
acusam na L usitnia pr-romana e nos primeiros tempos da poca romana, 
reclamava a existncia desses redutos defensivos em que o velho Indgena se 
refugiava permanente ou transitoriamente contra os perigos de incurses de 
rapina ou de assaltos belicosos.

Em regra, um curso de gua, de importncia varivel, serpeia na encosta ou 
no sop do rnonte, ele asseguraria a gua necessria aos habitantes do 
povoado, que tambm dispunham por vezes de fontes e cisternas. A Conimbriga 
romana era abastecida de gua de Alcabideche por meio durn aqueduto de 
alguns quilmetros de extenso; um curso de gua, torrencial, existe, porm, 
nas proximidades do povoado.

0 mobilirio encontrado entre os restos dos castros, citnias, cividades, 
etc.,  varivel. Em geral trate-se de fragmentos de cermica, fibulas, rns 
manuais, percutores, inscries, moedas, esculturas, etc. Nos romanizados  
frequente encontrarem-se telhas de rebordo (tegulae) e curvas (imbricese) 
moedas e Inscries romanas, vasos de cermica de tipos romanos, etc. Alguns 
fornecem mesmo espcimes da clebre cermica arretina, tambm chamada 
samiana, saguntina ou terra sigiliata, a qual era caracterizada pelo induto 
de verniz dum vermelho coralino que a reveste, e cula origem seria Arretium, 
na Etniria, no sculo f/ ou / a. C., mas passando do sculo / ao /// da era 
crist a ser imitada no sul de Glia e na Germnia.


Mas para a totalidade ou quase totalidade dos castros no  descabido 
procurar as origens remotas em tempos proto -histricos e as de muitos mesmo 
em tempos pr-histri cos. J falmos de vrios cuja data ascende ao 
neoltico e ao eneolftIco. Alguns apreseniam restos de sucessivas culturas, 
como o de Chibanes, j citado, e muitos outros, 0 de Praganta @Cadaval) 
seria pr-romano e romano, apresentando ambos muitos restos neol ti.cos e 
alguns da poca dos meteis; uma sua fbula teria caracteres de La Tne. 0 de 
Castelo Velho da Rocha Forte (Cadaval) segundo Maximiano Apolino seria pr-
romeno. A estao do Outeiro da Assenta (Obidos), explorada pelo sr. Alves 
Pereira, forneceu restos pr-histricos, proto-histricos e romanos. foram 
classificados na 2.  idade do ferro, ou da transio para ela, os restos 
duma fibula e alguns fragmentos de cermica indigena incisa. Na cultura do 
castro de S. Martinho (Castelo Branco) o sr. Tavares Proena distinguiu 
tambm uma parte pr-romane. Santa Olaia, Crasto e Ches, estacoes da 
vizinhana da Figueira da Foz, exploradas por Santos Rocha foram 
classificadas por este arque logo do perodo de La Tne, fornecendo a 
primeira, em que os restos deste perodo estavam intercalados entre restos 
neolticos e romanos e at medievais, abundante cermica pintada, para a 
qual Santos Rocha tinha aventado uma origem ibero-pnice.- trata-se de 
cermica ibrica, anloga  da Andaluzia e que contrasta com a cermica 
ndlgena, feita  mo, com decoraes incisas e estampadas de motivos 
variveis, que domine na maior parte dos castros do noroeste peninsular. Em 
Conmbriga l`Concieixa -a - Velha), sobre os restos importan tes dum po 
voado romano, do qual se tm descoberto moedas, incries, colunas, 
mosaicos, cermicas, sepulturas, etc., explorou Verglio Corra uma camada 
com restos pr-romanos, como fbulas de tipos Itlicos Qa Certosa, etc.), 
cermica como a de Santa Olaia, uma placa de ouro do primeiro perodo de Ia 
Tne, etc. H de Conmbriga uma fibula anular do tIpo indgena da Pennsula, 
o

qual  mais frequente em Espanha do que entre ns. H um espcime anlogo de 
Ches, estao, j citada, dos arredores da Figueira.

132

INDSTRIA E REPRESSO SEXUAL NUMA SOCIEDADE PADANA

Neste trabalho, o socilogo italiano Umberto Eco satiriza clebres trabalhos 
de investigao antropolgica. 0 extracto presente baseia-se no  Pensamento 
Selvagem de Lvi-Strauss, utilizando os modismos e conceitos antropolgicos 
mais caros a esse antroplogo. As preocupaes anti-einocntricas da 
antropologia moderna surgem a bem demarcadas para uma leitura atenta,- 
porm, tal como amide acontece nurn trabalho ocidental, os critrios de 
leitura e abordagem de sociedades estranhas esto carregados da cultura do 
prprio investigador - o que  sublinhado com ironia.

0 texto tem de ser lido como uma pardia, de sinal negativo:  uma expedio 
melansia que se debrua com o seu aparelho conceptual e padres culturais 
especficos, sobre a nossa conhecida sociedade industrial dos anos sessenta 
- mas incompreensvel para os melansios.

0 presente estudo escolhe como campo de pesquisa o aglomerado de Milo, no 
extremo norte da Pennsula Itlica, um protectorado do Vaticano do Grupo das 
Mediterrnicas. Milo encontra-se a cerca de 45 graus de latitude norte do 
arquiplago da Meiansia e a cerca de 35 graus de latitude sul do 
arquiplago de Nansen, no oceano glacial Arctico. Encontra-se, portanto, 
numa posio quase mediana em relao s terras civllizadas e, embora fosse 
facilmente atingvel pelas populaes esqui         .ms, permaneceu todavia 
fora dos diversos itinerrios etnogrficos. Devo o conselho de uma 
investigao s obre Milo ao professor Korao Paliau, do Anthropological 
Institute das Ilhas do Almiran-  tado e pude levar a cabo este estudo 
graas ao generoso auxlio da Abongen Fotindation of Tasmania, que me 
forneceu um grant de vinte e quatro mil dentes de co destinado a perrnitir-
me fazer frente s despesas de viagem e com o equipamento. No teria, por 
outro lado, podido alinhar estas notas com a devida tranquilidade, 
reexaminando o material recolhido no regresso da minha viagem, se o senhor e 
a senhora Pokanau, da ilha de Manus, no tivessem posto  minha disposio 
uma casa palafitica, isolada em relao ao habitual estrpito dos pescadores 
de trepeng e dos mercadores de copta, que toma ram infelizmente 
infrequentveis certas zonas do nosso ameno arquiplago. No me

teria, de resto, sido possvel corrigir as provas e reunir as notas 
bibliogrficas sem a afec tuosa assistncia de minha mulher Aloa, que amide 
soube interromper a confeco de colares de flores. de pua para acudir  
chegada do bote postal e trazer-me para a cas@I palafitica as enormes caixas 
de documentos, que fui pedindo ao Anthropological Documentation Center de 
Samoa, que seriam pesadas demais para mim.

Durante anos, os que se ocuparam com o problema dos usos e costumes dos 
povos ocidentais faziam-no movendo-se segundo um esquema terico a priori, 
que bloqueava todas as possibilidades de real compreens o. A condenao dos 
Ocidentais  categoria de povos primitivos, s porque se dedicaram ao culto 
da mquina, ainda longe de um

contacto vivo com a natureza,  apenas um exemplo do arsenal de falsas opi  
      .ni.oes com que os nossos antepassados julgaram os homens sem cor e os 
Europeus em particular. UI-77a infundada posio histoncista induzia a 
crena de que todas as civilizaes percorrem ciclos culturais anlogos, 
pelo que, examinando-se, por exemplo, o comportamento de urna comunidade 
anglo-saxnica, se admitia que ela se encontrava essencialmente numa fase 
anterior  da nossa cultura e que um desenvolvimento subsequente levaria um


habitante de Glasgow a comportar-se  maneira de um melansio de hoje. 
Devemos  obra Inspirada da doutora Poa Kilipak o facto de termos apurado, 
entretanto, melhor o

conceito de modelo cultural, com todas as concluses espantosas que este 
implica. um habitante de Paris vive segundo um conjunto de normas e de 
hbitos que se Integram num todo orgnico e formam uma determinada cultura, 
to vlida como H nossa, ainda que com traos modais diferentes. A partir 
daqui, abria-se caminho para lima correcta Interrogao antropolgica 
relativa ao homem sem cor e para uma compreenso renovHda da civilizao 
ocidental (porque - ainda que me acusem de relatIvsi---77o cnico -  duma 
civiliza o que se trata, embora os seus modelos sejam diferentes dos 
nossos. E no est provado, se me permitem continuar, que colher cocos 
trepando com os ps descalos a uma palmeira constitua um comportamento 
superior ao do primitivo, que viala de jei comendo batatas fritas do seu 
pequeno saco de plstico).

133

Mas tambm o'mtodo da nova corrente antropolgica podia dar lugar a graves 
equvocos; como, por exemplo, quando o investigador, exactamente por ter 
reconhecido a dignidade de cultura ao modelo estudado, se limitava a 
colher sem crtica os documentos histricos directamente produzidos pelos 
prprios ndigenas submetidos  descrio, da deduzindo as caractersticas 
prprias do grupo.

A Pense Sauvage (ensaio de investigao de campo)

0 dia do indgena milans desenvolve-se segundo os ritmos solares 
elementares. Desperta cedo para se consagrar s incumbncias tpicas desta 
populao, colheita de ao nas plantaes, cultivo de laminados metlicos, 
curtio dos materiais plsticos, comrcio de adubos quimicos com o 
interior, semeadura de transstores, pastoreio de Lambrettas, criao de 
Alfa-Romeos, e assim por diante. Todavia, o indgena no gosta do seu 
trabalho e faz o possvel por evitar o momento de lhe dar comeo; o que  
curioso  que os chefes da aldeia parecem secund-lo, eliminando, por 
exemplo, as vias habituais de transporte, arrancando os carris dos tramways 
tradicionais, confundindo a circulao com largos traos amarelos pintados 
ao longo das ferraduras dos caminhos (com uma significao ntida de tabu) 
e, finalmente, escavando profundas aberturas nos pontos mai .s i.nesperados 
dos trajectos, locais onde numerosos ndigenas se precipitam e so 
provavelmente sacrificados s divindades locais.  difcil explicar 
psicologicamente a atitude dos chefes de aldeia, mas esta destrui o ritual 
das comunicaes liga-se sem dvida a ritos de ressurreio (pensa-se 
obviamente que, sepultando habitantes em srie nas vsceras da terra, da 
imolao destes,  maneira de outras tantas sementes, nascero outros 
indivduos mais fortes e robustos). Mas a populao reagiu imediatamente com 
um claro sndroma neurtico a esta atitude dos chefes, elaborando um outro 
culto nascido aparentemente de gerao espontnea, exemplo categrico de 
exaltao colectiva.- o culto do metropolitano de carga (tube cult). Em 
certas ocasies propaga-se pela cidade 0 Rumor, e os ndigenas so 
possudos pela f quase mstica de que um dia enormes veculos se ho-de 
mover nas vsceras da terra transportando qualquer indivduo que o queira a 
qualquer ponto da aldeia a uma velocidade miraculosa. 0 Dr. Muapach, membro 
particularmente preparado e srio da minha expedio, perguntou-se assim a 
determinada altura se 0 Rumor teria origem em qualquer facto real, e para 
o comprovar desceu s cavernas referidas: mas nada encontrou que sequer 
remotamente fosse susceptvel dejustificar os dizeres dos indgenas.

0 facto de os chefes da cidade quererem manter a populao num estado de 
incerteza comprova-o um ritual matutino, a leitura de uma espcie de 
mensagem hiertica que os chefes fazem chegar s mos dos seus sbditos ao 
romper da madrugada, o Corriere delia Sera: a natureza hiertica da mensagem 
 sublinhada pelo facto de as noes que a mensagem comunica serem puramente 
abstractas e destitudas de qualquer relao com a realidade; noutros casos, 
a referncia toma-se, pelo contrrio, manifesta, conforme pudemos verificar, 
proporcionando assim ao indgena uma espcie de contra-realidade ou 
realidade ideal, na qual ele presume mover-se como numa floresta de colunas 
vivas, quer dizer, de um modo eminentemente simblico e herldico.

Constantemente mantido neste estado de perda, o indgena vive numa tenso 
persistente que os chefes apenas lhe permitem descarregar por altura das 
festas colectivas, quando a populao se lana em grandes massas para dentro 
de construes de forma elptica, donde sai ininterruptamente um clamor 
espantoso.


Inutilmente tentamos entrar numa dessas construes,. com diplomacia 
primitiva, mas muito desenvolta, os indgenas impediram-no sempre, 
pretendendo que adquirssemos o direito de acesso por meio de certas 
mensagens simblicas que aparentemente estavam  venda, mas pelas quais nos 
era pedido um tal montante de dentes de co que no poderamos pag-lo sem 
abandonar a seguir a investigao. Obrigados assim a acompanhar a 
manifestao do exterior, comemos por formar a hiptese, avalizada por 
rumores sonoros e histricos, de que se tratasse de ritos orgsticos; mas a 
seguir tomou-se-nos clara a horrvel verdade. Nestes recintos, os indgenas 
dedicam-se, com autorizao dos chefes, a ritos de canibalismo, devorando 
seres humanos que adquiriram a outras tri    .-

134

bos. A notcia destas aquisies  fornecida pelas habituais mensagens 
hierticas matutinas, nas quais podemos seguir dia aps dia uma verdadeira 
crnica deste gnero de aquisies gastronmicas; dessas crnicas sobressai 
que so particularmente apreciados os estrangeiros de cor, os de alguns 
ramos nrdicos e grande quantidade de sul-americanos. Tanto quanto nos foi 
possvel reconstituir, as vtimas so devoradas em formaes colectivas 
compostas por diversos indivduos, segundo receitas complicadas que se vem 
publicamente expostas nas ruas, onde nos apresentam uma espcie de posologia

no i.senta de reminiscncias alquimicas, do tipo 3 a Z) 4 a 0, 2 a 1. 
Que o canibalismo no representa, todavia, uma simples prescrio religiosa, 
mas um vcio difundido, enraizado em toda a populao, demonstram-no as 
somas enormes que os indgenas parece gastarem na aquisio dos seus 
alimentos humanos.

Parece, no entanto, que entre os grupos mais abastados estes banquetes 
dominicais suscitam um autntico terror, de modo que, no momento em que a 
maior parte da populao se apressa em direco aos refeitrios colectivos, 
os dissidentes entregam-se a

uma fuga desesperada ao longo de todas as vias de sada da aldeia, chocando 
desordenadamente uns com os outros, atropelando-se com os ve culos, 
perdendo a vida em

confuses sangrentas. Estes ltimos milaneses parecem, presos de uma espcie 
de menadismo, entreverem como nica salvao o caminho do mar, dado que a 
palavra que ocorre com maior insistncia ao longo dos xodos sangrentos  Ia 
barca.

0 baixo nvel intelectual destes indgenas est patente no facto de eles 
evidentemente ignorarem que Milo no se encontra sobre o mar; e to escassa 
 a sua capacidade de memorizao que todos os domingos de manh se entregam 
 fuga consuetudinria e

precipitada para voltarem em bandos espavoridos  cidade nessa mesma noite, 
procurando refgio nas suas cabanas, prontos a esquecerem a sua cega 
aventura desde o dia seguinte.

Por outro lado, desde os primeiros anos de existncia, o jovem nativo  
educado de modo a que a confuso e a incerteza sejam colocados como 
fundamento de cada um dos seus gestos. Tpicos a este propsito so os 
ritos de passagem, que tm lugar em instalaes subterrneas, onde os 
jovens so iniciados numa vida sexual dominada por um tabu inibidor.  
caracterstica a dana que apratiam, na qual umjovem e uma jovem se


colocam um em frente do outro, sacudindo as ancas e movendo para trs e para 
diante os braos flectidos em ngulo recto, sempre de modo a que os corpos 
no se toquem. J nesta dana transparece o mais total desinteresse por 
parte de ambos os participantes, completamente esquecidos um do outro, de 
tal modo que, quando um dos danarinos se dobra assumindo a posio habitual 
do acto sexual - mimando as respecti         .vas fases rtmicas -, o outro 
retrai.-se como que horrorizado e procura escapar curvando-se por vezes at 
ao cho,- mas no momento em que o outro, conseguindo alcanc-lo, poderia 
servir-se dele, ele afasta-se de sbito, restabelecendo as distncias. A a-
sexualidade manifesta da dana (um autntico rito incitico orientado pelos 
ideais da abstinncia total) , no entanto, complicada por alguns pormenores 
obscenos. De facto, o bailador do sexo masculino, em vez de ostentar 
normalmente o membro nu e de o fazer voltear entre os aplausos da multido 
(como faria qualquer rapazito nosso ao participar numa festa da ilha de 
Manus ou noutro lugar), conserva-o cuidadosamente tapado (deixo que o leitor 
imagine que estranha impresso de repugnncia isto produz mesmo no 
observador com menos preconceitos). De parte da bailadora, esta no deixa 
soltarem-se-lhe os

seios, e subtraindo-os  vista dos presentes contribui, como  bvio, para a 
criao de desejos insatisfeitos, que no podem deixar de provocar 
frustraes profundas.

0 princpio de frustrao como constituinte da relao pedaggica parece, de 
resto, funcionar tambm nas assembleias de ancios, igualmente realizadas em 
subterrneos, onde aparentemente se celebra um regresso aos valores morais-
naturais elementares.- de facto, uma danarina surge lubricamente coberta de 
variada indumentria, e gradualmente comea a despi-Ia, mostrando o seu 
corpo, de tal modo que o observador  levado a pensar que se prepara assim 
uma resoluo catrtica das emoes despertas, devendo esta sobrevir quando 
a danarina se mostrasse pudicamente nua. Na realidade
- por ordem expressa dos chefes, conforme nos foi dado apurar -, a 
danarina, mesmo no final, conserva uma ou outra pea de roupa fundamentais, 
ou pelo menos desaparece quando finge tir-la, no i .nstante em que traa o 
gesto de o fazer, enquanto a

escurido invade de imprevisto a caverna. De manei      .ra que os indgenas 
saem destes lugares ainda presos da sua perturbao.

135

Mas a pergunta que o investigador coloca  a seguinte.- sero a confuso e a 
frustraco realmente efeito de uma deciso pedaggica consciente, ou, pelo 
contrrio, concorre

para este estado de coisas, influenciando as prprias decises dos chefes e 
dos sacerdotes, alguma causa mais profunda ligada  prpria natureza do 
habitat milans? Terrvel pergunta, porque nela se tocam a dedo as raizes 
profundas da mentalidade mgica que possui os nativos e se desce at s 
matrizes obscenas onde tem origem a noite da alma desta horda primitiva.

Umberto Eco, Dirio Mnimo

4.3. Desmontagem e explicaes de festas,

ritos, acontecimentos do quotidiano, etc. Uma receita de cozinha

A FEIJOADA (Trao cultural)

H 3 grandes universos de preparao de alimentos: cozidos em gua; assados 
(na braza, no fogo, no forno) e fritos. Cada um destes processos corresponde 
a reas que proporcionam ou condicionam as respectivas tcnicas.- cozidos, 
implicam zonas onde a gua  abundante, zonas temperadas ou junto de g     
 ua doce,- os assados correspondem a reas sem vegetao, onde no se 
utiliza nem gua nem gordura para fritos, tpico das zonas quentes e ridas; 
os fritos obrigam  existncia da gordura e a manuteno dum fogo rpido -  
um processo tpico do Mediterrneo, onde abundam as oliveiras e, desde cedo, 
o azeite.

Os ingredientes permitem levantar no apenas os produtos materiais mas ainda 
os itens culturais que se afirmam em certos processos tcnicos de melhoria 
da receita.

RECEITA: Feijo branco, cozido em gua com carnes secas e/ou salgadas, 
chourios, cenoura, loureiro, cominhos, colorau, pimenta ou piripiri; 
refogado de azeite e cebola, depois de ter fervido. Sal.

 um cozido: inclui condimentos tpicos da zona atlntica, como cominhos e 
loureiro,o conjunto de vegetais (feijo, cenoura, cebola) e a utilizao do 
azeite implica terras de regadio. 0 feijo - de origem africana - devia 
inicialmente ser substitudo pelo gro de bico, caracterstico da 
Estremadura espanhola e interior transmontano. A receita pode eventualmente 
corresponder ao Noroeste ou Nordeste transmontano (Terra quente) onde se 
podem juntar estes elementos. A incluso de carne seca ou salgada, da parte 
pobre do animal (orelheira, p, toucinho) e a abundncia de chourios 
(feitos de restos de carne) caracterizam a feijoada como um prato popular. 0 
colorau  um condimento que s se vulgariza no sculo XV e a pimenta no 
sculo XVI - so acrscimos posteriores. Do mesmo modo a introduo do 
frango s surgiria quando a feijoada se torna um

prato que  apropriado pelas classes ricas, eventualmente com a subida da 
burguesia.

0 refogado feito separadamente e introduzido a meio da cozedura  um item 
cultural de outras receitas que imigra para a feijoada.

ESQUEMA: FEIJOADA

Uma Romaria: o Senhor de Matosinhos hoje.

PRIMEIRO ASPECTO

Levantar as caractersticas duma festa.

Excessos.- de bebida, de comida, de gastos, de rudo. Alimentos pesados, 
tradicionais: sardinhas assadas, fogaas, doces de romaria, po de Teixeira, 
farturas. 0 excesso verifica-se essencialmente no gasto de dinheiro em 
bugigangas e inutilidades (influncia do sistema de mercado).

No havendo excesso sexual, nos tempos de hoje, ainda so recentes (at  
dcada de 30) os casamentos combinados na Feira dos Moos. De resto como em 
qualquer romaria os contactos entre rapazes e raparigas mantm-se como 
praxe, e estreiam-se roupas novas.

Inverso de valores: apenas o ultrapassar do horrio de trabalho. A festa 
realiza-se, nos seus momentos mais importantes, durante as horas de sono: 
todo o rudo  permitido- ser sensato na festa no  de aceitar.

0 sagrado e o profano: a festa conjuga os dois elementos. A romaria faz-se 
junto da Igreja, que se torna, mais do que um local de culto e devoo, um 
lugar de exibio: procura verificar-se, qual o altar que se apresenta mais 
bem ornamentado. Todo o profano dos divertimentos rodeia o espao sagrado da 
Igreja- o prprio fogo de artifcio, simbolizando a criao do mundo se 
torna um espectculo profano, um outro excesso de consumo.

Os espaos sociais da festa: aparentemente aberta a todos os grupos, a festa 
cria espaos sociais: a Igreja  enfeitada por famlia eleitas, quase sempre 
as boas famlias, que contribuem com dinheiro para as flores. H reas de 
divertimentos procurados por certos grupos sociais, outras por outros, que 
tacitamente se respeitam. (Se os automveis elctricos atraem todos os 
jovens, nem todos procuram as cadeirinhas,- os apare~ lhos de medir forcas 
tm um pblico diferente daquele que procura os carrocis.)

Os mesmos dias de durao da festa se distribuem socialmente: os filhos e 
filhas de famlia no frequentam a festa ao Domingo, mas apenas ao Sbado 
 noite e  Segunda-feira.

137

GLOSSRIO

ALUCINAO

Percepo dum objecto ausente.  considerado um erro de percepo, porm  
um elemento presente em

qualquer tipo de percepo, dado que o homem apreende objectos a partir da 
sua relao com imagens que interiorizou e conceitos que estabeleceu a 
partir dessas interiorizaces. Toda a percepo inclui, portanto, um

elemento importante, que  alucinalrio.

CHAUVINISMO

Tipo de einocentrismo, que impele a considerar superiores pases, regies e 
grupos em relao a outros.

CINCIA POSITIVA

0 Positivismo  uma corrente criada no sculo XIX por Augusto Cornte; surge 
em funo da optimista atitude do industrialismo e admitia que a cincia 
tinha atingido as possibilidades totais do conhecimento da ver-

dade na Natureza. Essa possibilidade assentava no prprio mtodo cientfico, 
ou seja, na incluo e deduo matemticas e na observaco-experimentao. 
Augusto Cornte dividia a histria da mentalidade em trs estados: teolgico 
- durante o qual o fundamento do saber eram os deuses, aos quais se at@ibua 
o papel de causa de todo os fenmenos, o estado metafsico, que cobrira toda 
a Idade Mdia e Moderna e explicava os fenmenos naturais por causas 
metafsicas, e, finalmente, no sculo do industrialismo e da tcnica, o 
estado positivo, onde surgem as verdadeiras cincias experimentais, que 
levantam os segredos da Natureza por mtodos cientficos. Este optimismo 
acabaria por ser abalado com a crtica ao valor do conhecimento 
experimental, baseado nos sentidos, que se descobre serem susceptveis de 
enganar o observador, do mesmo modo que o instrumento invalida a observao 
a nvel microfsico. Do mesmo modo se estuda a prpria evoluo da razo, 
domi nada pelos paradigmas dominantes na poca. 0 positivismo cientfico  
posto em causa e passa a admitir-se a relatividade do conhecimento e, acima 
de tudo, o seu valor temporrio.

DARWINISMO SOCIAL

A teoria da evoluo das espcies, de Charles Darwin, implicava a eliminao 
dos seres menos adaptados pelos mais adaptados - as mutaes genticas. No 
sculo XIX esta teoria  adaptada  espcie humana, admitindo os darwinistas 
sociais que h raas humanas melhor adaptadas que outras ao ambiente social. 
 a tentativa de cientificaco do Racismo e chega a propor a ideia de 
genocdio das raas consideradas inferiores.
0 critrio de superioridade  o da cultura industrializada ocidental e em 
breve se estabelece uma escala com base na cor da pele: superiores os 
brancos, depois os amarelos e finalmente os mais inferiores, os negros.

EPISTEMOLOGIA


A epistemologia surge como reflexo sobre a validade das cincias e do 
conhecimento cientfico, em funo do desenvolvimento das matemticas 
modernas que criam a noo de conjunto e levam  crtica da ideia do 
pensamento lgico ser a caraclerslica da razo, do mesmo modo a teoria da 
reialividade, a lei da incerteza de Heisemberg na microfsica e a 
verificao da existncia de cores, ondas e frequncias que o homem no 
apreende pelos senfidos, fazem radicar o conhecimento cientfico como 
humano, isto , a Natureza no  conhecida, mas interpretada. 0 
desenvolvimento do estudo da ideologia e do papel do inconsciente abalam 
ainda mais os conhecimentos cientficos, na perspectiva positivista de 
verdade levantada pelos dados da Natureza.

A cincia surge como uma produo onde os elementos inconscientes e 
ideolgicos so muito importantes, pois determinam no apenas a observao e 
a experimentao, como a explicao final. A Epistemologia erganiza-se como 
o saber que se introduz na produo cientfica, recriando as condies de 
produo cientifica para a levantar os seus elementos inconscientes e 
ideolgicos, e assim determinar as alteraes que possam ter sido 
acrescentadas ao conhecimento cientfico.

ESTRUTURALISMO

Herdeiro de certas concepes de totalidade que comeam a surgir na 
Biologia, ainda no sculo XIX, com o organicismo e o estudo da clula, e, j 
na primeira metade do sculo XX, com a Linguslica de Saussu                
   re, o estruturalismo  uma forma de estudar a realidade admitindo que 
esta se organiza - tal como a percepo -

em totalidades orgnicas, ou seja, em estruturas. A estrutura  um modelo de 
interpretao do real, que pretende corresponder a esse real: levanta~se a 
partir,de elementos fixos que do origem a organizao da loialidade e a 
mantm como tal.

Na segunda metade do sculo, partindo dos estudos sociolgicos e 
antropolgicos                  de Marcel Mauss, o antroplogo Claude Lvi-
Strauss introduz o estruturalismo nos estudos antropolgicos,               
 descobrindo a unidade elementar da sociedade humana: as relaes de 
parentesco a partir do tomo social               que  a famlia primiliva.

Na segunda metade do sculo, partindo dos estudos sociolgicos e 
antropolgicos                  de Mareei Mauss, o antroplogo Claude Lvi-
Strauss introduz o estruturalismo nos estudos antropolgicos,               
 descobrindo a unidade elementar da sociedade humana: as relaes de 
parentesco a partir do tomo social               que  a famlia primitiva. 
A crtica mais vulgar que se faz ao estruturalismo  a da desumanizao do 
homem, que desaparece na estrutura, que , de facto, uma noo abstracta, um 
vazio, um espaco que percorre o tempo longo das culluras at ao momento de 
surgir uma transformao ou modificao dos elementos fundamentais, esse 
tempo de destruio da estrutura e aparecimento de uma nova  o da 
conjuntura.

Em Antropologia a estrutura corresponde a totalidades culturais.

138

EVOLUO DARWINISTA

A evoluo das espcies admite que as espcies mais adaptadas sobrevivem, 
enquanto as menos adaptadas se extinguem, sempre que surge uma modificao 
do ambiente. A evoluo surge como uma sucesso de mutaes e adaptaes ao 
meio ambiente.

EXORCISMO

Ritual de afastamento de espritos nocivos que se alojariam no corpo. 0 
termo, em psicanlise, representa o

afastamento, do esprito, daquilo que angustia, substituindo-o por algo que 
gratifique o sujeito.

FUNCIONALISMO

A teoria funcionalista, de origem inglesa,  sistematizada por Bronislaw 
Malinoswki, partindo da noo de funo. Todas as instituies humanas tm 
como origem necessidades primrias do organismo como a alimentaco, a 
reproduo, a homeostasia (manuteno da temperatura do corpo). 0 estudo de 
qualquer insfituio remete sempre para a definio da sua funo, que 
acabar por radicar na funo primria.

GRELHA DE LEITURA EM CINCIAS HUMANAS

As cincias sociais e humanas criaram mtodos prprios de acordo com os seus 
objectos de estudo. Conforme a perspectiva metodolgica e o tipo de 
paradigma de explicao (funcionalista, darwinista ou estrutura-

lista), assim surge o modelo de interpretao, que pode ser uma estrutura, 
uma dada funo ou qualquer um dos conceitos que servem de interpretao do 
real social ou cultural, como aculturao, instituio, etc.

IDIOSSINCRASIA

Em todas as interpretaes h elementos pessoais, de origem emotiva, que 
relevam da sensibilidade, pois toda a percepo implica uma motiva o, um 
interesse, um mbil de origem emotiva. Quando na atitude ou

aco o peso do mbil da sensibilidade pessoal  determinante, a atitude 
diz-se idiossincrtica.

INVERSO DE VALORES

Todas as normas e comportamentos sociais assentam em valores socioculturais; 
o ponto de partida da organizacao dos valores parece ser a dupla bom/mau. A 
parlir desta base estruturam-se lodos os valores que se admitem como 
fundamentais para a manuteno da sociedade e do indivduo como ser social. 
0 clima da festa cria a inverso dos valores, aceitando-se como vlido, 
nesse clima de festa, e de acordo com as tradi es sociais, o exerccio do 
valor contrrio ao aceite e a recusa do valor habitual socialmente aceite. 
Da muitos cos-

tumes mantidos em certas festas religiosas e profanas, de inverso de 
valores sociais, como a escolha do rei da festa - o menos indicado para tal; 
as classes elevadas servirem as menos elevadas; no Carnaval, os disfarces 
correspondendo a essa inverso, etc.

LIBIDO

Para Freud a libido  o lugar do inconsciente onde se situam as pulses 
primrias que a sociedade reprova e

todos os recalcamentos que, pela mesma reprovao, o indivduo se obriga a 
fazer. A libido  responsvel por lodos os elementos inconscientes no 
comportamento humano, to inconscientes que ele ignora a sua existn-

cia e, quando surgem, esto modificados.

MISCIGENAO

Admitindo a existncia de raas, de stocks raciais, a partir de qualquer 
critrio diferencial, a miscigenao representa a mistura dessas raas, 
surgindo elementos que incluem elementos morfolgicos das duas raas em

contacto fsico, os hbridos.

PULSES

Elementos primrios da sensibilidade, orientados para a satisfao - prazer 
- do indivduo ou para evitar o desprazer, a dor. As pulses tendem a 
garantir a sobrevivncia do indivduo, so inatas, embora se possam adquirir 
pulses de tipo secundrio, a partir de hbitos, comportamentos adquiridos. 
As pulses adaptativas levam o indivduo a uma aprendizagem do que lhe possa 
ser til  sobrevivncia.

PARADIGMAS

So modelos de interpretao e explicao, que, com base nos conhecimentos 
da poca, do resposta aos

problemas que se levantam no campo social, poltico, cientfico, econmico, 
cultural, etc. A cincia e os mlodos cientficos correspondem, dum modo 
geral, ao paradigma explicativo da poca. 0 paradigma do Positivismo fazia 
acreditar que a cincia levantava a verdade - que o conhecimento cientfico, 
desde que assegurado pela prtica do mtodo experimental e pela honeslidade 
do cientista era verdadeiro. Os paradigmas de explicao do mundo determinam 
igualmente as explicaes parciais: do paradigma do geocentrismo passou-se 
para o heliocentrismo, e deste para o equilbrio universal de Newton, onde 
assentava o positivismo.

139

REPRODUO SOCIAL

A Scio-Anlise, corrente da Sociologia actual, identifica a socializao e 
a inculturaco como um s fenmeno, de disciplina social, efectuado pelas 
instituies da famlia e da escola. A funo destas instituies , dum 
modo que surge como inconsciente, recriar funes sociais, atravs da 
imitao, da disciplina e do prprio sistema de ensino. A reproduo social 
 o fenmeno de interiorizaco do papel social atravs da apreens o da 
fatia cultural que a sociedade proporciona ao indivduo.

ROBINSON CRUSO

Personagem do autor ingls Daniel Deffe, colocado numa ilha deserta, depois 
dum naufrgio. A sua companhia  um papagaio que ele ensina a falar. Na 
ilha, durante muitos anos, s encontra outra companhia, um

rapaz negro a que ele chama Sexta-feira. Toda a cultura transportada por 
Cruso  utilizada na ilha para dela fazer o mundo humanizado a que se 
habituara: casa, horta, plantaes, etc. 0 exemplo serve para se admitir que 
o homem transporta sempre consigo uma cultura - e uma sociedade -, pois 
mantm, mesmo s, as normas de conduta que interiorizara.

AUTORES CITADOS

ARTAUD, ANTONIN

Poeta e dramaturgo francs, eventualmente actor dos seus textos. Para a 
sociedade, Artaud foi um drogado e um alienado. Esteve internado em 
hospitais psiquitricos durante longas temporadas, uma delas de nove ar-m. 
Nasceu em 1896 e morreu em 1948. A sua obra  ento vista como uma 
experincia da escrita que pretende esvazi-la da significao dada pelo 
pblico; permitir que a escrita corresponda ao que o autor sente e . E no 
para o pblico. ltimo dos poetas malditos franceses, foi autor de Le Pse-
Nerfs, LArt et Ia Mort, Heliogabale ou l'Anarchiste couronn, Le Thatre et 
son Double, e muitas outras de poesia, ensaio, dramatologia. Nos anos 20 e 
30 entra em vrios filmes como Liliom de Fritz Lang.

BALLANDIER, GEORGES

Etnlogo e antroplogo francs. Promove a teoria da multiplicidade de 
culturas e do dinamismo cultural. Algumas obras: Afrique Ambigu, 1957; 
Anthropologiques, 1970; Anthropologie Politique, 1969.

BARTHES,ROLAND

(1915-1980) Linguista e semilogo francs. Divulga o estruturalismo 
psicolgico; rigoroso e rebelde no se limitou a um s gnero e estudava 
para l dos temas eruditos os temas do quotidiano, para a sua desmontagem 
lingustica ou semitica.

Algumas obras: Grau Zero da escrita, Mithologies, 1957; Fragmentos de um 
discurso amoroso, 1977; A Cmara Clara, 1980.

BENEDICT, RUTH

(1887-1948) Sociloga e etnloga americana, praticou o trabalho de campo na 
Amrica do Norte e do Sul. Os seus Padres de Cultura tornaram-se um modelo 
destas cincias.

CLASTRES, PIERRE

(1934-1977) Etnlogo e antroplogo francs. Permance longamente na Amrica 
do Sul recolhendo imenso material sobre os ndios Guarani. Estabelece a 
tese, contra a anlise marxista, de que no  pelo crescimento da produo 
que se define o poder poltico, este controla e determina a incapacidade do 
estado e evita o aparecimento dos excedentes, nas sociedades primitivas.

Algumas obras: A Sociedade contra o Estado, 1974, Estudos de Antropologia 
Poltica, 1980.

EIBEL-EIBESFELIDT, IRENUS

Um dos maiores e mais criativos biiJogos etologistas, numa perspectiva de 
anlise filogentica das espcies. Realizando estadias prolongadas na 
Europa, Amrica e Ocenia, observando e coleccionando documentao sobre 
diversas culturas e, anda, reco41hencio documentos e observando o 
comportamento animal, nomeadamente dos mamferos superiores, ~ estabelecer 
hipteses inovadoras sobre o comportamento filogentico da espcie humana.

Publica a ss ou cm colabwadofes imensas obras referenciando experincias de 
laboratrio ou de trabalho de campo. Amor e c@oVo  urna s nt~ de 
experincias e dedues indispensvel para uma leitura do homem.

EYSENCK, HANS JRGEN

Ps~go ingls contemporneo. Especialista em medidas psicomtricas dos 
fenmenos psquicos, procura provar o carcter inato das capacidades 
intelectuais. A desigualdade do homem, 1977.

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FOUCAULT, MICHEL

Desaparecido em 1984, fo filsofo e historiador francs que perseguiu a 
desmontagem do poder em todas as suas obras. A sua obra estuda todas as 
instituies onde o poder - que no se limita a concentrar-se no Estado e 
nos organismos deste, antes se distribui pelas instituies sociais - se 
manifesta: a priso, a sexualidade, o saber, a linguagem, a loucura.

Algumas obras: Histria da Loucura, 1961; As palavras e as Coisas, 1967; A 
arqueologia do saber, 1969; Hisrria da Sexualidade, de 1976 a 1984.

LABORIT, HENRI

Biologista francs, contemporneo. Parte da Biologia para a 
interdisciplinaridade, investigando as reJaes homem/ambiente.

Algumas obras: Do Solao Homem, 1963, 0 Homem imaginante, Ensaio de Biologia 
Poltica, 1970, A pomba assassinada, 1984.

LEROl-GOURHAN, ANDR

Pr-h isto riador, emiogo e antroplogo francs, contemporneo. Tem como 
objectivo a explicao e compreenso do homem, atravs da 
interdisciplinaridade de contedos e mtodos. A obra de Leror-Gourhan, misto 
de funcionalismo e biologismo  indispensvel em qualquer perspectiva 
antropolgica.

Algumas obras: 0 Gesto e a Palavra, As religies da Pr-Histria.

LVY-BRUHL, LUCIEN

Socilogo francs, 1857-1939. Imps durante quase meio sculo a sua teoria 
da mentalidade pr-lgica dos povos primitivos e selvagens. Algumas obras: A 
mentalidade primitiva, 1922, A Alma primitiva, 1927, A inteligncia 
primitiva, 1936.

LVI-STRAUSS, CLAUDE

Emlogo e filsofo francs, criou a noo de estruturalismo antropolgico 
com a explicao da estrutura do parentesco. Determinou todo o pensamento 
antropolgico da segunda metade do sculo XX.

Algumas obras: As estruturas elementares do Parentesco, 1949, Raa e 
Histria, Tristes Trpicos, Mitolgicos, 1964-71; 0 olhar afastado, 1983.

MALINOWSKI, BRONISLAW

(1884-1942) Antroplogo e emiogo ingls de origem polaca. Estudou em 
trabalho de campo os melansios e adaptou a noo de funo  cultura, 
desenvdvendo o Funcionalismo. Algumas obras: Sexo e represso na Sociedade 
Selvagem, Teoria Crtica da Cultura.

SAI---1LINS, MARSHALL

Antroplogo e etnlogo americano, de Chicago, desmontou o mito da pobreza 
econmica da sociedade primitiva. Algumas obras: Idade da Pedra, Idade da 
Abundncia, A economia das sociedades primitivas, 1971, No corao das 
sociedades, razo utilitria e razo cultural, 19RO

CUTILEIRO, JOS

Antroplogo portugus contemporneo, doutorado pela Universidade de Oxford, 
 leitor de Antropologia na

Universidade de Londres. Publicou A Portuguese Rural Society, 1971,

LIMA, AUGUSTO MESQUITELA

Antroplogo e emlogo portugus contemporneo, professor de Antropologia na 
Universidade Nova, de Lisboa. Fez estudos de trabalho de campo sobre as 
comunidades angolanas. Ajgumas obras: Antropologia ou

Entropo1ogia@ Introduo  Antropologia Cultural, com outros autores.

BIBLIOGRAFIA

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ENCICLOPDIA EINAUDI, ANTROPOLOGIA

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Revista ANALISE SOCIAL

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1987
1 o EDIO
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